alma.

Se você me perguntar, imagino que inevitavelmente vou preferir uma paisagem serrana a uma paisagem litorânea. A imponência de uma montanha e seus vales, os lagos que ali se formam, as florestas cobrindo tudo sempre me atraíram mais – e acho que continuam a atrair. Mas Ubatuba tem alguma coisa… que não sei o que é.

Ali, o mar torna-se irresistível. Mesmo o mar de uma praia revoltada com a petulância dos incautos que a enfrentam. É quase impossível resistir a um chamado qualquer da água que me atrai – pra nadar e brincar com as ondas ou pra refletir, imerso em pensamentos maiores do que o próprio Oceano.

O mar tem uma força que não sei explicar. São duas forças, acho. A força óbvia, do vai-e-vem infinito que destrói as pedras e a empáfia do nadador incauto; mas, também, uma força qualquer, que inspira respeito, meditação, reflexão, ensimesmamento, eu diria, parafraseando Ortega y Gasset – mui humildemente.

Teve de tudo. Tudo aquilo que precisa ter numa viagem dessas: mar, praia, sol, caipirinha, cerveja, amigos, risadas, desentendimentos, mulheres, homens, meninos, meninas, palhaçadas, conversas sérias… Tudo, ou seja, bem mais do que minha péssima memória consegue listar.

Caminhamos pela beira-mar algumas vezes. Sem rumo, com rumo… Numa dessas caminhadas, encontramos um quarteto que tocava animadamente alguns sambas (bossa-nova, partido alto, etc.) e ficamos ali ouvindo por algum tempo. Fazia frio na Avenida Iperoig (um dos nomes mais estranhos que já conheci) e algumas pessoas dormiam nas cadeiras. Resolvemos pedir a conta e ir embora, dar berço a quem era de berço. Me chame de patético, mas naqueles minutos, ouvindo boa música (Cartola, Chico Buarque, João Gilberto…), tomando suco de abacaxi, rindo de algumas piadas, batucando sozinho, com amigos numa mesa de um “bar musical” em Ubatuba, me considerei uma pessoa de sorte.

Quando levantamos, os músicos me olharam e agradeceram com as cabeças. Tocavam “Janela Indiscreta” (“… veio camelô vender anel, cordão, perfume barato; baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato…”) e eu me senti lisonjeado. Chegando perto dos amigos, olhei pra cima (desentendendo meu próprio gesto) e agradeci ao vento. Mãos na nuca, sussurrando a canção, fui pro carro e me aconcheguei na minha solidão eterna que me põe sempre diante de sensações comumente ignoradas, com as quais ainda (ainda!) não sei o que fazer… Estavam todos ali, com sono, meio entediados, mas eu também estava – pela primeira vez em muito tempo eu não era um mero espectador.

Pensando hoje, ao subir a Rodovia dos Tamoios, não soube ver o que tinha acontecido de tão diferente nessa descida à praia, que nem é meu cenário favorito. Foi isso. A solidão morrendo aqui dentro. Virando sorriso no canto da boca.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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5 respostas para alma.

  1. Baroni disse:

    Isso tudo foi efeito da gelapinga somatizado pelo vinho e encarnação do espirito boêmio francês da belle époque! Ne me quite pas…
    Fanfarronices, se é que vc me entende!? Capice?
    Viagem muito boa essa, de deixar belas lembranças,

    Baci

  2. Show do Bajofondo Tangoclub na segunda (14/05) em sampa… Atreve-se a ir?

    Digo que é do mesmo naipe (senão melhor) que o Gotan Project.

    Abraço

  3. dän disse:

    vim matar saudades dos seus textos…
    perfeitos! beijao!

  4. Hugo disse:

    eu fui!

    ah! faltou falar da discussão das infinitas possibilidades.

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