Blog Action Day – Meio Ambiente

No último dia 26 de setembro realizou-se na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) de São Paulo o primeiro leilão de créditos de carbono no mundo realizado numa bolsa de valores e, em tempo real, pela Internet. Foram 808mil toneladas de créditos, gerados por um projeto da prefeitura municipal de São Paulo que consiste na utilização dos gases recolhidos no aterro sanitário da rodovia dos Bandeirantes para a produção de energia elétrica. Caso não fossem canalizados e reutilizados, esses gases contribuiriam para o agravamento do efeito estufa.

O lote foi inteiramente arrematado por um grupo financeiro belga-holandês, que pagou, depois de muita briga, 16,20€ por tonelada. Totalizando, em um único e primeiro leilão, para os cofres da cidade de São Paulo, a quantia de 13 milhões de euros.

Em face do exposto, digo que hoje, dia 15 de outubro é o Blog Action Day, um dia em que um grande número de blogs se unem na discussão de um tema escolhido pela organização do evento. O tema desse ano é o meio ambiente. Li no blog da Lucia Malla a sua contribuição para o dia e lá mesmo, em sua caixa de comentários, deixei meu pitaco com relação ao assunto, que agora reproduzo aqui, com um pouco mais de calma.

Há que se salientar, no entanto, que o farei segundo uma visão própria a mim e a alguns outros como eu que temos alguma resistência em enxergar o estado-d’arte tal qual ele nos é apresentado diariamente, com certa insistência, inclusive.

O conceito de “meio ambiente”

De início digo que, conceitualmente, o próprio termo “meio ambiente” me incomoda. Isso porque, segundo alguns autores, há nessa união “meio + ambiente” uma redundância que mais confunde do que esclarece. Lendo o termo sem cuidado, podemos ser levados a crer que há o Homem e há a Natureza, distintos, separados, cada qual vivendo sua parte do mundo; uma vez que, postas assim as palavras, a Natureza estaria alijada de todos os processos sociais, econômicos, políticos, produtivos, etc., dos quais ela seria, tão-somente, base sustentadora.

E nisso incluem-se tantos outros termos, massificados e reproduzidos sem a reflexão necessária, como, por exemplo, os famigerados “recursos naturais”. Na equação matemática a que reduzimos o mundo contemporâneo, os elementos ditos naturais são considerados itens inesgotáveis, cuja função principal é manter a continuidade dos projetos de produção e consumo.

Já aqui é possível notarmos que o “meio ambiente”, enquanto elemento externo à existência humana não é possível, uma vez que para mantermos nossa existência nos moldes atuais, precisamos incorporar ao processo produtivo elementos dessa Natureza, transformados em “recursos” – cuja preservação está na ordem do dia. Aliás, uma preservação que existe apenas em função de que, extinguidos esses recursos, não há possibilidade de manutenção do modo de vida (e de produção, que se confundem) atuais.

O “desenvolvimento sustentável”

Ainda dentro desse tema, outra idéia que não resiste a uma análise mais crítica é o famoso “desenvolvimento sustentável”. Muito já se laureou esse discurso que de uns anos pra cá tornou-se panacéia do capitalismo, sendo visto como a solução, se não definitiva, a mais promissora para os problemas criados pelo próprio capitalismo. O que poucos dizem, no entanto, é que esse conceito é, em si, uma contradição. Uma contradição entre seus termos – que num trabalho mais honesto, jamais poderiam ser colocados lado a lado.

Não há meios de algo ser sustentável se, para seguir existindo, precisa, necessariamente, destruir aquilo que lhe sustenta. É impossível (além de uma mentira deslavada), prática e conceitualmente. Para que a produção de carros aumente cada vez mais, no sentido de que cada vez carros sejam vendidos, é preciso, cada vez mais, que se explorem as minas de bauxita (que produzirão o alumínio), os poços de petróleo (que produzirão os plásticos, os combustíveis, as tintas…). Os poços de petróleo e as minas de bauxita, como exemplo, não se recompõem em décadas, em séculos, em milênios. Onde está a sustentabilidade? Na reciclagem de materiais?

A reciclagem de materiais

O Brasil foi campeão em reciclagem de latas de alumínio nos últimos anos, segundo nos diz a imprensa. Comemorações aqui e acolá, reportagens com os “recicladores” e com os “catadores de recicláveis”, um pessoal miserável que não encontrou outro meio de sobrevivência que não sair pelas ruas, recolhendo tudo o que podem vender a preço de banana para as usinas de reciclagem. Catam garradas PET também. Aos montes – que não valem uma moeda furada. Antes, quando íamos no mercado com o vasilhame vazio comprar o líquido, as empresas de bebida tinham um gasto gigantesco com o recolhimento, a higienização e a reposição desses vasilhames.

Um dia inventaram a embalagem PET (politereftalato de etila), que basta ser inflada e enchida com o líquido que se deseja, mandada aos postos de venda e ponto final. Daí pra frente, o discurso da reciclagem toma as providências, e o que antes era investimento das empresas passa a ser “responsabilidade sócio-ambiental”, muitas vezes com dinheiro público envolvido na criação de cooperativas e associações.

Sustentabilidade? Onde? Se a cada nova remessa de refrigerantes, um carregamento de plástico chega da fábrica. De onde veio esse petróleo? Das usinas de reciclagem?

Feita essa pequena introdução, para que falemos a mesma língua, me volto agora para a questão do “aquecimento global”, abordado pela Lucia Malla em seu ótimo blog e pela imensa maioria dos blogs que se engajaram no dia de hoje.

E o “aquecimento global”?

Indo direto ao ponto: quem me garante que as alterações climáticas globais que acontecem hoje a olhos vistos não são fruto de processos, também globais e cíclicos do nosso pequeno planeta em seu passeio pelo Universo?

A maior parte dos argumentos que refutam essa minha pergunta vêm dos relatórios lançados com grande estardalhaço pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas). O IPCC, órgão ligado à ONU tem dois níveis de atuação. Um primeiro formado, em grande parte, por cientistas do mundo todo (das mais diversas áreas, pessoas respeitadas e capacitadas), que são os responsáveis pela produção dos diagnósticos apresentados pelo órgão e, em outro âmbito, o secretariado do IPCC, composto, basicamente, por figuras políticas, responsáveis por manejar o curso das proposições vindas dos cientistas.

Fosse apenas um grupo de cientistas, como há vários, provavelmente os diagnósticos não seriam sequer levados em consideração. Como tem, também, a sua parcela política, seus gritos ganham uma força poucas vezes vista. Suas previsões (quase sempre catastróficas) ressoam mundo a fora, impulsionadas por uma mídia muito bem coordenada e ávida por notícias e manchetes que tenham saída.

Em letras garrafais: “O ÁRTICO ESTÁ DESCONGELANDO!”, vende jornais. E, concomitantemente, cria um certo ar de caos e desesperança que contamina a todos, indistintamente. Ainda que essa contaminação, em alguns, tenha efeitos menos nocivos, por assim dizer, do que em outros.

No momento em que um homem público, da envergadura de Al Gore, “ex-futuro presidente” dos Estados Unidos (como ele costuma se apresentar), sai pelo mundo acompanhado de seu laptop, ministrando palestras que incentivam ainda mais essa visão desesperada da situação climática do planeta, com toda a mídia atrás de si, fica difícil ir em outra direção.

Mas há elementos e provas empíricas, cientificamente recolhidas, isto é, com métodos e critérios, de que a coisa pode não ser bem assim, de que, apesar de toda a influência antrópica (notável) dos últimos 200 anos, esse processo de aquecimento planetário, pode ser resultado de mudanças cíclicas dentro de um sistema que não é fechado.

A Terra, enquanto sistema aberto, por definição, não está lacrada a influências externas. Mudanças em sua órbita, no grau de inclinação de seu eixo, na velocidade de sua rotação, ou ainda, alterações na intensidade de emissões de radiações solares podem, sim, ser enquadradas como possibilidades dentro desse quadro imenso e complicado.

O que tento dizer aqui, neste texto imenso, é que é preciso levarmos em consideração fatos além daqueles ligados “apenas” às intensas modificações causadas pelo Homem em seu curto espaço de utilização desse planeta. A Terra tem entre 4,5 e 5,0 bilhões de anos, desde que a massa informe de poeira se conformou, mais ou menos, nesse pedacinho de pedra girando ao redor de uma estrela. Os diagnósticos do IPCC, os dados apresentados por Al Gore em seu documentário, os argumentos de uma significativa parcela da comunidade científica, não leva isso em consideração e fixa-se num relativamente curtíssimo espaço de tempo para dizer que, bom, estamos mal arrumados.

E mesmo que estivermos, mesmo que o aquecimento global seja uma realidade irremediável e macabra em nosso futuro. Não podemos esquecer, mais uma vez, que certamente a espécie humana sobreviverá a mais essa por um grande e importante fator: a evolução técnica. A julgar pelo que se viu até hoje, não é difícil (e não me parece um determinismo técnico prejudicial) imaginar que a humanidade encontrará meios de seguir existindo. Também julgando pelo que se viu até hoje, é uma lástima pensar que apenas uma parcela da população terá à sua disposição as novidades que possibilitarão sua sobrevivência. E, chutando, não imagino que vá ser a imensa maioria, miserável, que vive às margens dos grandes oceanos.

__________

Um post que participa do Blog Action Day, discutindo e opinando sobre o tema Meio Ambiente.

 

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em geografia, la comedie des jours. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Blog Action Day – Meio Ambiente

  1. Hugo disse:

    Reciclagem às custas de indivíduos miseráveis, tanto monetaria (pobres) quanto humanamente (desumanos). Os primeiros são aqueles que catam a latinha que acabou de ser jogada no chão – ainda suja de cerveja e baba – junto com seus filhos de 8 ou 9 anos de idade, que aprenderam que brigar na porta do estádio de futebol logo depois do jogo à uma hora da madrugada, garantirá o sustento de sua família. Os segundos são aqueles que babam. Se não na lata de cerveja, pelos títulos institucionais.

    Algumas das ameaças trazidas com o tal do aquecimento global são miséria e fome. Nossa! Mas isso já não existe? E olha que não é por falta de dinheiro e nem de comida.

    Abraço, meu velho!

  2. Lucia Malla disse:

    Eu respondi lá, Thiago. Seu texto está muito bom tbm, e suas questões são altamente pertinentes. Em minha opinião pessoal e colateral, o grande lance é q os seres humanos DETESTAM viver em incerteza (e o clima é um desses aspectos, apenas), mas entram na contradição de que nada na vida é certo, a não ser a morte. ;)

  3. Lucia Malla disse:

    Ah, e só mais um adendo: eu tbm não gosto do termo “meio ambiente”. Ambiente é um só, por inteiro, foi assim q aprendi nas aulas de Ecologia da faculdade. Infelizmente, a popularização desse termo em português só confunde mais, a meu ver.

  4. Lucia Malla disse:

    Eu de novo (já tá ficando chato, hehehhe!). Thiago, queria deixar registrado aqui q fiquei muito feliz q vc tenha resolvido comentar no meu blog, pois me deu a chance de ouro de conhecer o seu blog, q é muito bom. Obrigada por me fazer chegar à pairagem tão preciosa, do qual serei visitante frequente a partir de agora.

  5. Pingback: acaba mas até continua

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