sobre música do mundo

Eu não dispenso uma bela roda de samba, não deixo de aproveitar uma seresta, danço forró, batuco maracatu e vanerão, assobio chorinho e bossa-nova… Quer dizer, sou chegado à música brasileira e aprecio demais suas variadas expressões. É bom encher a boca pra falar sobre toda essa bagagem cultural – misturas, contribuições… Mas, como eu já disse aqui noutras oportunidades, gosto de fuçar a música que se faz em outras partes do mundo.
E, não, eu não procuro por “enlatados” de outros países. Que me perdoem as pessoas que gostam de enlatados. Eu não gosto e não procuro por eles. Fuço mais fundo (sempre que possível).
Então, vamos à Romênia hoje.

Sem me alongar demais sobre a história desse país intrigante, linguisticamente aparentado com nós outros, digo apenas o seguinte: antiga província romana chamada Dácia, passou pelas mãos dos godos, dos turcos otomanos, dos húngaros, dos austríacos, dos soviéticos e tem uma população cigana (ditos romas, só pra confundir um pouco mais) significativa. Desse país muita gente conhece apenas a antiga lenda do conde Drácula – que, segundo dizem, refere-se à figura histórica do príncipe Vlad III, o Empalador, nascido na cidade de Sighişoara, na Transilvânia. Mas, obviamente, há ali muito mais a descobrir.

A Romênia pode ser vista como um cruzamento bastante fecundo entre as culturas latina, eslava e balcânica. E, como na maior parte dos países da península, a influência dos diferentes povos ciganos (descendentes de nômades originários da Índia) é marcante na cultura romena. Especialmente na música.

Há uma cidadezinha no sul da Romênia, às margens do rio Danúbio, na fronteira com a Bulgária (quantos nomes, não?), chamada Clejani. Há algum tempo esse vilarejo tornou-se bastante festejado por aqueles que fuçam World Music. Lá, grupos de música tradicional cigana têm surgido e surpreendido agradavelmente – especialmente dois: Taraful Haiducilor (literalmente, “Bando de foras-da-lei”) e Mahala Raï Banda (literalmente, “Nobre Banda do Gueto” – em referência aos guetos ciganos da capital, Bucareste). Algumas, mas poucas, informações sobre os grupos podem ser obtidas no site do selo que produz seus discos, a Crammed Discs, da Bélgica, que é a responsável pelos discos da brasileira Bebel Gilberto, também.

Ţigani lăutari são os cantores de músicas tradicionais ciganas da Romênia. Eles formam clãs, que se tornam profissionais na execução dessas músicas e recebem o nome de taraf. São grandes grupos (normalmente com mais de quinze integrantes), que reúnem desde jovens até pessoas mais velhas, geralmente de uma mesma comunidade – como é o caso das duas bandas de Clejani.

Taraful HaiducilorA música que fazem é um misto de tudo o que formou a cultura daquele país. Às vezes é alegre, às vezes é um lamento interminável, outras vezes, ainda, nem parece música propriamente dita, porque o vocalista apenas declama versos – que eu, infelizmente, não entendo. Cheia de brincadeiras rebuscadas com a voz, acompanhada de acordeons, percussões, instrumentos tradicionais… Tudo muito forte.

Sempre que apresento música pra alguém, prefiro não sugerir interpretações. Especialmente porque tudo isso é muito subjetivo, muito pessoal. Outra pessoa ouvindo algumas dessas canções poderia achar tudo uma chatice insuportável e desligar o som depois de alguns segundos – e não sou eu que vou coibir isso. No entanto, fica a dica.

Gosto de procurar coisas d’além-mar, ouvir o que outras pessoas ouvem mundo afora, na medida do possível absorver alegrias e tristezas… Nem sempre é preciso entender o que significam cada um daqueles símbolos lingüísticos. São símbolos. Xícara podia significar elefante, não fosse um acordo tácito, socialmente aceito. Se eu não sei direito o que significa “Hora ça la üsari”, a mim pouco importa, porque não procuro pelo significado correto quando ouço músicas de algum país obscuro do qual as pessoas mal ouviram falar. Pode parecer poético e, sei lá, “afetado” demais – mas é como vejo a coisa e, sinceramente, eu não me importo muito com “como” parece.

Anúncios

Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em geografia, recomendações do tio. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s