Samba, amigos…

Os velhos sambistas têm uma mística que não sei bem. Sempre que vejo um Monarco, um Nelson Sargento, o seu Nenê, lá da Vila Matilde, o Jamelão, a dona Ivone Lara, quando lembro do Noite Ilustrada, do Noel Rosa, do Adoniran Barboza, do Cartola uma espécie qualquer de respeito inunda o ambiente. A vontade que dá é de ajoelhar e tirar o panamá que, vai vendo!, nem trago na cabeça. Prestar homenagem respeitosa e pequena diante da majestade desses senhores.

Não desdigo quem se furta às pérolas criadas por todos eles; gosto é gosto, e quando não vai, não adianta. Mas se me pedissem pra fazer algo por eles, convidava pra uma noite numa roda de samba.

A história do samba é sabida pela maioria, suponho; vou evitar repetições. Só não posso deixar de lembrar que o samba, nascido da influência direta de ritmos africanos (especialmente o lundu) e do maxixe, primeiro na Bahia (onde ainda é tocado de um jeito lindamente diferente) e depois nos morros do Rio de Janeiro, no início do século XX, era música proibida até que Getúlio Vargas resolveu nomeá-lo “o ritmo nacional”. Antes disso, rodas de samba e os sambistas eram ostensivamente perseguidos pela polícia, sob a acusação de vadiagem e desrepeito à ordem pública. Hoje, agradeçamos aos deuses, a perseguição virou passado – mas deixou seus resquícios. Muita gente ainda reproduz o discurso preconceituoso com relação ao samba, imagino eu por pura falta de informação. Mas, então, é incrível notar a mudança geral de tratamento com relação aos sambistas. Antes, eram perseguidos e difamados; hoje, ao menos pra mim e pra muita gente que conheço, são respeitados e “cultuados” (péssima expressão) como jóias raras da nossa cultura.

Se me perguntam, digo sem medo de ufanismo: me orgulho profundamente pelo samba ser brasileiro. Tivesse a tradição permanecido em Angola (onde era chamado semba e era tocado em rituais religiosos) provavelmente ainda levaríamos tempo demais pra conhecer algo semelhante. Igual nunca seria, porque o caldo social brasileiro só existe no Brasil – assim como o caldo social finlandês só se encontra na Finlândia.

Mas por que tudo isso? Unicamente pra festejar o fato de termos descoberto, eu e alguns bons amigos, um ótimo lugar de samba em Campinas e por eu ter ficado extremamente feliz com a descoberta, com as companhias, com as músicas… Falo do Tonico’s Boteco, que funciona num casarão secular ao lado do marco zero de Campinas (a Praça Antônio Pompeu, a antiga Praça da Matriz Nova) e brinca com o nome do campineiro mais ilustre, o maestro Alberto Carlos Gomes, compositor, entre outras obras, da ópera “O Guarani”.

Quem dera tivesse descoberto antes o lugar… Quem dera.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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Uma resposta para Samba, amigos…

  1. osrevni disse:

    O samba é um milagre. As composições, inclusive as letras, são de uma qualidade que não dá pra desconfiar que veio de gente que não teve condições… Viu o filme do Cartola? Maravilhoso…

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