verbodesentristecimento [ou] alegrificando

Há tempos não passava um final de semana tão agradável. Fiz muitas coisas e ao mesmo tempo, parece que fiquei no meu canto, quieto, descansando. Cada vez mais entendo aquilo que dizem: descansar não é o ócio, é fazer algo diferente do comum. E esse final de semana cumpriu bem essa função. Dormi (ponto basilar na manutenção do meu humor), bebi com amigos, comi bem, dirigi sem compromisso, li, escrevi… Fui até ao teatro. Duas vezes!

A primeira, na tarde desse domingo, foi pra assistir a uma adaptação de “Saltimbancos”. O texto de Chico Buarque, interpretado por quatro atores, despretensiosamente, para uma platéia com muitas crianças e seus pais, ajudou a me preparar pra o que viria depois – mesmo sem eu saber que algo viria.

Caco Ciocler e Gero Camilo, Aldeotas.

Há quase cinco anos não ia a um teatro. Seja porque os mais próximos não estão assim tão próximos, seja por falta de oportunidade pura e simplesmente. Nada, absolutamente nenhuma outra encenação poderia servir melhor como um sinal de boas-vindas quanto essa peça. Talvez, pra aqueles que acompanham teatro e tudo, pipoquem melhores exemplos de peças que me receberiam tão bem quanto ou melhor que essa Aldeotas, mas eu, na minha santa ignorância, fico achando que não pode haver substituta à altura.

Diz o site do Teatro TIM – onde assisti ao espetáculo – que a peça está em cartaz há três anos e que é um sucesso de crítica e público por onde passa, com os dois atores merecendo vários prêmios ao longo dos anos de trabalho. Antes de ver a peça, pensaria sinceramente que muito do que está escrito não passaria de marketing, buscando platéia. Agora, depois de me emocionar como há muito não acontecia com alguma expressão artística, assino embaixo e recomendo.

A peça é de uma delicadeza e de uma leveza que eu poucas vezes pude imaginar. O texto é de Gero Camilo. É um palco simples, com cenografia quase inexistente – um grande tapete felpudo (às vezes quarto, às vezes água), um pano suspenso (às vezes céu, às vezes “céu de dentro”), folhas de papel… -, a iluminação tem uma importância gigantesca na peça, que, sem sonoplastia (a não ser os ruídos produzidos pelos dois atores), puxa a gente pra dentro da história brincando com as luzes coloridas que dançam conforme o enredo avança.

São dois amigos, Elias e Levi, nascidos em Coti das Fuças (uma cidade fictícia). Levi (Gero Camilo) é o mais falante, menino e homem (dependendo do momento da peça, que é memorialista), esperto, quase um pícaro – feito o João Grilo, do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. É dele a movimentação da peça. Elias, interpretado por um simpaticíssimo Caco Ciocler, que foi à platéia cumprimentando cada uma das fileiras, é o contraponto de Levi, mais calmo, tímido, distraído… Se o outro é o movimento, esse é o esteio, aquele que dá sentido à trama. De um jeito triste – mas cálido.

Tão cálido quanto foi cálida a lágrima que escorreu furtiva na última cena da peça.

É poesia. Vida-poesia. O texto é um texto que eu escreveria na noite mais inspirada e apaixonada pela vida que eu experimentasse. Foi um carinho no meu coração-de-pano ver naquele palco dois ótimo atores dizerem coisas que eu pediria, timidamente, pra que eles dissessem se a peça fosse minha. Foi um acalento (re)descobrir outras pessoas que vêem as coisas do mundo como eu vejo. Que não sei se é o jeito certo ou o jeito errado – é só jeito. Um jeito que não me deixa – e eu tentei, semanas atrás -, não me deixa cinzafazer meus dias. Há algumas semanas, meio em dúvida sobre tudo o que me move pelo mundo, tentei escurideixar minhas intenções, minhas preocupações, minha busca, meus amores, meus amigos… Fiz porque parecia a coisa certa naqueles dias. Quando parece certo, o que a gente faz pra se convencer que é errado? Tenta. Experimenta. Foi o que eu fiz e, hoje, depois de Aldeotas, digo sem medo: ainda bem que errei, que não consegui, que insisto.

Ainda existe aqui o menino. Um menino de desimportâncias… Um menino que chora quando outros riem e que sorri nas horas de chorar.

_____

Levi ~ sabe o que às vezes eu tenho vontade de fazer com o sol? tenho vontade de comer. de comer não. de engolir até o estômago. tenho muito essa vontade. vontade de sentir o sol na barriga. e você, do que você tem vontade?

Elias ~ eu tenho vontade de comer muitos limões. sem fazer careta.

Levi ~ nossa… como deve ser azedo! só de pensar eu fico com a boca cheia de cuspe.

Elias ~ pois eu tenho essa vontade.

Levi ~ só que comer o sol é bem mais difícil.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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6 respostas para verbodesentristecimento [ou] alegrificando

  1. Leda disse:

    querido. aldeotas é uma das minhas peças preferidas. já assisti três vezes. adoro o gero camilo. me deu um prazer gostoso – uma saudade, nostalgia – saber que você viu; me senti mais próxima de você. compartilhar emoções… que bom, que bom que você viu essa peça.
    apareçamo-nos.

  2. Fernanda Cristina disse:

    bom verbo… rsrs
    teve um dia que conheci uma moça que mordeu o sol, e dele brotou sangue, argh e teve um dia que conheci um menininho que comia todas as frutas, e ele nem ligava pra azedume, pra doçura, pros gostos, gostava mesmo de ter a beleza das cores (estendidas sobre as frutas) por entre os dentes… lindo menino,mas morreu. rsrs Pessoas estranhas essas, depois te conto.

  3. Fernanda Cristina disse:

    ah, e esqueci de dizer: levei ate um susto. mudança radical de estilo de layouts…

  4. Thiago Gonçalves disse:

    cansei do preto.

  5. Kriska disse:

    Lindo o layout novo, gemo. Amei!

  6. Pri disse:

    Oi …td bem?
    Achei esse seu espaço meio que ‘sem querer’ e pretendia fazer apenas uma ‘visita beija-flor’…porém vc escreve tão bem que não só resolvi me demorar um pouco mais como arriscar esse simples, mas sincero comentário. Parabéns e sucesso sempre Thiago.

    …Pri

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