São Paulo.

não entendo quando dizem que são só ruas de pedra e figuras pelas penumbras prontas pra te matar de diferentes formas, com requintes de crueldade, só pelo seu tênis. não entendo quem compara com outras e diz que as pontes deviam ser desse ou daquele jeito, que a beleza “natural” é um ponto contra, que onde há gente dormindo em papelões devia haver um jardim com grama onde não se pode pisar.

não entendo as pessoas não entenderem que essas possibilidades de enxergar, de apreender, de ter contato não são as únicas. ali na esquina da Haddock Lobo com a Paulista encontrei algo que, dias antes, num lugar fechado, numa das ruas caras de Pinheiros, me fez ficar emocionado, lembrando dias em que a cidade ainda era uma incógnita pra mim – seu filho, retirado. também havia um andaime e, do outro lado da cidade, medo de ir além da Moóca. como se a Moóca fosse o que noutros tempos o Oriente e seus monstros fantásticos representavam pra um povo que vivia cercado de ignorância e crendice em seu mundo restrito.

ser considerado “do interior” quando chego nos lugares ou quando paro na rua pensando qual o melhor caminho, incomoda de um jeito que incomoda. incômodo incômodo. não há problema em morar no interior (hoje não há). mas ainda é melhor (de algum jeito) ser reconhecido como mais um. poder andar pelas ruas tortas da Vila Madalena sem parecer deslumbrado com os lugares todos e os tipos que vagueiam por ali – pessoas que guardam semelhança inconfundível com as mesmas pessoas que andam-desfilam pela praça Benedito Calixto, remexendo em antigüidades dos anos 80 ou comendo seus salgados com óculos imensos e tatuagens e conversas descoladas… e no entanto, faço as coisas querendo ser mais um. andar desconhecido pelas ruas da cidade grande que me encantam e me desafiam a idéia, que tenta entender como tudo aquilo (pessoas, carro, papelão, a Moóca, medos, penumbra, faróis, quereres, cinema, dor, cidade) pode ser.

e tudo é num mesmo lugar. são cidades em uma só. as ruas repletas de casas de operários da década de 1960 do Tucuruví não podem ser continuação (e talvez não sejam continuação) daquelas onde as pessoas se medem infinitas, rodeadas daquilo que é moderno e rico e limpo e não-povo.

ser ao mesmo tempo torcedor de futebol e “do interior” ao não saber bem como chegar à Marginal Pinheiros e ter que perguntar ao motorista do lado que desliga resmungando o som do carro pra te atender e dizer “à direita e sempre em frente”, assim, com crase, porque as pessoas falam bem em alguns espaços desse ser que te envolve e é você e a cidade, você na cidade, a cidade sem você…

não entendo como não gera encanto em todo mundo que chega pelo lado e vê despontando no horizonte as torres que a caracterizam. como não se assustar com o fato de que o lugar mais alto da cidade, dentro das coisas que a gente construiu (e aqui esqueço o “do interior”) será uma ponte, em frente a uma avenida rica? gente demais nunca vai passar por aquela ponte.

em nenhum outro lugar a sensação de que algo está irremediavelmente errada é mais forte. especialmente a parte do irremediável. tudo parece definitivo enquanto os carros escorrem apressados por avenidas que respondem de pronto à necessidade de velocidade e fluidez.

que adianta ser geógrafo?

por que eu simplesmente não liguei e transformei de novo a cidade? o Espaço Unibanco, e sua imensa fila de gentes indo ver a estréia do filme sobre o BOPE, teriam sido mais bonitos.

e agora aqui, sozinho, relembrando e reduzindo tudo a um. reduzindo a cidade a mim… não dá. por isso a confusão. e uma certa tristeza – pelas pessoas, pela penumbra, pelo papelão, pela ponte, por mim, pela pobre Moóca.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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