um alento, de repente…

Parece que hoje é um dia normal: o sol quente, as mães e seus filhos nas ruas – indo e vindo -, homens presos em casacos estranhos, com tiras coloridas de panos suaves torcidas em volta do pescoço… Todos caminhando em vários sentidos. O mais divertido é sentar num banco qualquer (e não precisa ser necessariamente um banco) e observar o eterno ir e vir. Em cidades grandes de hoje em dia dá pra fazer isso com muita facilidade. É possível até escolher um belo cenário de fundo para a cena – porque, obviamente, alguém, de algum lado, vai estar te observando observar as pessoas que passam para todos os lados e que também observam pessoas que vão para outros lados.

Nunca cruzam olhares, as pessoas. (Quando cruzam, sorriem pensando em amores eternos, casuais, bonitos e raros como devem ser os amores nascidos de olhares furtivos.)

Há cadência nos passos, no respirar constante, na brisa que sopra quente vinda do asfalto mais abaixo, no perfume do restaurante indiano que abriu há pouco tempo na outra esquina… Uma cadência incrível – de não se poder crer mesmo. Alguém pisa forte no chão no exato segundo em que o menino da padaria gira o saco de papel; um segundo depois, um novo passo e o pássaro levanta vôo e escapa do ônibus que pára no ponto; enquanto a senhora com rosto vincado sobe no ônibus, a mulher desce os três últimos degraus da escada: um (três), dois (dois), três (um).

São mundos distintos – tanto o Mundo, quanto nós outros, eles outros, você, eu… Mas respeitamos, desavisadamente, uma cadência eterna.

O pingo da primeira chuva que vem descendo e que inevitavelmente vai se espatifar no chão (“espatifar” é uma palavra ótima) flagra lá de cima a fúria contida do Mundo. Ruídos, roncos, barulhos graves, barulhos silenciosos que aparecem no girar do Mundo e que seguram, que contém essa força imensa. As pessoas caminham pela cidade sem notar esses ruídos – quando notam, fingem que foi o celular vibrando na bolsa.

Mas hoje não é um dia como os outros todos. Não é. Um moço de boné amarelo vai falar comigo.

Deixe que fale. Que traga boas novas, o moço.

Anúncios

Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em dos pequenos devaneios. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para um alento, de repente…

  1. Ana disse:

    Eu comprei duas boinas, uma bege e outra roxa. Serve?

    Amo. E sinto saudades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s