saudade.

Há alguns dias tenho lido inúmeros textos de pessoas que se dedicam a falar bem de São Paulo, muito por conta de um memê que circulou pela Blogosfera na qual as pessoas eram convidadas a descrever cinco coisas especiais pra se fazer em suas respectivas cidades. A primeira resposta à corrente vi no Hedonismos. Li e me emocionei, porque ele demonstrou um amor do tamanho do meu por aquela cidade. Eu tenho medo de falar de São Paulo e descambar pra romantização, inclusive dos problemas, típica daqueles que se vêem apartados de algo que tanto gostam, então evito – tenho evitado, já que durante uma época não pensei em outra coisa a não ser no meu regresso ao concreto natal.

Esses anos de faculdade me propiciaram viagens incríveis. Conheci pelo menos três grandes cidades: Curitiba, Brasília e Belo Horizonte – essa última nem tanto por conta da faculdade, mas dá pra colocar no mesmo balde. E, juro, não trocaria São Paulo por nenhuma delas. Por BH minhas pernas bambeiam. É uma cidade que me atrai demais, mas não trocaria uma oportunidade de morar em São Paulo por uma na capital de Minas. Cidades estrangeiras não conheço nenhuma, por isso prefiro não falar pra evitar de repetir clichês ou lugares-comuns sobre as grandes metrópoles que passeiam pelo imaginário de qualquer um…

E, assim, como não quero repetir o que muito já se disse, fico apenas com minha impressão absolutamente agradável de São Paulo, as ruas de São Paulo, suas praças, seus cinemas, seu metrô, suas lojas, sua multidão eterna, suas filas, seus restaurantes, suas pessoas, seus tipos, seus problemas, a crueza da vida, a beleza da vida, a vida que pulula, o individualismo, a coletividade, a massa, a mão que toca sem querer na escada rolante, o sorriso furtivo, o movimento, o silêncio, o barulho, os cheiros, a Benedito Calixto, o Anhangabaú, a 25 de Março, o Centro Velho, a Zona Leste, o Parque do Carmo, o Parque da Luz, o cachorro-quente no Largo do Café, o bairro do Tucuruvi, o Brás, os estádios, o medo se desfazendo numa madrugada…

Nesse último fim-de-semana, todo mundo sabe, aconteceu a Virada Cultural, patrocinada pela Secretaria de Cultura do Estado. Foi uma das noites mais incríveis da minha vida. Por uma série de coisas… Mas também por eu ter voltado pra casa no domingo pela manhã completamente sem pernas, de tanto andar pelo Centro Velho. Há muito tempo não via a região da Sé à noite. Aqueles lugares todos estão muito bonitos. A catedral foi restaurada ainda há pouco e suas cores antigas foram retomadas, a iluminação contribuiu e o palco, montado exatamente em frente à escadaria, “compôs” (pra usar termos que não costumo usar) um cenário formidável. Os primeiros minutos por lá (Alceu Valença cantando) foram de admiração pura e simples. São Paulo é um lugar cruel, mas mesmo a Praça da Sé, reduto de mendigos, sem-tetos, crianças de rua, bêbados, prostitutas e outras pessoas pouco afortunadas, naqueles minutos, rescendia a alegria e encantamento. Não é impossível que esses dois sentimentos existam ali em outros momentos, por óbvio – eu acredito que hajam -, mas em mim, na praça, meus amigos, as pessoas em volta, o Seu Alceu cantando e tocando… Juntou, sabe?

Ingênuo que sou, pensei que veria o Teatro Mágico no boulevard São João sem maiores problemas. Em São Paulo filas são condição sine qua non mesmo quando o evento cobra; numa noite de shows gratuitos, em espaços públicos, abertos, acessíveis… Penso que as três milhões e quinhentas mil pessoas que prestigiaram a Virada resolveram assistir aos meninos de Osasco. Foi impossível ouvir uma única música inteira e mal enxerguei o telão, que mostrava um moço,o rosto pintado de branco, segurando um violão, cantando algo que eu não percebia. Resolvemos voltar ao Anhangabaú e sentamos num gramado na Praça Ramos de Azevedo, com o Theatro Municipal no plano de fundo, todo iluminado – vestido de gala pra um pessoal que raramente o nota, na sua correria diária.

E aqui um ponto importante: a Virada Cultural, apesar de carregar esse nome – “cultural” – é um evento absolutamente democrático. Todos são convidados – como sempre são, mas nesse caso, o rapaz que mora lá em São Miguel Paulista (o bairro onde me criei, na periferia da Zona Leste) pode ir. Os shows acontecem em lugares de acesso fácil através do metrô, com linhas de ônibus que funcionaram além do horário comum… Tudo de graça. Tudo pelas ruas e praças. Pessoas de todos os tipos se cruzando, correndo pra chegar na hora pra assistir a essa ou àquela apresentação; apresentações de todos os gêneros – de punk rock a música clássica. Palcos armados em pontos pouco comuns da cidade – como em Guaianazes, um bairro mais periférico do que o meu bairro natal, ou a Pedreira, em Santo Amaro, onde se apresentou o Cordel do Fogo Encantado. Se há críticas, não vejo por onde elas podem começar.

A cidade me encanta em qualquer dia. Sempre que posso vou até lá e me reabasteço de motivos para continuar admirando-a. Mas esses dois dias, o sábado e o domingo últimos, transformaram São Paulo em um imenso palco a céu aberto e fizeram transbordar meu sentimento (também imenso).

Me encontrei um pouco mais em meio àquela multidão interminável.

A noite estava tão especial que no céu – sempre avermelhado, com as nuvens próximas da iluminação urbana – se viam algumas estrelas, de brilho muito forte, que embelezaram ainda um pouco mais todo aquele momento que poderia se repetir infinitamente.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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2 respostas para saudade.

  1. Caja disse:

    Acho que você esqueceu de levar em conta o seguinte: a Virada Cultural que você foi, foi de fato um evento para todos, mas a cidade de SP, infelizmente, não é.

    É pra quem pode, uma esfera que não é exatamente a mesma dos que lá habitam. Tem intersecções, sim, mas só isso.

    SP é uma mercadoria, a ser comprada por bolsos que podem dar desfrute. Felizmente me incluo nessa, SP nunca (tá, quase…) me negou qualquer oportunidade que lá fui procurar.

    Sei, no entanto, que não é para todos, e é por isso que, apesar de amar SP, não posso me dar o direito de discordar dos decepcionados com a cidade.

    Só um ponto de vista.

  2. Vinícius disse:

    Achei a maneira como você descreveu seu amor pela cidade e tudo o mais perfeitos.
    Me sinto exatamente da mesma maneira e venho também de uma parte periférica da cidade.
    Porém, a Virada Cultural não foi um evento tão democrático como se diz. Haviam, sim, apresentações pagas, por menor que fossem os valores (vide http://revistaimpactosp.blogspot.com [procurar por um post chamado “Virada do rico, virada do pobre”])
    Tirando isso, você conseguiu descrever de forma apaixonada a maneira como nós, cidadãos paulistanos, vivemos em uma cidade tão marcada por contrastes.
    Estive também, na virada. E igualmente você, tive a impressão de me achar no meio daquela multidão.
    Keep rockin´.
    Precisamos desse lugar para sermos.
    Para mim, ser é estar. Estar em São Paulo.
    Abraço.

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