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Durante esta semana, dois posts me chamaram a atenção e me levaram a comentar — o que normalmente faço, mas nesses dois casos, com maior cuidado. Pretendo reproduzi-los aqui, neste post. Não sem antes, breve contextualização.

O primeiro, no blog Catatau!, conversando com o sempre gentil Catatau sobre o uso que se faz dos dados estatísticos no Brasil, de como esse uso tornou-se corriqueiro, inclusive acostumando-nos a certas imprecisões em nome deste ou daquele discurso. Isso a tal ponto que, na gravíssima questão sobre o desmatamento ilegal da floresta amazônica – especialmente no estado do Mato Grosso, o campeão deste triste ranking –, chegou mesmo a acontecer um bate-boca federal, entre o Presidente Lula e sua Ministra do Meio-Ambiente, Marina Silva, sobre os dados produzidos e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Lula dizendo que houve alarme exagerado, Marina confirmando a pesquisa do instituto, ressaltando o perigoso momento que vivemos.

Disse ao Catatau algumas coisas que costumamos, os geógrafos, saber mas não contar. Inclusive, tentei mostrar que o desmatamento da Amazônia não está, absolutamente, desassociado do projeto torto e mal ajambrado de nação que temos, todos nós, construído; que essa situação é, como tantas outras, resultado direto de séculos de desajustes no trato com nosso território – contribuindo, inclusive para o que costumamos chamar extrovertimento do território: o tempo todo voltado pra fora, respondendo a desejos externos.

A conversa prosseguiu e acabei falando um pouco sobre minhas aulas. Coloco aqui o comentário inicial e convido a quem tiver interesse, de seguir o link até o blog do Catatau.

Catatau,

Só interpretando os fatos com explícita má-vontade deixamos de concluir que o aumento descontrolado do desmatamento da Amazônia está diretamente ligado à atividade do agronegócio no norte/nordeste do Mato Grosso e no sul do Pará.

Não é esse o expediente nessas áreas desmatar a cobertura vegetal original, transformar antigas florestas em pastagens e, depois de pouco tempo, implementar as lavouras de soja (ou algodão ou, mais recentemente, de cana-de-açúcar)?

Estou com a ministra Marina Silva. E não me surpreende, no frigir dos ovos, a posição que o presidente tem assumido nesse caso. O governador Blairo Maggi é (ou era, precisaria verificar os dados) o maior produtor individual de soja do planeta, interessado, por certo, em aumentar ainda mais sua produção. O chamado “novíssimo ‘front’” da soja, no nordeste do Mato Grosso, na fronteira com o Tocantins, na “área de influência” da ferrovia Norte-Sul, em implantação, foi aberto por ele, com essa fazenda, citada no seu texto. Dali, a soja já se espalha por todo o Tocantins, oeste da Bahia, sul do Maranhão e do Piauí. Além das áreas já tradicionais, no Mato Grosso, em Goiás e no sul do Pará.

É muita soja.

Hoje, discutindo esse tema com meus alunos, acabamos chegando ao ponto que considero crucial: as imensas plantações de soja são apenas um novo ciclo dentro do modelo de construção nacional que adotamos mesmo antes de nossa independência política. Nossa preocupação sempre esteve e permanece voltada às demandas externas – e esse fato vai se realizando na maneira como o território é efetivamente usado. Sempre “extrovertidamente”.

Os efeitos danosos dessa prática sabemos bem: o desmatamento predatório e inconseqüente da Amazônia e do cerrado, os intensos e graves conflitos fundiários naquela região (a mais violenta do país,em número de homicídios, como mostra o recém-lançado Mapa da Violência); em outra esfera, tão importante quanto, a inexistência de um pacto nacional, de um “norte”, substituído por esses ciclos econômicos (nossos e de toda América Latina) que não nos ajudam, apenas aprofundam ainda mais as desigualdades históricas.

Abraço.

O outro comentário, cometi no blog da simpática Lucia Malla. Ainda há pouco ela publicou um post no qual nos mostra parte de um e-mail que recebeu de um seu amigo, voluntário numa ONG, que está, neste momento, no Chade.

Dead hearth of Africa” – é com este carinhoso apelido que a Wikipédia nos apresenta o país. Dividido entre o deserto do Saara e o Sahel — que caminha inclemente cada vez mais para o sul, sufocando os poucos planaltos férteis; tão ressecado quando o outrora extenso lago Chade, de onde deriva o nome do país; sacudido por revoltas internas, desde sua independência perante a França, em 1960, onde se opõem muçulmanos do norte e etnias tribais do sul, que culminaram, na última semana, com a instauração do caos: refletido em tiros de metralhadora na sede do governo; no sítio à capital, N’Djamena; na fuga em massa dos representantes de nações estrangeiras e de funcionários “sobressalentes” das Nações Unidas.

O amigo inglês da Lucia, em seu e-mail, diz estar em Goz Beïda, um vilarejo a pouco mais de 150 quilômetros da fronteira com o Sudão – mais especialmente, fronteiriço com a região de Darfur, cenário de mais um dos inúmeros exemplos de desintegração da dignidade humana; daqueles humanos. Há quem diga, inclusive o amigo inglês, sobre suspeitas de que os rebeldes de Darfur estariam metidos na quizumba criada no Chade.

Em meu comentário, não fiz mais do que expor uma indignação que, apesar de verdadeira, é, de fato, pouco prática. Seria o cúmulo de um egoísmo acomodado e confortável imaginar que comentando raivosamente em blogs, ajudarei aquelas pessoas. No entanto, é o que faço.

Como tudo no mundo, como todos os países pelos quais se mata e se morre, o que vemos hoje na África é um retalho de linhas retas, desenhadas pelas potências coloniais (e neo-coloniais) européias. Muito já se disse sobre a incongruência mortal entre as linhas que existem e aquelas que deveriam(?) existir no continente – como em outros –, e não quero aqui criar eu mesmo linhas desnecessárias.

Segue o comentário.

Lucia,

É sempre um silêncio tão incômodo sobre a África. É sempre uma esquiva. São tantos e tão complexos os elementos que transformam aquele continente (e sua gente) em pouco mais que “curiosidade exótica”, assunto pra cinco minutos de conversa, que terminam geralmente com um suspiro.

A “bola da vez” é o Chad, como já foi o vizinho Sudão (e a carnificina de Darfur), a vizinha República Centro-Africana, o vizinho Zaire, a vizinha Nigéria, Costa do Marfim, Serra Leoa, Libéria, o Quênia… A lista é infinita.

Em cada um desses polígonos irreais (como somos todos), invenções de europeus muitíssimo mal-intencionados, a mesma história se repetindo (como farsa e como tragédia). Grupos que se beneficiam e abusam de outros; que destroem o país até chegar ao poder e revidar na mesma dose — ou maior — as injúrias recebidas.

Aqueles que poderiam fazer alguma coisa, se calam — levados por interesses os mais escusos, geralmente riquezas (minerais, naturais, humanas) abundantes em toda a África.
As análises sobre o continente nunca têm o tom grave e horrível da realidade. São sempre amenizados, já que ninguém quer “ofender” os interessados.

É uma pena. Uma lástima. Uma tristeza. Especialmente porque, como em todos os outros casos, de Ruanda e Burundi a Somália, o mundo se fará de surdo e cego — pra que, no fim, tudo volte ao estado inicial, inseguro e deteriorado.

Boa sorte ao seu amigo. E àqueles que ele cruzar por lá — que não têm a esperança de um avião das Nações Unidas como solução de seus problemas.

Um beijo.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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2 respostas para comentários

  1. Lucia Malla disse:

    Oi Thiago! Eu respondi seu comentário lá no blog, mas quero lhe agradecer pelas palavras, sempre tão ponderadas e corretas.

    É um “virar às costas” à África q vivemos vergonhosa e constantemente, e os países ex-coloniais parecem viver em estado de “denial” das besteiras q deixaram para trás “lá embaixo” (como eles se referem). Não culpo a participação de ONGs nesses lugares, pq de acordo com meu amigo, em certos vilarejos, é tudo q se tem de ajuda. É uma ação literalmente humanitária, no sentido mais claro da palavra. Há de se mudar a estrutura de governo de uma forma muito mais profunda, mas enquanto isso não vem, há de se cuidar dos humanos q por lá estão. Seus governos não ligam. A Europa não liga. As ONGs pelo menos trazem um pouco dessa ajuda. É muito pouco, mas é melhor q nada fazer, em minha opinião.

    Agora, sobre o post do catatau!, eu já havia lido tbm, e achei q o governo nesse caso, quer nos chamar de “idiotas q não sabem calcular”, quando ele é q está devidamente equivocado com os dados. As plantações predatórias são uma realidade na Amazônia, principalmente na área mais leste, q chega ao Pará. Cumprindo ao interesse de reis da soja como o q vc cita.

    Beijos e mais uma vez, obrigada pela lúcida opinião em meu blog.

  2. Catatau disse:

    Salve Thiago!

    Gostei da fórmula do “extrovertimento”, nos termos em que vc colocou. Inclusive a Alba complementou teu comentario, ficou bem legal. Passei um tempo fora do ar, agora tamos de volta!

    abração,

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