‘travessando…

tem um senhor, um senhor escritor, brasileiro de Cordisburgo, que uma vez escreveu um livro coalhado de belezas; um livro que todo mundo devia ler, sem traduções, sem explicações prévias, sem crítica ou elogio. é um livro bonito de pequenas belezas. cheio de palavras novas, fazendo caber no sertão, o mundo inteiro; emprestando ao mundo o jeito de falar do sertanejo, que cria palavras mirabolantes pra responder às dificuldades da vida. esse senhor, de nome João Guimarães Rosa, com esse livro, Grande Sertão: veredas, conseguiu me convencer – admito, sem muito esforço – de que a vida, pra ser grande nas pequenezas, precisa ser vivida conforme vai surgindo: ela aparece, a gente experimenta; ela aparece, a gente experimenta… na sua sabedoria sertaneja, o Rosa, um senhor escritor, chamou isso de viver a vida que vai aparecendo de travessia.

e por que viver a vida aos poucos se a gente pode querer muito? por que escolher apreciar a beleza da não-vitória (que, diferente da derrota que só existe porque não houve vitória, simplesmente não se preocupa em vencer) quando podemos preferir sempre ganhar e nisso encontrar recompensas de vulto e valor? por que, me diga, por que não traçar objetivos e metas e “se fortalecer nas quedas do caminho”, já que há um fim a alcançar, ao invés de apenas caminhar? por que a travessia ao invés da certeza plena e bem definida?

cada um lê o que lê de um jeito só seu; tanto que muitos inclusive julgam e dizem “certo” ou “errado”, de acordo com seus próprios demônios. pois aviso que eu li a travessia do jeito como vou contar, e se você leu ou leria de outro modo, fique à vontade pra dividir comigo suas impressões.

de repente, de surpresa, tem o caminho e tudo o que você olha, sente, toca é possível e admirável, tudo tem uma beleza que transborda e enche pequenos espaços irrestritos, tudo é um, você e as coisas são um, não se separam, a diferença que há é só aquela que você escolhe criar. o caminho é o mundo e são suas possibilidades, seus desdobramentos, sua luz, sua força, seus mistérios e as menores coisas, me parece, ficam com a maior parte de tudo isso. não são as menores em tamanho, necessariamente. conheço uma menina que vê em elefantes, pequenas belezas… são as menores no sentido de que nem todo mundo vê ali o que você vê. é qualquer coisa.

a travessia do caminho não procura se preocupar com o fim dele. até porque, se caminho é mundo (de acordo com a minha leitura), mundo não termina. antes, procura não ter objetivos ou metas, certezas ou uma visão clara e límpida sobre o que se passa. consiste em aproveitar tudo o que acontece e viver o momento. carpe diem é algo tão surrado hoje em dia que dá até medo de usar, mas talvez implícito na idéia de travessia esteja a idéia do “aproveite o dia”. não é fuzarca, putaria, fuga… é poesia. é parar por alguns segundos e observar o cabelo se soltando da presilha, os fios escorrendo feito água, indo bater de leve nos ombros e, depois, escorregar ainda um pouco mais, balançando suavemente nas costas dela.

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quando eu admiti estar novamente apaixonado, ainda não tinha lido o Rosa. criei mundos sem fim, expectativas impossíveis, diálogos inexistentes, situações fantásticas… fui me enganando, como sempre fiz, em nome de um objetivo, de um fim, de uma racionalização do irracional. e, claro, me dei mal.

agora, me re-apaixonei pela mesma pessoa. só que eu não pretendo nada, eu não planejo nada, eu não espero nada… e é tão melhor.

na maior parte do tempo é bom, na verdade. porque agora, nesse minuto, tudo o que eu queria era saber, com certeza, o que vai acontecer.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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