lição de casa

Resenha baseada livremente no filme Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Copolla.
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Situações professorais acontecem um sem-número de vezes durante o decorrer dos nossos dias. Na maior parte das vezes, no entanto, essas tais situações dão-se fora do ambiente (teoricamente) formal e regrado da escola. O constante viver, e a experimentação eterna a que está ligada essa ação, nos dão as ferramentas e os ensejos para que aconteça o que se disse logo no começo: as situações professorais. E digo essas coisas tendo em mente exemplos corriqueiros, quase bobos. Uma avó, quando entrega a seu neto os segredos daquele bolo simples e delicioso, está professorando. O amigo, quando segura o outro pelo ombro, insistindo para que este “vá com calma” em relação àquela menina, está professorando. Um homem de meia idade e uma jovem mulher, acompanhando-se num país distante e diferente, acostumando suas experiências à quase necessária presença do outro, sem dúvida, estão, ambos, professorando. Vale ressaltar, aliás, com que delicadeza o fazem. Os dois insones, incomodados com o fuso horário maluco, deitados numa cama (onde se vêem lençóis brancos desarrumados – sem que sequer se cogite o óbvio pernicioso), conversam e, juntos, procuram se reconhecer no outro: dividindo suas dúvidas e repartindo mansamente as “soluções” encontradas. O homem de meia idade dá à jovem mulher segredos de épocas que ela ainda está por viver (filhos, crises conjugais, dúvidas sobre o caminho escolhido e grandemente percorrido…) e a jovem mulher (uma moça incrivelmente bela), deitada de lado, encolhida em posição fetal, como se estivesse pronta para absorver esses segredos todos através da conversa que, sem que os dois percebam, transmite-lhes o sono e, ao fim, ambos dormem (sem se tocar, a não ser o pé dela na perna dele). Antes disso, quando ainda mal se conhecem, encontram-se no bar do hotel onde estão hospedados e ela, recém-formada em Filosofia, sem talento pra escrita e pra fotografia, lhe arranca sorrisos surpresos, confissões e um brinde final: “For relaxing times, make it Santori times”. Há nessas poucas passagens exemplos da troca que deve existir entre um professor e seus alunos dentro das possibilidades que as formalidades restritivas da escola nos dão. Porque antes de sermos “professor de…” somos professores, cujas funções se estendem para além de “meramente” ensinar um conteúdo previamente determinado – e isso, agora, depois de anos em salas de aula, fica cada vez mais claro. O filme, mas o Cinema, de uma forma ampla, ou as Artes (as boas Artes), podem cumprir essa função de tornarem o mundo que vivemos, inteligível a cada um daqueles que observam curiosamente as obras e a própria imensidão da vida, de modo geral.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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2 respostas para lição de casa

  1. Ana disse:

    Voce e esses encontros e desencontros, hein? =)

  2. Sinto o dedo indicador do wenceslau esfregando (apontanto, apertando) o meio de nossas testas…

    Bom, minha resenha ‘tá pronta, só copiar daqui e entregar, muito obrigada, risos.

    Ei, tu é espertinho, né? Filme da copolla, num quer mais nada né?

    bejocas

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