ilha.

“Atrasado de novo!” – pensa consigo antes de entrar na sala de aula. É impressionante essa capacidade de sempre se atrasar. Acontece o tempo todo. Normalmente, avisa: “Vou me atrasar, me dá uns minutos!” – e é dito e feito.

A professora fala sentada numa cadeira acolchoada, as pernas cruzadas em cima do assento, a saia cobrindo apenas as coxas. É formada em Sociologia e todos sabem que a gente pode esperar esse tipo de coisa de um professor de Sociologia. (Não é reprimenda, só constatação.) Ela fala sobre movimentos sociais, todos eles; nessa aula, especificamente, dá aos alunos ferramentas que ajudam na compreensão dos vários tipos de movimentos. Como está sempre imersa em suas falas, pouco nota o movimento dos alunos. Então, sem muito estardalhaço, entra e se encaminha pro fundo da classe. O pouco estardalhaço possível pra alguém tão grande; quase dois metros de altura, alguns quilos a mais… Mas ele tenta – e está bem intencionado: não quer atrapalhar a viagem da professora.

Carrega seu capacete e a pesada jaqueta de couro. Há uns poucos meses comprou uma moto, e os utensílios próprios de todo motociclista só ajudaram a dificultar ainda mais sua discrição.

A última mesa tem cadeiras vagas. É pra lá que vai, apressado, a cabeça esvaziada. As mesas são compridas, brancas, as cadeiras acolchoadas, como aquela em que a professora está sentada (e falando), se distribuem desigualmente nas várias fileiras paralelas à lousa. Parece um refeitório. A última e a penúltima cadeiras estão ocupadas, então pula uma e senta-se, enfim.

Coloca as coisas em cima da mesa, tira o telefone do bolso para desligá-lo, põe a mochila aos pés da cadeira, se ajeita, põe os óculos e olha pro lado. Comete a imprudência de olhar para o lado. Péssima idéia…

Sentada na última cadeira está uma moça. Provavelmente ela esteve presente em todas as outras aulas, nas quais ele ficou apenas o tempo suficiente pra assinar a lista de presença, e portanto não teve muitas oportunidades de prestar atenção naquela bela moça.

Quando a professora se decide por um intervalo, após pisar no chão pela primeira vez em alguns minutos, a moça olha pra ele e diz: “Você sabe pra onde essa senhora tá indo?” – ao que ele só pôde responder com um grunhido, se esforçando pra não cair da cadeira ou qualquer coisa assim. Ela falava das “viagens” da boa senhora. De fato, a atenção tornava-se um pouco dispersa durante as longas falas e o sono e o sol quente… Muitos dormem. A moça anotava, meio desesperadamente, virando o caderno em várias direções, tentando acrescentar adendos pertinentes conforme a professora seguia seu raciocínio pouco linear.

Assim que recobrou a consciência viu a menina se levantar, jogar os longos cabelos para as costas, ajeitar a blusa de tecido leve e decotado que vestia, os óculos, chamar uma amiga, falar mais alguma coisa que, por motivos tornados óbvios, ele nem se preocupou em decifrar e ir em direção à porta – sob o olhar incrédulo do jovem motoqueiro.

***

Essa sim, uma tarde de aula memorável. Memorável.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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