“o pato… vinha cantando alegremente…”

O Paulo Polzonoff nos traz todos os domingos anúncios daquilo que veremos em seu blog na semana que começa. Eu jamais conseguiria fazer algo assim… Sou patologicamente desorganizado. O que consigo fazer – com um esforço sobre-humano, diga-se – é tentar lembrar alguns fatos passados durante a semana (mas não com tamanha precisão: o que eu chamar de “ontem” pode ser, na verdade, um dia qualquer, dias atrás).

Chegou por esses dias na escola onde dou aulas um garoto intercambista. Um garoto polonês. Garoto polaco simpático, calado, mas que já conquistou admiradoras em várias turmas da escola. Alto, loiro, olhos verdes… Não era pra menos. Poliglota, o garoto fala cinco línguas (alemão, espanhol, italiano, inglês, além de polonês) e veio aprender a sexta. Da qual ainda pouco entende, a não ser a maioria dos palavrões, os cumprimentos mais comuns, alguns nomes de bebidas e respostas retóricas – que até nós outros usamos tão automaticamente quanto ele. Tem sobrenome impronunciável e veio de Koszalin, na Pomerânia, região do norte da Polônia, perto do litoral do Mar Báltico e da fronteira com a Alemanha – lugar de onde vieram, há algumas décadas, os imigrantes alemães que colonizaram partes da Região Sul e do estado do Espírito Santo… Coisas de Europa.

Aliás, falando em Europa, não paro de descobrir festivais europeus dedicados à World Music. O último, achado hoje, é o que aconteceu no mês de Julho em Sines, uma cidade portuguesa, no litoral do Alentejo, como tem acontecido desde 1999. No site do Festival da Música do Mundo (FMM), encontramos a programação do evento neste 2007 e é possível ler algumas pequenas resenhas sobre cada artista ou grupo de artistas que se apresentaram por lá. Alguns me chamaram a atenção e logo em seguida pus-me (já que o tema é Portugal, às ênclises) a buscar suas produções – com relativo sucesso. (E um viva à Internet e à rede P2P!) Dos que lá estiveram, busquei (e alcancei) por:

  • Galandum Gilundaina, um grupo de músicos tradicionais mirandeses, ou seja, formado por pessoas nascidas no pequeno conselho de Miranda do Douro, no norte de Portugal, que buscam, através da manutenção de suas tradições musicais e lingüísticas, permanecer existindo através dos tempos enquanto povo (a língüa mirandesa tem status oficial perante a constituição portuguesa, mas carece de ações afirmativas um tanto mais ousadas pra que possa alcançar seu objetivo básico e monumental de continuar a existir);
  • meu croata mais querido (de quem já falei aqui, noutra oportunidade) e sua banda multi-nacional, Darko Rundek & Cargo Orkestar, que lançou disco novo no ano passado – “Mhm A-Ha Oh Yeah Da-Da” – e que, a julgar pelo entusiasmo da resenha no site do festival, deve continuar incrível, tanto quanto o anterior, “Ruke“;
  • a mistura improvável do Deti Picasso (Дети Picasso), banda de rock sediada em Moscou, composta por dois músicos/irmãos armênios e três músicos russos, de cuja música os organizadores do festival dizem o seguinte: “(…) alterna momentos plácidos, quase ambientais, com explosões psicadélicas, onde estão em evidência a guitarra de Garen [um dos irmãos armênios] e, sobretudo, a voz fulgurantemente mal-comportada de Gaya [a outra irmã]“;
  • um pessoal da Ucrânia, inventores do “ska dos Cárpatos”, chamados Haydamaky – o nome dado a uma revolução ocorrida no país em algum século muito antigo, como se quisessem, os integrantes, resgatar algo daquele passado. Especialmente verdadeiro se notarmos que a banda esteve presente no cerne das convulsões que agitaram a Ucrânia em 2004, quando o povo conseguiu tirar do poder um certo presidente mal-intencionado;
  • gêmeas do País Basco, Maika e Sara Gómez formam o Ttukunak e tocam um instrumento tradicional chamado “txalaparta“, que os bascos usavam pra se comunicar, fosse pra que fosse, há muito tempo e que evoluiu para um instrumento instigante: que precisa ser tocado por duas pessoas ao mesmo tempo e é formado por tiras de madeira e metal – vai dizer se não é incrível? -;
  • a portuguesa Lula Pena, sobre quem só encontrei elogios por toda a Internet – desnecessário maiores explicações. A moça e seu violão mesclam influências as mais variadas, mas que só são o que são por conta de sua voz: simplesmente indescritível.

Além desses todos, há muito mais – brasileiros, inclusive, como o bandolinista (melhor do mundo) Hamilton de Holanda. Vale a visita e vale a prospecção musical – nesses termos, mesmo, porque nunca é a coisa mais fácil encontrar arquivos compartilhados de “músicos do mundo”.

E porque já escrevi muito, apesar de ter mais pra escrever, e pelo adiantado da hora (são seis horas das manhã de um domingo frio), termino dizendo que passei hora feliz ouvindo a gravação do encontro acontecido em 2000, de João Gilberto e Caetano Veloso, em Buenos Aires. O João Gilberto é chato a não mais poder, mas canta e toca lindamente. O Caetano é chato, faladeiro, intrometido e bobo, mas quando só canta, a gente perdoa e aproveita a beleza da coisa toda. É uma bolachinha incrível, com momentos de fazer chorar. Feito essa interpretação de “Avarandado”, do vídeo que fecha o post longo da madrugada.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em la comedie des jours, recomendações do tio. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para “o pato… vinha cantando alegremente…”

  1. Ana disse:

    Com esse papo todo de Europa nem pra mandar beijinho pra mim, ne? =(

    (Polones eh uma lingua feia pra cacete.)

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