Uma experiência.

Eu raramente me preocupo com motivos racionais para a maior parte das coisas que faço. Me guio pelo que sinto. Se às vezes deixo de fazer algumas delas é porque desrespeito minhas vontades íntimas, mas essa é outra história. Basta dizer o seguinte: idéias estranhas aparecem e eu costumo não negá-las.

Aliando isso ao fato de eu ter me tornado professor, resolvi, ao menos dessa vez, ouvir uma de minhas maluquices.

Propus a meus alunos um exercício que passei a considerar fundamental para todos eles. Acredito que o texto que vou colar aqui seja auto-explicativo, mas não custa lembrar que Pedreira, Amparo, Serra Negra, Monte Alegre do Sul, etc., etc., são cidades paulistas que foram construídas nos muitos (e belos) vales da Serra da Mantiqueira. Cidades pequenas – a maior delas é Amparo, com quase 70mil habitantes -, escondidas e que agem, não por acaso (e de maneira interessantíssima), no modo com que as pessoas que aqui vivem vêem o mundo; mundo que se confina nesse “intramorros” infinito. O exercício refere-se a isso; e segue.

Uma proposta de conversa

Quando você acorda pela manhã e abre a janela, o que vê? Quero dizer, o que você realmente vê? Nada daquilo de dizer “vejo o horizonte se abrindo em infinitas possibilidades e chances e…”, não, nada disso. Me diz o que aparece na frente da janela do seu quarto, o que você vê – aquilo que você poderia tocar, se quisesse. Um horizonte de possibilidades, ainda que muito poético, não é nada palpável. Então, pra gente começar a conversar, me conta: o que você vê?

Se você abre a janela e dá de cara com um muro, me conta o que tem atrás do muro. Se você, por outro lado, abre a janela e dá de cara com a casa do vizinho, me diz o que tem atrás da casa do vizinho. Agora, se você é um dos muitos que abre a janela e dá de cara com as montanhas que circundam Amparo, me conta como são as montanhas de Amparo. É fato que eu vivo em Pedreira, e em Pedreira, quando abro minha janela às seis da manhã, antes de vir pra escola, vejo montanhas bastante imponentes, surgindo lá onde deveria estar o horizonte poético e cheio de possibilidades.

É fato também, e alguns de vocês sabem disso, que eu não sou daqui. Nasci em São Paulo e me mudei pra Pedreira há dez anos. Lá, em São Paulo, cresci acostumado a supor o horizonte poético. A gente não vê muito horizonte por lá. Quando não são os prédios atrapalhando, é a correria dos dias, desestimulando qualquer tentativa de esticar o pescoço e olhar um pouco pra lá. São Paulo é uma cidade cruel – e digo isso apesar de gostar demais da minha terra ¬–, especialmente porque, se a gente não se esforçar bastante, não consegue ir além dos prédios e da correria diária. Mas, se vocês me permitem dizer, Amparo, Pedreira, essas cidades da região, também podem ser cruéis, mas de outro jeito.

Aqui, nessas cidades, se a gente esquecer de insistir, provavelmente vai esquecer de ir além, não dos prédios, mas dos morros.

Com a Geografia, a gente aprende que o espaço em que vivemos, somos nós que produzimos. Talvez não totalmente, porque algumas decisões e escolhas escapam da nossa alçada, mas pequenas coisas, pequenas escolhas, pequenos detalhes, somos nós quem criamos; as coisas grandes, as grandes escolhas, não passam por nós de maneira direta, mas enquanto parte componente da Humanidade, temos lá a nossa pontinha de responsabilidade na criação do espaço que vivemos. E com a Geografia, depois de algum tempo, a gente aprende que, da mesma forma que criamos o espaço de viver, esse espaço influencia nossa vida, nossa forma de viver, nossa forma de ver a vida… As escolhas daqueles que escolhem (os que podem escolher, os que têm poder pra tanto) conseguem moldar o espaço e o espaço, muitas vezes, molda nossa visão pessoal do próprio espaço.

Quer um exemplo? Pois o tio dá o exemplo. Imagina que você está passeando por São Paulo e, virando uma esquina, dá de cara com a catedral da Sé. Aquela igreja é imensa, imponente, grandiosa… amedrontadora – e ela foi construída daquele jeito justamente pra parecer tudo isso. E mais do que isso: se você estiver cansado, entrar na igreja e sentar num dos seus muitos bancos, traz uma paz e um aconchego que também são fruto de muito “fritar de miolos” dos arquitetos que a projetaram. Quem construiu a catedral da Sé quis te passar algumas informações e nem sempre essas informações são explícitas, óbvias. O modo como você se vê em relação àquela igreja transmite a maior parte dessas informações. Se boas ou ruins, se agradáveis ou não, aí só cada um pode dizer, porque pessoas diferentes sentem as coisas de jeitos diferentes.

Outro exemplo? Hm… Quando você quer ir de um prédio a outro e entre os dois há um gramado, pode ser que nesse gramado haja um caminho cimentado. Esse caminho, tão singelo, é uma forma de te controlar. “Não pise na grama”, numa plaquinha, e ao lado, o caminho. Pode parecer teoria da conspiração, mas é só o que é.

Mas por que dizer tudo isso? Por que aquelas perguntas no começo? Porque eu quero que vocês, cada um de vocês, individualmente, me diga o que pensa haver para além das montanhas que cercam Amparo. Escreva, desenhe, nem um nem outro, me diga pessoalmente depois… Você decide. Se achar isso tudo uma grande bobagem, vai estar me dizendo muito mais coisas sobre si do que se pegasse na caneta e escrevesse. Agora, só faça se você realmente estiver disposto a me dizer o que você acha que existe além das montanhas de Amparo; eu quero respostas sinceras, não respostas automáticas, que só vêm por conta da nota. Isso não vale nota. Isso também, muito provavelmente não vai tomar o tempo todo da aula – a não ser, claro, que você queira – então, por favor, contribuam com a sanidade mental da Carla e não transformem o tempo que sobrar numa baderna sem fim.

Me diz, figura; mas com sinceridade e cuidado.

Aquele abraço,

(Tio) Thiago.
=)

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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