considerações e dúvidas

(Contém spoillers.)

Li O Estrangeiro, de Albert Camus, “numa sentada”, como se diz. Não poderia haver cenário mais agradável: um quiosque na Praia Grande de Ubatuba (que apesar de ser a mais lotada da centena de praias do município, tem a mesma água verde-azulada da mais escondida e de difícil acesso), sentado confortavelmente, descalço, observando vez por outra o mar e suas pancadas, bebericando e petiscando (com muito comedimento, porque aqui não somos dados a exageros).

Um livro inquietante, pra dizer o mínimo. Uma narração descritiva, detalhada por certo, mas não cansativa — como podem ser cansativos livros excessivamente detalhistas em suas descrições, especialmente aqueles escritos por pessoas pouco talentosas. A impressão de que a história começa de repente, de que os acontecimentos vão se sucedendo com grande velocidade (ainda que o livro tenha um ritmo lento), de que algumas poucas páginas depois (o leitor desavisado já sem fôlego) e Mersault está preso e condenado.

“Preso por não ter chorado no velório da mãe”. Um exagero de Camus — um absurdo. Mas um absurdo real, fatídico. O júri que o condena ouve atentamente a apresentação do promotor público que, durante todo o tempo “fala mais da alma” do jovem, de seu comportamento pouco usual em relação a passagens obviamente consternadoras, do que propriamente do crime que cometera Mersault.

Nesse ponto, com relação a esse julgamento, tão eficiente a ponto de condená-lo à morte, ficou um apontamento, uma dúvida. Que, claro, pode ser só uma idiotice, uma tolice, mas que preciso expor, afim de não deixar que se perca.

O estrangeiro é essa pessoa que, estando neste mundo de aparências, queda-se alijado do habitual, do comportamento recomendado. Ignora por preguiça certas regras, certas condutas que, num momento oportuno, potencializam e certificam sua atitude criminosa e culminam com a caracterização de um monstro social, um pária, um verme — que, como tal, será exterminado.

Até que ponto a liberdade individual é limitada por esses ritos socialmente reproduzidos? Há sempre uma voz que se levanta contra a supressão dessas liberdades em partes muito específicas do mundo, pretendendo estender este ideal aos oprimidos – mesmo que à custa de mais opressão; nesse caso, não importam os meios. O ideal de liberdade almejado corresponde ao que experimentamos nós outros, habitantes de democracias do tipo ocidental? O que dizer da influência constante e, por vezes, imperceptível desses hábitos, desses códigos morais, do agir aguardado — vale dizer, da atitude de minha imagem na existência do outro? Há, de fato, essa liberdade que defendem como um ideal?

(São grilhões; firmemente presos a uma placa de concreto. Correntes com imensas bolas de ferro na ponta — que arrastamos; que carregamos por toda parte, derrubando outras possibilidades como a pinos de boliche.)

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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