mudança

De um jeito muito sem querer, como convém, fui convidado a participar de uma das iniciativas mais felizes da blogosfera brasileira.No último post, em meio a comemorações, rosângelas e soluços, Tiago Casagrande, parceiro de Leandro Gejfinbein, me chamou para a Verbeat.Depois de alguns dias de construção do blog, em que deixei el_rey confuso com a demonstração das minhas incertezas,  quase fazendo com que desistisse do intento, está pronto, limpo e cheirando a novo.Por favor, apontem seus bookmarks e seus leitores de feeds para o novo endereço:  

http://www.verbeat.org/blogs/aldurin

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Lá Fhéile Pádraig*

que se a vida fosse justa, o dia de São Patrício também seria comemorado aqui no Brasil. os argentinos comemoram, e muito.

como, infelizmente, não é, faço votos; obviamente que pela cerveja e pela festa.

porque, sabe o que andam dizendo sobre o parentesco genético entre os bascos, os celtas e os ibéricos, não sabe? (lê aqui.) de maneira que, não fossem minhas preferências religiosas, digo, futebolísticas, sairia amanhã com meu chapéu de veludo verde e um trevo de três folhas adornando minha lapela.

(isso de tingir o rio, como fazem em Chicago, acho que também não daria muito certo no nosso bom e velho Tietê.)

Chicago river green

de qualquer maneira:

viva a Irlanda… viva… (e um suspiro emocionado.)

* Dia de São Patrício, em gaélico irlandês

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lá no bereteio do Tiagón pra alguns saltos e no Gejfin para o puro malte, a rosângela ou Las Vegas.

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Free Tibet

Teríamos um mundo melhor se o Tibet fosse livre. A afirmação contém grandes doses de paixão, certamente. Não é pra menos, já que aqui escreve uma pessoa que nutre profundo respeito por aquele país – e por seu povo.

O nosso olhar ocidental em relação à sucessão dos fatos históricos nos impede de compreender o mundo de uma maneira minimamente semelhante a como os orientais o fazem. Temos correndo nas veias o imediatismo das soluções intempestivas e rápidas – nem sempre limpas –; cuja explicação certamente passa por nossa “juventude”. Enquanto deste lado do planeta nos acostumamos à preocupação e à precaução extremas, antecipando os passos alheios e, literalmente, exterminando qualquer possibilidade de ação do, assim dito, inimigo, os povos do Oriente aprenderam a respeitar o tempo e suas caprichosas reviravoltas.

Enxergamos o tempo histórico como uma linha – e isso nos dá subsídios para acreditar piamente que o que existe neste momento será meramente superado por algo que ainda está por vir. Ou seja, que, indelevelmente, haverá o progresso e que esse progresso é sinônimo de mudança, evolução, revolução… Nada mais falso. A historiografia ocidental está cheia de exemplos e de corroborações absolutamente em contrário.

A língua tibetana separou-se do chinês quatro mil anos antes de começar a chamada Era Comum. Por cinco séculos, do sétimo ao décimo primeiro, o Tibet foi um império consolidado, que ia do golfo de Bengala, na Índia, até muito perto da Mongólia. Durante um curto período, em 763 EC, quando a China enfrentava séria convulsão social, tibetanos estiveram no trono de Chang’an (atual Xi’an). O budismo tibetano é praticado desde o quinto século, inclusive em lugares para além do Tibet, como a Mongólia, partes da China, da Rússia e da Índia. A organização social do país é totalmente baseada em tais ensinamentos religiosos; a “dinastia” dos dalai lamas (literalmente, “oceanos de sabedoria”) está aí desde o século 14 – ao mesmo tempo guias espirituais (umas vez que reencarnações do Avalokiteśvara, a encarnação da bodhisattva da “suprema compaixão de todos os budas”) e chefes de governo de toda a região histórica do Tibet.

Trata-se, portanto, de uma riquíssima e antiqüíssima história. Essa dimensão histórica imensa confere aos tibetanos (e aos orientais de uma forma geral) uma visão ampla, sem antolhos, de tudo o que acontece. Inclusive, é conhecido o episódio em que um imperador chinês, em resposta a um ministro desesperado com a iminente invasão mongol, lhe sugere paciência pois os agressores acabarão indo embora – como tantos outros antes deles, como tantos outros depois deles. Uma invejável capacidade de compreensão que milênios de história conferem a certas civilizações. Realidade completamente distinta da que nós outros, ocidentais, experimentamos.

PotalaA idéia da compaixão para com todos os seres vivos, tão cara ao Budismo em todas as suas variações, é o baluarte da conduta daquele povo. Há séculos cultivando a não-violência, os tibetanos encontraram meios de sobreviver em sintonia com o ambiente inóspito do platô himalaico (uma região com altitudes sempre superiores a 3,000 metros, que permanece congelada durante metade do ano, com níveis de precipitação variando entre 100 e 300mm e temperaturas que atingem -40°C no inverno), especialmente mantendo hábitos herdados do nomadismo; refinando suas tradições culturais – como a própria religião –; construindo maravilhas, como o Palácio Potala (antiga residência do Dalai Lama, na antiga capital, Lhasa) ou as mandalas feitas com areias coloridas (trabalhos incríveis, demorados, cuidadosos – que são sistematicamente destruídas, assim que terminadas).

A atual Região Autônoma do Tibet (TAR, a sigla inglesa), expressão territorial do domínio chinês sobre o país, não corresponde totalmente às regiões tradicionalmente entendidas como Tibet (e consideradas uma nação independente e soberana pelo Governo Tibetano no Exílio). Duas delas, Ü-Tsang e Kham estão incluídas, uma terceira, Amdo, no nordeste, foi repartida por outras províncias chinesas. É o resultado final das políticas presentes no infame “Plano dos 17 pontos para a libertação pacífica do Tibet“, de 1951. Este plano propunha a soberania conjunta de tibetanos e chineses sobre o território tradicional – o que, na prática, não aconteceu. Em 1959, em função da desobediência dos termos por parte dos tibetanos (que se revoltavam nas regiões de Kham e Amdo), os chineses invadem Lhasa. Nesse contexto, o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, foge em exílio para a Índia, e passa a representar o Tibet livre a partir de Dharamsala, onde comanda o Governo do Tibet no Exílio. A invasão, apesar de encontrar pouca ou nenhuma resistência armada dos tibetanos (cujo exército contava algo em torno de cinco mil homens, concentrados em Kham), gerou uma onda de terror e morte por todo o país. Episódios terríveis de filhos obrigados a matar os próprios pais, monges e monjas obrigados a terem relações sexuais nas ruas, assassinatos, torturas, enfim, são amplamente conhecidos e documentados.

Em agosto os Jogos Olímpicos chegam à China. Pequim está se aprontando para mostrar ao mundo o que de melhor o sucesso econômico chinês pode oferecer – aos atletas, inclusive. Todos os olhares estarão voltados a uma nação que, à semelhança do Tibet, tem uma história vastíssima – bordejando o próprio surgimento da humanidade. Qual melhor momento do que este os tibetanos teriam para gritar por socorro e serem vistos? Nenhum. Eles sabem disso. O governo chinês também. E não tem deixado passar incólumes os protestos que têm ocorrido em Lhasa nos últimos dias. Reportagem na BBC nos diz que já são 10 os mortos nos protestos que tiveram seu ápice nesta sexta-feira. Protestos rechaçados com “força excessiva” pelo governo chinês (indiano, nepalês). Nas contas do Governo tibetano, o número chega próximo a 100.

Se houvesse um Tibet livre, este seria um mundo melhor. No entanto, o mundo espera pacientemente a boa-vontade da China para que trate os protestos por liberdade de um povo oprimido “sem fazer qualquer uso excessivo da força na manutenção da ordem”, nas palavras do alto-comissariado da ONU para os Direitos Humanos. E são apenas palavras.

Num ultimato, alguns atletas se recusam a participar dos Jogos – atitude louvável, uma vez que estar na Olimpíada é o sonho máximo de qualquer pessoa que dedica a vida ao esporte. O boicote aos jogos é sugerido por um grupo formado por estudantes americanos, sediados em Nova York (aqui o blog), associado ao Movimento Internacional Tibet Independente (ITIM) e ao Free Tibet.

O tom moderado das críticas da comunidade internacional parecem deixar claro que aos tibetanos resta apenas esperar pelo “menos pior”. As autoridades chinesas novamente utilizam força militar contra a população – uma vez que suas tentativas de apaziguar os ânimos tibetanos não surtiram muitos efeitos. Uma moderna ferrovia foi construída em 2006, ligando Lhasa às províncias chinesas do leste; a capital ainda recebeu inúmeras modificações, especialmente nos arredores dos dois patrimônios mundiais escolhidos pela UNESCO: os palácios Potala e Norbulingka, antiga residência de verão do Dalai Lama. Nada disso, no entanto, resolveu o problema da dominação chinesa; muito pelo contrário, uma vez que apenas a aprofunda, criando condições melhores para a permanência em território tibetano de pessoas da etnia han, o maior grupo étnico da China.

Aparentemente, estamos novamente perdendo a chance de pressionar o governo chinês a reconhecer a independência do Tibet. Um misto de inércia e má-vontade políticas – já que nenhum país é realmente auto-suficiente para enfrentar a poderosa China numa questão que, ademais, se refere a uns quantos monges, no alto de umas montanhas…

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Sites de interesse

Gostaria de dizer, também, que coloquei a maior parte dos links deste post na direção da Wikipédia porque, apesar de alguns comentários em contrário (brincadeira, Idelber!), a ferramenta é um poço infinito de informações. Os verbetes selecionados contêm pequenos erros, mas o essencial (e um pouco mais) está lá; pequenos descompassos entre fontes de informação sempre houve, em qualquer meio. Acredito na Wikipédia, e mais, acredito na auto-regulação da Rede. Amém?

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Um adendo. Às 2h19 do domingo.

Pedro Dória ainda agora escreveu um post sobre a situação no Tibet. Lúcido e objetivo, como sempre, mostra a sinuca de bico em que Pequim se meteu: precisa intervir, posto que há uma dezena de outras minorias que se aproveitariam de um tropeço estratégico; porém, não pode repetir, hoje, o massacre da Praça da Paz Celestial, de 1989.

Eu, de minha parte, torço pra que os chineses errem, que fraquejem, que temam a repercussão de uma ação extrema e violenta contra Lhasa. Quero que o Tibet se liberte, como quero que Xinjiang se liberte.

Também de minha parte, temo os comentários ao post do Pedro Dória. O blog é indispensável, os comentaristas, um bando de gralhas. Um deles, que assina Dino, já me saiu com esta:

Será que vão aparecer os ateus e se posicionarão contra uma teocracia, ou no Irã não e no Tibet pode? Que eles se misturem com a etnia Han e virem tudo chineses e gozem da prosperidade… Vão viver de que mesmos sem os chineses? Vender fotos do Dalai Lama?

É tanta falta de saber o que diz, que eu mal saberia por onde começar. E é isso que me preocupa. Outros já abandonaram os comentários do Pedro Dória… começo a entender o porquê.

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inconveniente

tenho aqui um punhado de sozinho. um punhado disforme de sozinho, que se não houver protestos em contrário, e não haverá, colocarei sem muito jeito em cima da mesa.

não sei bem como esse tanto de sozinho chegou até mim. é bonito até — como que feito de uns cristais muito pequenos. a intenção normal de quem fala sobre o sozinho é a de mostrar como é estranho segurar isso, mas não é tão ruim. e no entanto: fico sem jeito segurando isso. devo parecer um daqueles turistas que se vê em praias muito quentes, insistindo em suas roupas fechadas e grossas; se o sol lhes queimar as peles, aposto, derretem. derretem, e o problema termina.  o sol segue queimando. pobres turistas.

o que faço com esse tantinho de sozinho?

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um Rios de alegria

Não sei onde está o problema, de fato. A gente se acostuma a encontrar mil explicações pra situações que não são passíveis de racionalização. Então talvez seja só mais um tiro n’água esse texto, essa tentativa de dizer “Tem jeito”. Não sei se “tem jeito”.

Um sambista disse que “a vida , meu caro, não tem solução”, unicamente porque não é um problema a ser resolvido. Sambistas sabem das coisas. Não me atrevo a discordar… Mas nesses anos todos (e quanta pretensão dizer assim, afinal, são alguns poucos anos) descobri que, apesar de não ser um grande e insolúvel problema, a vida guarda certos descaminhos, certos meandros, labirintos — dos quais a gente normalmente não sabe (ou não quer, paranoicamente) sair.

Um desses labirintos é a sensação eterna de que não há muitos prêmios na reta de chegada para “caras esquisitos e divertidos”. Nem tudo parece simples — mas a gente complica bastante, é um fato. É uma confusão de entendimentos, que culminam em certas atitudes em relação ao mundo — que, inclusive, influenciam no modo como o mundo nos vê; daí o “esquisitos”.

Mas aí, de repente, a gente lê algo assim:

E eu tô feliz. E eu acho que esse post é sobre ser feliz. Não é um lance para me exibir. Qualquer pessoa que leia esse blog há uns meses, sabe que eu sempre falei de tudo da minha vida aqui, em especial, da “vida amorosa”. E essa sempre foi miserável. Logo não há nada mais justo que escrever quando eu estivesse melhor.

É o Ronald Rios falando. Sem muita permissão, reproduzo um pedacinho do texto aqui (que deve ser lido inteiro); e, de quebra, reproduzo também a alegria que escorre pelo post do rapaz. Um dentre os muitos “caras esquisitos que são legais e divertidos, mas só tomam rejeição na cabeça” que, finalmente, encontrou seu motivo para sorrisos bobos.

Desejo sorte. Esse talvez seja um dos eventos mais festejados da internet mundial na última semana. (E digo isso embasado em estatísticas sérias e metodologicamente aprovadas, claro.)

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Em uma lista de e-mails que assino, formada basicamente por estudantes de Geografia, uma celeuma instalou-se depois que uma pessoa disse estar procurando interessados em adotar um cachorro abandonado. Não sei bem por quais caminhos tortuosos a conversa acabou por desaguar num embate ferrenho entre os “defensores dos animais” e os “defensores dos homens”.

O primeiro grupo reunia aqueles que suportavam a pessoa que buscava novos donos para o cachorro abandonado. Usando argumentos nesse sentido, que variavam muito pouco – o mais comum: o fato de, aparentemente, “terem (mais) coração” a ponto de se disporem a buscar uma nova casa para o pobre animal.

As pessoas do segundo grupo, de certo modo, mais incisivas na forma como escolheram construir e transmitir suas mensagens, diziam, entre outras coisas: “vamos, então, encontrar casas novas para todos os animais de rua tomando cuidado para não tropeçarmos em mendigos”.

Obviamente, são duas posições radicais. Opondo, numa dicotomia que permeia a própria Geografia, a Natureza e a Sociedade. A primeira, um suporte para a existência do Homem – que encontra em seus elementos, os (infinitos) recursos naturais de que precisa para se manter; ignorando sumariamente os processos naturais todos que concorreram para a criação dos tais recursos. Em outra oportunidade, falei disso quando tentei demonstrar a inerente incoerência do termo “meio ambiente”, que se esforça em criar e “naturalizar” essa distinção.

Depois de inúmeras mensagens, resolvi dar minha contribuição, que reproduzo aqui.

Sem querer me intrometer, mas acredito que este seja o caso pra o uso da conjunção “e” e não da conjunção “ou”.

As duas coisas são possíveis. Senhores, senhoras, as duas coisas são absolutamente possíveis se agirmos coerentemente.

Preocupação única e exclusiva com um ou outro ponto é expressão da dicotomia que, inclusive, nos divide. Não há uma separação clara entre o que é Social e o que é Natural — a não ser aquela que criamos, logicamente. Estamos incluídos no mesmo sistema (não é essa a fundamentação para a crítica ao termo “meio ambiente”, meus caros?). A Natureza está ofendida em seus processos em função de nossa interferência pouco sutil, a Humanidade se encontra (desde sempre) à mercê dos efeitos dos “humores” da Natureza — tal e qual todas as outras formas viventes (ou não) desse planeta.

Não vejo qualquer mal em encontrar novos donos para cachorros abandonados. Me incomoda profundamente ver pessoas dormindo ao relento. Me irrita saber de toda a destruição da Amazônia — a perda “natural”, sim, mas também (e em maior medida, talvez) as atrocidades sociais cometidas em função disso. Atuando na preservação da floresta, creio, estaremos unindo forças para a solução do problemas graves que as populações locais enfrentam, no embate direto com os interesses do agronegócio. E isso é um exemplo, claro, que busca mostrar a associação direta entre as coisas — que, no mais das vezes esquecemos, em função de sectarismos que não ajudam, apenas e tão-somente dividem. E que pode ser dito noutro sentido: ao atuar na defesa das populações locais, necessariamente estaremos atuando na preservação da floresta.

O professor Ricardo Castillo, numa de suas aulas, nos disse algo que pretendo levar como norte da minha carreira acadêmica: ciência, quando vira dogma, deixa de ser ciência. Então, talvez, seja o caso de tomarmos cuidado com certos extremismos absolutamente evitáveis.

Em situações como essa, muito comuns dentro da academia, reforço meu pavor de radicais – sejam de qualquer cepa. A ciência transformada em dogma, como ressaltou meu professor, não serve à investigação científica honesta. Se não estamos dispostos a cogitar mudanças mesmo em nossas convicções mais profundas, talvez seja o caso então de trocarmos de ramo de atividades.

A busca do cientista é pela verdade livre de paixões; que vai existir até o momento em que for posta de lado em benefício da dúvida, que criará uma nova verdade, num ciclo lento e livre.

A Ciência como religião não me serve. Mas faz muitas cabeças por aí.

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Em uma lista de e-mails que assino, formada basicamente por estudantes de Geografia, uma celeuma instalou-se depois que uma pessoa disse estar procurando interessados em adotar um cachorro abandonado. Não sei bem por quais caminhos tortuosos a conversa acabou por desaguar num embate ferrenho entre os “defensores dos animais” e os “defensores dos homens”.

O primeiro grupo reunia aqueles que suportavam a pessoa que buscava novos donos para o cachorro abandonado. Usando argumentos nesse sentido, que variavam muito pouco – o mais comum: o fato de, aparentemente, “terem (mais) coração” a ponto de se disporem a buscar uma nova casa para o pobre animal.

As pessoas do segundo grupo, de certo modo, mais incisivas na forma como escolheram construir e transmitir suas mensagens, diziam, entre outras coisas: “vamos, então, encontrar casas novas para todos os animais de rua tomando cuidado para não tropeçarmos em mendigos”.

Obviamente, são duas posições radicais. Opondo, numa dicotomia que permeia a própria Geografia, a Natureza e a Sociedade. A primeira, um suporte para a existência do Homem – que encontra em seus elementos, os (infinitos) recursos naturais de que precisa para se manter; ignorando sumariamente os processos naturais todos que concorreram para a criação dos tais recursos. Em outra oportunidade, falei disso quando tentei demonstrar a inerente incoerência do termo “meio ambiente”, que se esforça em criar e “naturalizar” essa distinção.

Depois de inúmeras mensagens, resolvi dar minha contribuição, que reproduzo aqui.

Sem querer me intrometer, mas acredito que este seja o caso pra o uso da conjunção “e” e não da conjunção “ou”.

As duas coisas são possíveis. Senhores, senhoras, as duas coisas são absolutamente possíveis se agirmos coerentemente.

Preocupação única e exclusiva com um ou outro ponto é expressão da dicotomia que, inclusive, nos divide. Não há uma separação clara entre o que é Social e o que é Natural — a não ser aquela que criamos, logicamente. Estamos incluídos no mesmo sistema (não é essa a fundamentação para a crítica ao termo “meio ambiente”, meus caros?). A Natureza está ofendida em seus processos em função de nossa interferência pouco sutil, a Humanidade se encontra (desde sempre) à mercê dos efeitos dos “humores” da Natureza — tal e qual todas as outras formas viventes (ou não) desse planeta.

Não vejo qualquer mal em encontrar novos donos para cachorros abandonados. Me incomoda profundamente ver pessoas dormindo ao relento. Me irrita saber de toda a destruição da Amazônia — a perda “natural”, sim, mas também (e em maior medida, talvez) as atrocidades sociais cometidas em função disso. Atuando na preservação da floresta, creio, estaremos unindo forças para a solução do problemas graves que as populações locais enfrentam, no embate direto com os interesses do agronegócio. E isso é um exemplo, claro, que busca mostrar a associação direta entre as coisas — que, no mais das vezes esquecemos, em função de sectarismos que não ajudam, apenas e tão-somente dividem. E que pode ser dito noutro sentido: ao atuar na defesa das populações locais, necessariamente estaremos atuando na preservação da floresta.

O professor Ricardo Castillo, numa de suas aulas, nos disse algo que pretendo levar como norte da minha carreira acadêmica: ciência, quando vira dogma, deixa de ser ciência. Então, talvez, seja o caso de tomarmos cuidado com certos extremismos absolutamente evitáveis.

Em situações como essa, muito comuns dentro da academia, reforço meu pavor de radicais – sejam de qualquer cepa. A ciência transformada em dogma, como ressaltou meu professor, não serve à investigação científica honesta. Se não estamos dispostos a cogitar mudanças mesmo em nossas convicções mais profundas, talvez seja o caso então de trocarmos de ramo de atividades.

A busca do cientista é pela verdade livre de paixões; que vai existir até o momento em que for posta de lado em benefício da dúvida, que criará uma nova verdade, num ciclo lento e livre.

A Ciência como religião não me serve. Mas faz muitas cabeças por aí.

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