Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro não me deixa dormir. Fiquei uma semana andando pelo Rio de Janeiro e agora o Rio de Janeiro não me deixa dormir. Tem Rio de Janeiro correndo nas minhas veias, reverberando nos meus ouvidos, queimado na retina, cheirando por todos os cantos, flutuando no ar… É difícil e dá um frio ruim na barriga pensar em voltar à “vida comum” depois do Rio de Janeiro, ou melhor, com o Rio de Janeiro ainda preso em mim.

Não levei caderno ao Rio. Sempre levo caderno pra onde quer que eu vá – mas ao Rio, não levei caderno. Me arrependo. Por mais que escreva, que esprema minha memória, aposto que perderei muito do que aconteceu. Em compensação, levei uma câmera ao Rio – e voltei com quase 2Gb de fotos. Quando tirá-las de lá, mostro.

Andei (andamos) muito pela cidade desde terça-feira passada até a terça-feira desta semana. Vi (vimos) muitas coisas, muitos lugares, muitas gentes… E poderia (poderíamos) ter visto muito mais, não fosse algo que impregnou todo o passeio – contra o que não pude (pudemos) lutar: um medo irracional do diferente. Uma espécie de algemas invisíveis que prendiam pés e mentes, dificultando muito o encontro com o novo, a experimentação, o contato com algo além do Rio de Janeiro dos turistas. Sei bem que uma semana, por mais repleta que tenha sido, não daria conta de me mostrar tudo no Rio, muito menos todo o Rio. Mas algumas coisas são incríveis só de a gente ver. E algumas delas eu não vi. (Mas não reclamo; foi uma viagem inesquecível – daquelas que mudam vidas -, ao menos pra mim.)

A gente, quando se permite enxergar o mundo, acaba tendo boas surpresas (como poderia ter acontecido aos usuários do metrô de Washington). Se saímos do “normal”, se vamos encontrar outro mundo, não custa prescindir de certas idéias pré-concebidas. Fazer turismo é um monte de coisas, mas olhando com alguma condescendência, é o ato de sairmos de uma “estrutura” conhecida e cair em outra, incautos e ligeiramente perdidos (a não ser que sejamos conduzidos por algo ou alguém dentro dessa nova estrutura). Ser turista pode ser bom, mas eu não quero ser turista. Quis ver o Cristo (e acabei não vendo), quis andar no bondinho de Santa Tereza, quis pôr os pés nas areias de Copacabana… Mas quis também ver o Rio dos cariocas. Em uma semana? Sim, pretensiosamente. Na maior parte das vezes não deixaram, mas quando deu, foi incrível.

(Depois pretendo detalhar um pouco mais as coisas todas.)

Assim que vi ao longe a Igreja da Penha, lá em cima da pedra que lhe dá nome, desde a Linha Vermelha, entendi que tinha chegado num lugar diferente. É uma cidade – algo que sempre me encanta, que me intriga, que excita meus pensamentos e minhas vontades -, mas não uma cidade qualquer (ainda que eu não acredite que haja “cidades quaisquer”, se todas têm a particularidade incrível de serem feitas de/por gente). Vi à esquerda a Ilha do Fundão, onde fica a UFRJ, e à direita, a zona norte do Rio. Longe, muito longe, o Cristo Redentor iluminado: um pontinho amarelo flutuando sobre a cidade. Também de longe, de muito mais longe, revi minhas expectativas sobre tudo aquilo e me emocionei por ter conseguido estar ali, naquela noite – imaginando como seriam as noites seguintes.

Entrando no Palácio do Samba, no morro da Mangueira, minhas mãos suavam, as pernas mal me sustentavam, os olhos não acreditavam no que viam e marejavam (porque não podiam fazer outra coisa). No exato instante em que entramos, o intérprete começava a cantar (“Mangueira teu cenário é uma beleza, que a Natureza criou…“) e a bateria se organizava para, a um sinal do mestre, respeitando a determinação do diretor de Harmonia, me fazer chorar feito criança, embasbacado com aquilo. Há naquele lugar e naquelas pessoas uma nobreza que empata com qualquer realeza do mundo. Eu vi pessoas reverenciando representantes da Velha Guarda com elegância e pompa dignas de reis e rainhas. O poder que o diretor de Harmonia transmitia era algo mágico: um homem imenso, forte, mais velho do que muitos ali, comandando um dos espetáculos mais fantásticos que eu já presenciei em toda minha vida. E mesmo assim, mandando prender e soltar, esse homem me dirigiu (não me negou) um sorriso terno e amigável quando nossos olhares se cruzaram no meio de um samba (“Chora, não vou ligar. Chegou a hora, vais me pagar: pode chorar, pode chorar…“). As vielas que se dividiam em quatro, cinco, alguns metros depois de partirem do asfalto, no pé do morro, eu não conheci. Gostaria muito, mas não conheci. Ainda.

As mulheres… A poesia carioca está nelas, sem dúvida. As cariocas têm uma cadência que não se encontra em todo lugar. Desde as passistas mangueirenses e suas voluptuosidades improváveis (pernas e quadris descomunais, desafiadores), até as moças que caminhavam apressadas pela Avenida Rio Branco naquela quinta-feira, embrulhadas em roupas que não lhes pertenciam… Os poetas, quando cantaram odes ao Rio de Janeiro, tenho certeza, tinham os olhares retidos pelos movimentos sinuosos dos corpos que viam passar à sua frente – não tanto à paisagem natural. A vida terá que dar muitas voltas até eu encontrar lugar mais repleto de beleza.

À noite, voltando da Barra da Tijuca, o lugar que menos gostei no Rio de Janeiro (bairro asséptico, impessoal, frio, incoerente, fora da realidade que lhe cerca), na estrada que liga o Leblon à Barra, antes de entrar no túnel Zuzú Angel, vi um monstro surgindo na janela do carro. Uma montanha de luzes e muitas luzes. Uma espécie de árvore de Natal real, imensa, forte – com um letreiro: “Bem-vindo à Cidade Rocinha”. Também não vi de perto, mas duvido que aquela imagem vá sair da minha memória tão cedo.

Santa Tereza é o lugar que escolheria para viver no Rio de Janeiro. Provavelmente suas características encantadoras foram potencializadas pela doce pessoa que me acompanhou por suas ruas tortas e nos trilhos do bonde. O pôr-do-sol visto lá de cima, alaranjando toda a cidade, é simplesmente indescritível.

A Lapa e seus arcos servem de cenário para o encontro feliz de todos aqueles que compõem as chamadas “tribos urbanas”. De funk a bossa nova, de reggae a samba, de rock a música eletrônica – está tudo ali. Estão todos ali: uma multidão sem forma, confusa, viva. Uma fusão interminável de gente que convive, que aproveita a vida e dá chance para outros aproveitarem. É mágico. A Lapa é mágica.

Fui me testar no Rio. Ver se conseguia ultrapassar sem problemas preconceitos que criei por conta própria ou que reproduzi sem o cuidado devido. Acredito que passei no teste; e não somente por ter pedido “fóxforos” inconscientemente na padaria, mas por ter conseguido respeitar minha vontade de ver o Rio, de sentir o Rio – um mínimo que fosse. Mas sobre isso tudo ainda falarei mais.

Foi incrível.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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2 respostas para Rio de Janeiro

  1. Luciana disse:

    O Rio de Janeiro já sente a sua falta… =)

  2. Ricardo disse:

    É meu amigo… Saudades mesmo.
    Então, nem vou recuperar os posts…

    Era outra proposta (não tão bem sucedida no meu ver)… Fica como arquivo morto.

    Mas então, a Elis já te espera. Há fotos? Gostaria muito das da Colombo, pois as minhas ficaram, no mínimo difusas (e nada artísticas :( ), e sei que vc tem do salão principal, que não tirei…

    Estará no IG nesses dias?

    Abç (Como a música dos Jackson 5… rs)

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