Do lado de cá…

O professor Milton Santos foi um daqueles homens raros que habitam esse mundo. Digo isso sem tê-lo conhecido – infelizmente -, mas com certa propriedade, por conhecer quem tenha podido conviver com ele, por ter lido já muitos de seus livros e por compartilhar com ele, mui humildemente, devo acrescentar, certa visão desse mundo e da ciência que ajudamos a construir, ele, obviamente, infinitamente em maior grau e com mais competência do que eu.

Sobre o que faz, ou melhor, deveria fazer desse senhor motivo de orgulho à comunidade científica brasileira, mais especificamente, à comunidade de geógrafos desse país, cabe destacar não só sua produção acadêmica – laureada mundo a fora, ainda parcialmente conhecida por aqui -, mas também, e especialmente, sua biografia. Milton nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no ano de 1926. Era negro. Um intelectual negro. Brasileiro, nordestino e negro: esses três adjetivos são suficientes pra que se tenha idéia das dificuldades pelas quais passou este homem.

Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1948 e dez anos depois, recebia o título de doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França. Voltou ao Brasil, lecionando na UFBA, até ser exilado do País pela Ditadura Militar. Passou a viajar pelo mundo, acolhido por inúmeras universidades onde lecionou: em Paris (Université Paris Paris-Sorbonne IV), na França, em Nova York (Columbia University), nos Estados Unidos, em Toronto (University of Toronto), no Canadá, e em Dar-es-Salaam (University of Dar-es-Salaam), na Tanzânia. Voltando ao Brasil, após a Democratização, trabalhou junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) por um breve período, mas foi na Universidade de São Paulo (USP) onde fixou-se definitivamente, atuando, desde 1984, como professor-titular do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Ainda como reconhecimento a seu brilhante trabalho, foi-lhe atribuído o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, tido como o mais importante concedido pela comunidade geográfica; além dos títulos de doutor honoris causa da Universidade de Toulouse (1980), da Universidade Federal da Bahia (1987), da Universidade de Buenos Aires (1992), da Universidade Complutense de Madrid (1994), da Universidade Estadual da Bahia (1995), da Universidade Estadual do Ceará (1996), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996), da Universidade de Passo Fundo (1996) e da Universidade de Barcelona (1996).

Sua obra sempre teve um objetivo muito claro, que permeou os mais de 40 livros que publicou. O professor pretendeu com seu esforço, procurar novo parâmetro para a análise que a Geografia se propõe a fazer do Mundo. As bases metodológicas da ciência foram revistas por Milton Santos e seus alunos; e como resultado de anos a fio de profundas reflexões, análises e discussões, essas pessoas trouxeram à baila uma nova proposta de método para os geógrafos. Um método centrado no materialismo-dialético de Karl Marx – sem, contudo, ao menos em sua gênese, fazer qualquer opção por uma leitura ortodoxa da obra do economista alemão, tão comum às produções acadêmicas da década de 1970 entre as Ciências Humanas. Nas palavras do professor:

Nosso desejo explícito é a produção de um sistema de idéias que seja, ao mesmo tempo, um ponto de partida para a apresentação de um sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia. Essa disciplina sempre pretendeu construir-se como uma descrição da terra, de seus habitantes e das relações destes entre si e das obras resultantes, o que inclui toda ação humana sobre o planeta. Mas o que é uma boa descrição?

Descrição e explicação são inseparáveis. O que deve estar no alicerce da descrição é a vontade de explicação, que supõe a existência prévia de um sistema. Quando este faz falta, o que resulta de cada vez são peças isoladas, distanciado-nos do ideal de coerência próprio a um dado ramo do saber e do objeto de pertinência indispensável.

(Milton Santos, A Natureza do Espaço, 1996, p. 18)

Morreu em 2001, vítima de câncer, quando ainda recebia os cumprimentos por seu livro “Por uma outra globalização“, onde destrincha este período histórico que vivemos, apontando suas perversidades e chamando nossa atenção para a possibilidade de uma outra saída. A globalização, à medida que avança, destrói certas solidariedades locais, minando o tecido que une as pessoas, desconstruindo as relações sociais, o entendimento do outro como realidade paralela à sua, o convívio, o respeito, homogeneizando tudo, passando uma foice no mundo, pretendendo igualar as diferenças na base do consumo de massa – o tal “globaritarismo“, nos dizeres do professor.

Como ele nos ensinou, é assim que funciona essa globalização que aí está – que começou no século XVI e se intensificou no último quarto do século XX, quando foram inventados os suportes materiais que possibilitaram a rápida expansão do ecúmeno como todo o planeta – diferentemente de outras épocas, quando ele se restringia ao alcance dos meios de comunicação existentes. Mas há outra possível, que utiliza esses mesmos avanços tecnológicos sem, contudo, sufocar as mentes, embotando suas resistências. Uma possibilidade que, nascendo da intenção de justiça social, criaria um mundo potencialmente melhor para todos.

Na prática, essa outra globalização tem acontecido. A força para seu surgimento vem, justamente, de onde menos se poderia esperar: de baixo pra cima. Trata-se do Período Popular da História, como descrito por Milton. As camadas populares têm, na medida do possível, conseguido ir contra a ordem geral. São ações que vão desde o surgimento de mercados fundiário e imobiliário dentro das favelas (como apareceu hoje, domingo, no programa Planeta Cidade da TV Cultura), tudo informal, sem escritura, autorização, número ou carimbo, até aviões entrando em duas torres no umbigo do Mundo ou pessoas usando seus Mikes ao invés dos caros Nikes das vitrines dos shoppings centers. Ela tem acontecido, a outra, e a maioria das pessoas não sabe bem como reagir a ela. Normalmente apenas fecham os vidros blindados dos carros quando passam perto de algum “lugar perigoso”.

Mas por que tudo isso?

Primeiramente, pra te apresentar ao professor Milton de Almeida Santos, se você ainda não o conhecia. Depois, pra te dizer que nesse último dia 17 de agosto estreou em vários cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília um documentário que expõe de maneira bastante incisiva as idéias do Milton. Chama-se “Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá“, produzido pela Caliban e dirigido por Silvio Tendler, importante diretor que tem em seu currículo outros documentários de sucesso como “Jango” e “Anos JK“.

Recomendo fortemente essa película que foi escolhida como melhor filme pelo júri popular do Festival de Cinema de Brasília, em 2006. Não só porque leva ao público a Geografia em seu estado mais puro, mas também porque trata-se de um registro muito bem feito das idéias de um senhor que merece, mesmo depois de sua morte, ser respeitado como um dos maiores intelectuais desse País.

Segue o trailer. Fica o convite.

Anúncios

Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em geografia, recomendações do tio. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Do lado de cá…

  1. Mariana disse:

    Até pra alguém com perfil bem biológico como eu, que nunca teve professores de Geografia que conseguissem estimular paixão pelo assunto, o Milton Santos sempre foi um cara que conquistou meu respeito e minha admiração.
    Principalmente pela visão de mundo e de sociedade que ele tem. Fiquei com vontade de ver o documentário, vou fazer isso assim que der tempo.

    (E ah, ficaram bem legais as mudanças por aqui. Curti!).

  2. Socorro disse:

    Como boa baiana, tenho muito orgulho de ser conterrânea de Milton Santos. Esse documentário passou por aqui muito rapidamente. Espero que volte.

  3. simone disse:

    com a globalização ficou mais fácil saber das tragédias distantes, meio pasteurizadas já que são selecionadas muitas vezes pela mídia formal antes de chegar a nós. da mesma forma, como não é mais necessário mais conviver com as pessoas em volta pra saber das notícias, não sabemos das tragédias mais marginais. é triste… vê-se o todo, perdem-se as nuances.

    gostei daqui… ;D

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s