sobre a greve, a USP, direita/esquerda, que cansaço…

Há alguns anos, já longínquos, eu me engalfinhava em disputas político-ideológicas Internet a fora. Discutia mesmo: ânimos exaltados, veia saltada na testa, olhar injetado, digitar furioso, fóruns, listas, sites, brigas, azia… todas aquelas coisas. Com um sorriso no canto da boca eu poderia dizer que tudo era fruto de uma disposição típica dos muito jovens – porque, pra aturar aquelas conversas infinitas e lamacentas, era preciso muita disposição; coisa que hoje em dia… Tá, tá, sem piadas. Hoje, quando assisto a discussões como aquelas que eu costumava travar, olho complacentemente os participantes e sigo a vida.

O processo não foi fácil. Perdi uma grande amizade e tempo demais discutindo algo que tem que ser debatido, penso eu, mas sem que haja a intenção de modificar o pensamento do outro. É sempre complicado debater algo tão passional quanto uma escolha ideológica. Mas acho que é possível manter um mínimo de civilidade no debate – especialmente com o passar dos anos e o refrear dos ânimos. Um ótimo exemplo de como a coisa é fluida, complicada, delicada, mas, de certo ponto de vista, até cômica, vai aqui o link de um post recente do Alex Castro onde ele usa fotos de um mesmo protesto do Movimento Estudantil no Centro do Rio de Janeiro brincando nas legendas, veja lá.

Não é o caso de dar risada?

Daí que nesses últimos dias, por conta dos acontecimentos todos envolvendo as universidades paulistas (as greves, paralisações, assembléias, ocupações/invasões, faixas, gritos de ordem…), acabei mais uma vez mergulhando nesse mundo bastante restritivo das discussões infrutíferas político-partidário-ideológicas.

Eu estava no Centro Acadêmico das Ciências da Terra (o pequeno e acolhedor “Cacete”), no Instituto de Geociências da Unicamp no momento da assembléia geral dos estudantes que decidiria pela greve ou contra ela. Junto comigo, um número próximo de duzentos outros alunos, espremidos no espaço reduzido da sede do CA. Havia a mesa, sem mesa, porque os três sentavam-se em cadeiras; havia pessoas de outros institutos (especialmente do IFCH), que insistiam pela votação, sem maiores lenga-lengas; havia pessoas do próprio IG ansiosas pela votação, em pé ou sentadas pelo chão; havia os espectadores, esperando pra ver o que aconteceria a seguir, mas sem a intenção de se meter no papo… No momento da votação, a primeira opção (“Aqueles que são favoráveis à greve, levantem a mão.”) recebeu quase cem votos, a segunda opção (“Aqueles que são contrários à greve, levantem a mão.”) recebeu quase trinta votos e houve ainda perto de dez abstenções.

O resultado foi comemorado como um gol de Copa do Mundo. É compreensível. A última greve estudantil no IG foi em 2002, há tempo demais. Nesse ínterim coisas demais aconteceram.

Eu votei pela greve. E me assustei com a comemoração e os gritos de vitória logo após a votação. Naquele espaço, pessoas se abraçando, olhos marejados, punhos cerrados… Ao fundo eu quase ouvia Geraldo Vandré cantando. Quase.

Esse, um lado.

Hoje, pela Internet, me deparei com a “cobertura jornalística” da ocupação do prédio da Reitoria da USP feita pelo jornalista Reinaldo Azevedo. Esse senhor é conhecido por suas posições radicais, orientadas por um conservadorismo quase doentio. Muitos são os que não perdem tempo lendo o que ele escreve. Muitos são os que dedicam leitura diária a seus escritos. É um polemista, tal e qual seu companheiro na revista Veja, o senhor Diogo Mainard. Juntos, mas não sozinhos, esses dois senhores ajudaram a jogar a última pá de terra e cal sobre a cova dessa revista que, há alguns anos, podia ser considerada algo mais do que um panfleto sensacionalista.

Pois bem. O que eu dizia lá atrás sobre o debate de idéias ser necessário e possível, se encaminhado de maneira civilizada e coerente, vai por terra com a contribuição bem pouco frutífera de Reinaldo Azevedo.

Este senhor, dito jornalista, especializou-se na arte tosca da ofensa e do humor barato em lugar de dar a seus leitores argumentos coerentes e corretos para uma discussão mais bem embasada e precisa. Desaprendeu, devido à sua cegueira ideológica, a respeitar minimamente posições diferentes da sua – e xinga, ofende e desrespeita a inteligência alheia, cunhando apelidos jocosos e não abrindo espaço para o debate livre de idéias em seu blog. Claro, o blog é dele e lá, ele manda. Mas, penso eu, uma vez que esse blog esteja hospedado no site de uma revista que – ainda que mal e porcamente – informa leitores nacionalmente, o espaço para o debate deveria ser garantido, se há a pretensão de garantir o direito à expressão daqueles que discordam de quaisquer posições assumidas pela revista. Certo?

Não é como age Reinaldo Azevedo. Hoje, em resposta a sua acusação leviana (uma vez que sem a apresentação de qualquer prova que a confirme) de que os estudantes acampados em frente à Reitoria da USP estariam “estocando gasolina” dentro do prédio, escrevi o seguinte comentário, onde, como poderá ser lido, já me precavi da provável censura. Pessoas contrárias ao que escreve o senhor Reinaldo Azevedo não têm voz em seu blog e recebem a “honrosa” alcunha de “petralhas” – uma espécie de sub-raça humana, onde se enquadram todas as pessoas de Esquerda do planeta; no mundo de Reinaldo Azevedo, invariavelmente corruptas, de má índole e burras. Colo aqui o comentário.

Reinaldo,

Não quero que aceite esse comentário porque não tenho paciência pra sua torcida organizada. Mas, por favor, leia a minha única pergunta:

Por que você não dedica um tempo a analisar calma e friamente as reivindicações dos estudantes, professores e funcionários das Universidades paulistas? Será que são, todos eles (e não são poucos), meros fantoches manipulados por uma força maior qualquer (que você chama de Foro de São Paulo, mas que tem milhares de outros nomes)? Nada, absolutamente nada daquilo que eles reivindicam lhe parece merecedor de uma discussão civilizada, embasada em fatos, dados, índices, realidades, depoimentos? Nada? Você é um homem inteligente, e é a essa inteligência que recorro ao perguntar se lhe basta classificá-los todos como “petralhas” (ou seja lá como você se refere a pessoas que unicamente vêem o mundo de um jeito diferente do seu) e seguir a vida? Gostaria de crer que não. Gostaria que para além desse blog – hospedado no site de uma revista tendenciosa e que precisa de polêmicas para vender nas bancas – você calmamente faça esse julgamento centrado e coerente, não apenas desmerecendo o pensamento alheio.

Sem mais, espero ter sido ao menos lido.

Abraços.

Não foi publicado e até o momento, não recebi nenhum sinal de resposta. Em um post mais recente, ele rebate a indignação dos estudantes com ironia e bravatas mas nenhum fato concreto que comprove sua tese.

Não me surpreende. Eu meio que entendo como funciona a cabeça dessas pessoas – cegas em suas ideologias redentoras e perfeitas, herméticas, quase um ideal de mundo. Tanto para Reinaldo quanto para as pessoas que aplaudiram desvairadamente a decisão da assembléia no IG.

Tenho minhas convicções – muito mais próximas dos meus colegas de faculdade do que do Reinaldão -, mas procuro o diálogo, procuro ouvir.

Se acho certo ou errado a ocupação do prédio da Reitoria da USP? Ainda não sei. Pode parecer incoerente depois de tudo o que eu disse, mas a verdade é que ainda não sei o que pensar. O Movimento Estudantil tem todo o meu apoio. Mas ao mesmo tempo, não sei se aprovo um método como esse.

Sobre a representatividade de uma assembléia de estudantes, posso dizer sobre o que vi no IG. Durante todos os dias em que se cogitou a greve foram espalhados cartazes e avisos por todo o instituto convidando as pessoas para participar da votação. O horário da assembléia se adequou à saída dos alunos do diurno e à entrada dos alunos do noturno. Aqueles que compareceram sabiam o que estavam fazendo e os que não foram, talvez não se importem muito com o que tenha ficado decidido… O fato é que todos, sem exceção, foram convidados.

Talvez haja mais coisas, mas a memória não ajuda.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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Uma resposta para sobre a greve, a USP, direita/esquerda, que cansaço…

  1. Meu nobre amigo,
    graças a Deus que você não entrou nessa onda de polarização que estamos vivendo hoje. É lamentável a maneira que nossos colegas se degladiam em insultos, e-mails e demais comunicações… E enquanto isso, o governador e tablóides (sabe, aqueles das bancas…) rindo com a conveniente situação.

    Mas o que te chamo a atenção é: Cadê os professores nisso? Posição oficial (nessas horas, associação de docentes não conta), pouquíssimas. Atitudes dignas dessa enorme quantidade de letrados, como ir ao judiciario… Nada.

    Escrevi umas mentiras no meu blog. Dê uma lida, afinal preciso de alguém mais pra ficar pasmo como eu.

    Abraços,
    Otão

    ps: Geófago?! Me atualize das coisas de BH, por favor…

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