post platino

Os argentinos, a grande maioria deles, têm um qualquer coisa que os transforma em pessoas incríveis – ao mesmo tempo que pode transformá-los em pessoas insuportáveis. Conheci alguns, ainda conheço outros. Pessoas fantásticas, sem dúvida – e, no fundo, pouco importa se incríveis ou insuportáveis, se incríveis e insuportáveis… Tenho a impressão de que construir esse orgulho seja o esporte nacional naquele país. É algo sedutor. Penso ainda que os argentinos têm muito azar. Eles são ótimos com a bola nos pés, mas vivem no mesmo continente que os brasileiros (que temos muita sorte – e aqui peço condescendência a uma ingenuidade implícita e, talvez, absurda); eles produziram alguns dos maiores escritores da língua castelhana, mas nos meios menos cuidadosos, parece (e digo isso de “orelhada”), parece haver uma resistência qualquer a eles; Buenos Aires deve ser uma das cidades mais agradáveis para se viver, e a única coisa que lembramos de lá é que “não passa de uma ‘cópia’ sul-americana de Paris” ou qualquer generalização dessas.

Eu, até alguns anos atrás, quando me perguntavam sobre música argentina, respondia um mecânico “Carlos Gardel” – que eu nunca tinha ouvido direito. Pensava na Eva Perón também, mas sem muita certeza. Que estupidez… Quanto tempo perdido… Que desperdício de boas audições… Mas o mundo dá voltas, a gente cresce, conhece gente e coisas e um nerd maluco inventou a internet, o MP3 e as (benditas!) redes P2P.

Hoje, graças a essas benção alcançadas, posso falar com um pouco mais de cuidado sobre a música que se faz por lá.

Ainda no quesito Tango, ou “carlos-gardelidades”, há que se ressaltar o trabalho do próprio Gardel, que apesar de não ter nascido na Argentina, foi o maior tangueiro da história. Seus trabalhos e canções inspiraram um sem-número de outros cantores. Num outro momento, no outro extremo do espectro, encontramos Astor Piazzolla, cuja história não pode ser resumida em poucas linhas. Se Gardel fundou e representou o Tango argentino em todo mundo na primeira metade do século 20, Piazzolla foi o grande nome da segunda metade, até sua morte, em 1992, e ainda hoje. São histórias diferentes… Gardel “compilou” as tradições mais combatidas por Piazzolla – pelo que, durante toda vida, foi perseguido pelos tangueiros mais tradicionalistas, que o chamavam “el asesino del tango“. Citando o próprio:

Si, es cierto, soy un enemigo del tango; pero del tango como ellos lo entienden. Ellos siguen creyendo en el compadrito, yo no. Creen en el farolito, yo no. Si todo ha cambiado, también debe cambiar la música de Buenos Aires. Somos muchos los que queremos cambiar el tango, pero estos señores que me atacan no lo entienden ni lo van a entender jamás. Yo voy a seguir adelante, a pesar de ellos.

Astor Piazzolla, Revista Antena, Buenos Aires, 1954.

Seria divertido ver a reação do Piazzolla às novidades do tango argentino. Há dois grupos que estão naquilo que chamam, e que me dá um frio na espinha, de “vanguarda”: Gotan Project e o Bajofondo Tango Club. O primeiro foi formado em Paris, um trio: um argentino, um francês e um suíço. Já o Bajofondo é um nome, um “guarda-chuva” que está sobre várias cabeças vindas do estuário do Rio da Prata, entre argentinos e uruguaios estão inclusos músicos que se dedicam a aperfeiçoar as sonoridades do bom e velho Tango.

Claro que há mais que isso. Cada um desses nome merece seu próprio espaço. E talvez venha, o espaço.

Mas há vida musical além-Tango na Argentina. São muitos os outros estilos e muitos os outros bons artistas. Há o candombe, a cumbia, a milonga, como exemplos de ritmos “tradicionais”.

Artistas novos e que mesclam influências portenhas e estrangeiras são muitos – e bons, via de regra. Entre eles, escolhi falar do Kevin Johansen. Natural do Alaska, morou um tempo em Nova York e hoje está em Buenos Aires. Canta em inglês, mas principalmente em castelhano portenho. Tenho a sensação de que, às vezes, ele é a trilha sonora de Macanudo, a terra inventada pelo Liniers, um desenhista argentino, que todo mundo devia conhecer. As músicas nem sempre são agitadas, calmas, alegres, tristes, simples ou complexas. O que esse moço faz não deve ser fácil de guardar em algumas das caixinhas… É uma mistura de tudo o que é mais argentino – com o que o mundo tem pra contribuir. Uma música rica, com certeza.

E há mais: Juana Molina, Andrés Calamaro, o velho Fito Paez, a banda Bersuit Vergarabat (mais irreverente à moda portenha impossível) e minhas duas novas descobertas: Lisandro Aristimuño e Charly García.

Generalizações são um problema. Esse texto é raso e pouco profundo. Quem souber mais, compartilhe. Com mais tempo, agora que as férias (enfim) chegaram, melhoro a coisa toda.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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