ciclo vicioso

Todo dia, um pouquinho por dia, ele se ocupava de imaginá-la nas tarefas mais comuns. Enquanto preparava suas aulas, pensava no que ela estaria fazendo naquele momento e acrescentava – por sua conta – alguns floreios, que não faziam mal a ninguém.

Se lhe pedissem pra falar dela, costumava suspirar longamente antes de pôr no rosto um sorriso bobo. Esse ritual se prolongava por três ou quatro segundos – o tempo suficiente pra suscitar no interlocutor (amigos do trabalho, sua mãe, o cobrador do ônibus, seu Aníbal, sempre o mesmo) a certeza silenciosa do quanto aquele rapaz amava sua companheira. Depois usava a maioria dos adjetivos que conhecia pra descrevê-la. Como resultado das inúmeras vezes em que tudo isso se repetiu, a moça já era considerada a mais bela e inteligente mulher da cidade; que não chegava a ser uma cidade pequena – o que só aumentava o orgulho dele.

Voltava pra casa sempre ansioso. Enquanto não punha os olhos nela, tudo era menor, menos importante. Quando, enfim, encontrava-se com ela, as coisas todas perdiam sentido e ele já não se prendia a nada – apenas à contemplação.

Gostavam de passear – mãos dadas – pelas ruas do bairro. Lugar calmo, sem grande movimento. Havia uma praça e bancos; ali se sentavam. Conversavam sobre amenidades… Ele lhe dizia – talvez pela milésima vez – sobre uma conversa qualquer em que, mais uma vez, alguém perguntara sobre ela. Repetia, fitando aqueles grandes olhos negros, todos os adjetivos e advérbios que utilizara pra apresentá-la ao atendente da padaria. A fila se estendera até a calçada, mas em todos os que esperavam viam-se apenas olhares satisfeitos: mirando o rapaz, mas assistindo em suas próprias mentes, momentos em que poderiam descrever (ou quando descreveram) suas pessoas queridas com toda aquela poesia.

Conheciam o vizinho da casa em frente. Na verdade, conheciam todos os vizinhos – que não se furtavam a chance de pará-los em sua caminhada vespertina e observar de perto toda aquela alegria. Mas o vizinho da frente era um caso especial… Ouviam sua cantoria todas as noites. Era um professor universitário, cabelos brancos; a maneira como colocava os óculos (meio torto, enviesado) sempre fazia com que sorrissem ternamente. Várias vezes convidaram-no pra jantar e trocavam impressões bem particulares sobre música: eles lhe apresentando novidades “dos jovens” (como ele dizia) e, ao contrário, o professor lhes trazendo duas “velharias”.

Numa noite em especial, sabiam que era aniversário do professor e compraram um bom vinho tinto de mesa, prepararam um assado (com boa variedade de legumes e temperos) e convidaram-no à sua casa, a fim de comemorarem mais um ano do velho amigo. Como retribuição, o professor levou-os ao seu terraço e mostrou, com dedicado prazer, antigas fotografias de viagens feitas ainda na adolescência – acrescentando, aqui e ali, comentários acadêmicos que, se os dois não entendiam, ele logo notava e explicava mais detalhadamente. (O professor costumava ser um homem solitário e triste antes desses dois. Mesmo duvidando profundamente, costumava agradecer a Deus em sua “conversa noturna” por aquele simpático casal.)

Se havia futuro e problemas, se as duas coisas (juntas ou não), não importava. A ele, bastava saber que quando chegasse em casa, ela estaria lá – ainda se (des)arrumando do trabalho: os cabelos soltos mas ligeiramente no formato do rabo-de-cavalo, os olhos baixos enquanto estivesse recapitulando os deveres do dia seguinte, a camiseta larga, um pouco rasgada, indo até os joelhos – escondendo uma nudez convidativa logo abaixo –, a mesa bagunçada, com muitos papéis e a grande bolsa (de espaço infinito)… Pra em seguida, como sempre, seus olhos encontrarem o dela e o mundo desvanecer, a espera do beijo tão aguardado. Era feliz. E sabia disso. Todos sabiam. E eram felizes no momento em que se lembravam da felicidade deles. Sorrindo sorrisos bobos na fila da padaria ou no banco do ônibus.

Porque era possível – ainda que ninguém pensasse nesses termos.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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Uma resposta para ciclo vicioso

  1. que texto bonito!
    veja, escrevi tempos atrás, embora a situação seja um tanto diferente, lembrei ao ler seu texto:

    É que ele ama.

    vive horrores ao espera-lo,
    mas, não entende que ama
    sozinho, à espera
    é nada.

    sentido nenhum nas coisas: copos vazios.
    bancos da praça,
    carros,
    pessoas,
    céu cinza
    são copos vazios

    tudo suspenso, pois, espera.
    não vê, não cheira, não compreende.
    nada o esfola ou o agrada:
    o outro não chegou.

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