bela tristeza

Costumam rir de quem sente saudade da Elis Regina. Alguns poucos riem… Gente que, sei lá, rouba velhinhas, chuta cachorro doente, inventa o Nazismo ou o Khmer Vermelho. Gente que não é bem gente.

Sem coração, é impossível encontrar motivos pra sentir saudades da Elis. No entanto, entendo a possível inapetência. Deve haver ouvido em que não encaixam os versos cantados pela voz da Elis, e isso é completamente compreensível. O que não dá pra compreender é quem não gosta por birra; porque é “politicamente incorreto” não gostar dela. Besteira das grandes. Mas gente besta há aos montes – é algo intrínseco ao mundo. Pra existir mundo, é preciso que haja gente besta.

Ouvindo “Elis & Tom”, de 1974, fica a certeza de que, numa proporção amiga, há cem mil bestas pra cada Antônio Carlos Jobim e pra cada Elis Regina, uns duzentos mil birrentos. Não é possível que tenham criado muitas duplas assim tão perfeitas. Se tivessem criado, este mundo seria um lugar ao lado do Éden. Não é, enfim. Tanto assim que há, incrivelmente há, quem não queira “apenas” deitar no sofá abraçado às almofadas* e ouvir essa pequena pérola em silêncio – em respeitoso e contemplativo silêncio.

Eu defendo a beleza da tristeza com unhas e dentes. Quer me ver irritado? Basta dizer perto de mim que “bom mesmo é fugir da tristeza”. Pulo no pescoço. Num dia mais civilizado, raros dias, pego o indivíduo e trago perto de um fone. Ligo a quinta música deste disco, providencialmente chamada “Triste” e deixo a besta se arrepender sinceramente pelos curtíssimos dois minutos e meio da música. Está ali, nítido: é possível e bonita (perdão) a beleza da tristeza.

Clarah Averbuck, em entrevista dia desses, acompanhada de Leandra Leal (que, aliás, estrela o filme – “Nome próprio”, baseado em dois livros e em textos da Clarah), disse que escreve mais quando está triste – e que até se boicota: procura ficar triste pra escrever. Sem querer parecer papagaio de pirata, garanto que sempre notei isso. E, veja, quem sou eu? Mas sempre notei.

É um disco triste, esse, de 1974. E é de uma beleza, de uma doçura, de um cuidado, de uma qualidade, que não vejo muitos à frente dele. É um dos melhores discos do mundo – sem hiperbolismos e, claro, na minha humilde e pouco abalizada opinião. E deixa que riam… Contanto que não me atrapalhem as risadas, tudo ótimo.

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* Ah, sim. Digo “almofadas”, mas poderia (deveria?) ser substituído por aquela pessoa que te faz suspirar nas noites frescas da primavera, ok?
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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em dos pequenos devaneios, recomendações do tio. Bookmark o link permanente.

2 respostas para bela tristeza

  1. Pingback: Dinheiro Internet - Blog de Dinheiro » bela tristeza

  2. Ana disse:

    Excelente adendo. =)

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