Em uma lista de e-mails que assino, formada basicamente por estudantes de Geografia, uma celeuma instalou-se depois que uma pessoa disse estar procurando interessados em adotar um cachorro abandonado. Não sei bem por quais caminhos tortuosos a conversa acabou por desaguar num embate ferrenho entre os “defensores dos animais” e os “defensores dos homens”.

O primeiro grupo reunia aqueles que suportavam a pessoa que buscava novos donos para o cachorro abandonado. Usando argumentos nesse sentido, que variavam muito pouco – o mais comum: o fato de, aparentemente, “terem (mais) coração” a ponto de se disporem a buscar uma nova casa para o pobre animal.

As pessoas do segundo grupo, de certo modo, mais incisivas na forma como escolheram construir e transmitir suas mensagens, diziam, entre outras coisas: “vamos, então, encontrar casas novas para todos os animais de rua tomando cuidado para não tropeçarmos em mendigos”.

Obviamente, são duas posições radicais. Opondo, numa dicotomia que permeia a própria Geografia, a Natureza e a Sociedade. A primeira, um suporte para a existência do Homem – que encontra em seus elementos, os (infinitos) recursos naturais de que precisa para se manter; ignorando sumariamente os processos naturais todos que concorreram para a criação dos tais recursos. Em outra oportunidade, falei disso quando tentei demonstrar a inerente incoerência do termo “meio ambiente”, que se esforça em criar e “naturalizar” essa distinção.

Depois de inúmeras mensagens, resolvi dar minha contribuição, que reproduzo aqui.

Sem querer me intrometer, mas acredito que este seja o caso pra o uso da conjunção “e” e não da conjunção “ou”.

As duas coisas são possíveis. Senhores, senhoras, as duas coisas são absolutamente possíveis se agirmos coerentemente.

Preocupação única e exclusiva com um ou outro ponto é expressão da dicotomia que, inclusive, nos divide. Não há uma separação clara entre o que é Social e o que é Natural — a não ser aquela que criamos, logicamente. Estamos incluídos no mesmo sistema (não é essa a fundamentação para a crítica ao termo “meio ambiente”, meus caros?). A Natureza está ofendida em seus processos em função de nossa interferência pouco sutil, a Humanidade se encontra (desde sempre) à mercê dos efeitos dos “humores” da Natureza — tal e qual todas as outras formas viventes (ou não) desse planeta.

Não vejo qualquer mal em encontrar novos donos para cachorros abandonados. Me incomoda profundamente ver pessoas dormindo ao relento. Me irrita saber de toda a destruição da Amazônia — a perda “natural”, sim, mas também (e em maior medida, talvez) as atrocidades sociais cometidas em função disso. Atuando na preservação da floresta, creio, estaremos unindo forças para a solução do problemas graves que as populações locais enfrentam, no embate direto com os interesses do agronegócio. E isso é um exemplo, claro, que busca mostrar a associação direta entre as coisas — que, no mais das vezes esquecemos, em função de sectarismos que não ajudam, apenas e tão-somente dividem. E que pode ser dito noutro sentido: ao atuar na defesa das populações locais, necessariamente estaremos atuando na preservação da floresta.

O professor Ricardo Castillo, numa de suas aulas, nos disse algo que pretendo levar como norte da minha carreira acadêmica: ciência, quando vira dogma, deixa de ser ciência. Então, talvez, seja o caso de tomarmos cuidado com certos extremismos absolutamente evitáveis.

Em situações como essa, muito comuns dentro da academia, reforço meu pavor de radicais – sejam de qualquer cepa. A ciência transformada em dogma, como ressaltou meu professor, não serve à investigação científica honesta. Se não estamos dispostos a cogitar mudanças mesmo em nossas convicções mais profundas, talvez seja o caso então de trocarmos de ramo de atividades.

A busca do cientista é pela verdade livre de paixões; que vai existir até o momento em que for posta de lado em benefício da dúvida, que criará uma nova verdade, num ciclo lento e livre.

A Ciência como religião não me serve. Mas faz muitas cabeças por aí.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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3 respostas para

  1. Leda disse:

    meu orgulho!

    saudade..

  2. CoRa disse:

    então são duas orgulhosas ;)
    e… saudosas!

    bj

  3. Thiago Gonçalves disse:

    =)

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