Questionário de Proust

O ótimo Milton Ribeiro iniciou uma série de posts com respostas de amigos seus a um questionário proposto anos atrás a Marcel Proust – que ele respondeu duas vezes: uma quando jovem, outra já velho. A transformação ocorrida do primeiro para o segundo é algo incrível – ainda que possa ser, er, esperada. Gostei da iniciativa e tomei a liberdade de enviar a alguns amigos meus as mesmas questões. Não sei se farei como o Milton, publicando aqui as respostas de cada um, não sei, tampouco, se houve um objetivo claro que me guiasse nessa “brincadeira”. Alguns responderam, aguardo ansioso a resposta de outros – muitos já me surpreenderam… Não sei, talvez publique, talvez não.

Por hora, apresento aos interessados as minhas próprias respostas. Prefiro não comentar nada.

1) Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?
A negação da poesia da vida. Quando alguém esquece (porque só pode ser por esquecimento) de prestar atenção às pequenas coisas. Quando alguém resolve dar importância demasiada a eventos rasteiros. Quando riem por outra pessoa não saber fazer isso – que julgam ser importantíssimo.

2) Como gostaria de morrer?
Acho que deitado numa cama confortável, de tarde, uma tarde de outono. Lembra da poesia? Ela não termina quando a morte chega. E nada de choro desesperado.

3) Qual é seu estado mental mais comum?
Introspecção. Aí os olhos se fixam em algum ponto e a mente vai… Quando volta, é sempre com alguém cutucando pra chamar minha atenção.

4) Qual é o seu personagem de ficção preferido?
Rodion Romanovich Raskolnikov, de “Crime e Castigo”, do Fiodor Dostoievski. Porque eu sou um pseudo-intelectual, com óculos de aro grosso e All-Star, que finge que leu esse livro e que encontrou nesse homem um tanto de maravilhas e misérias humanas que eu admiro e respeito, só pra chamar a atenção. O robô Marvin, do Guia dos Mochileiros da Galáxia, porque ele é o máximo, e o Calvin, da tirinha, amigo do Haroldo. (risos)

5) Qual é ou foi sua maior extravagância?
Ir a São Paulo, num domingo à tarde, sem um puto no bolso, me declarar apaixonado pela mulher da minha vida. Apenas ir, sem pensar. Ela me ouviu. Tudo aquilo está lá com ela, tenho certeza, bem guardado. Pra sempre. É o que importa.

6) Qual é a pessoa viva que mais despreza?
Melhor não citar nomes, mas ela se encaixa naquela parte do “dar importância demais a eventos rasteiros”.

7) Qual é a pessoa viva que mais admira?
São algumas. Meu pai (e nem eu esperava que ele viesse em primeiro lugar), pela sua força infinita e pelos ensinamentos sem-querer que ele me empresta de vez em quando – pro bem ou pro mal; minha mãe, quase pelo mesmo motivo do meu pai, mas com o acréscimo de ser a pessoa mais fiel que eu conheço; meus avós, todos os quatro, por suas histórias e um homem, um amigo, que eu carinhosamente chamo de “pai”, por ele ser o mais velho na minha turma de faculdade, Emídio – o mais bacana é que ele sabe disso – porque nesse rapaz estão várias virtudes que eu pretendo alcançar um dia (e ele consegue beber muito antes de cair bêbado).

8) Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?
Algo que transmitisse música. Qualquer coisa: um instrumento, uma vitrola, um rádio… Só pra viver ainda mais música do que já vivo.

9) Em quais ocasiões costuma mentir?
Por amizade, por preguiça, por pena, por raiva.

10) Qual é sua idéia de felicidade perfeita?
Felicidade… Hoje, agora, Antony and The Johnsons tocando “fuckin’ sad songs” no fone, acho que pra eu ser feliz, pra me tornar pleno e repleto, acho que me falta alguém. Uma namorada. Uma pessoa, que não seja “minha”, mas que goste de estar comigo, de me ouvir falar sobre música, sobre Geografia, sobre meus alunos, sobre ela… Mas isso pode mudar. Muda. Sempre. Hoje, “What can I do?” (a música que está tocando), é isso.

11) Qual é seu maior medo?
Voltar a ser a pessoa que fui durante os piores anos da minha vida. Nada me amedronta mais. Nada. Um maluco com uma arma apontada pra minha cabeça me daria menos medo.

12) Qual é seu maior ressentimento?
Esses anos de escuridão. Eu podia ter terminado com eles, mas nunca fiz. Aliás, sempre me afundava, cada vez mais.

13) Que talento desejaria ter?
Saber contar histórias. Oralmente.

14) Qual é seu passatempo favorito?
Ouvir música. Dirigir. Cantar. Estar apaixonado. (risos)

15) Se pudesse, o que mudaria em sua família?
Permaneceríamos em São Paulo. Esses onze anos de Pedreira não precisavam ter existido.

16) Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?
O escárnio.

17) Onde desejaria viver?
Pergunta difícil… Hoje penso em Belo Horizonte com muito carinho. Mas permaneço com a vontade de voltar a viver em São Paulo, apesar de tudo. Penso em Lisboa.

18) Qual a virtude mais exagerada socialmente?
A alegria. Todos sempre sorrindo e “tudo bem?”, “tudo!”. Eu sempre duvidei. Aí um dia entendi como isso tudo é vazio e mesquinho.

19) Qual é qualidade que mais admira num ser humano?
A sabedoria.

20) Quando e onde você foi mais feliz?
Na estrada que liga Ouro Preto a Belo Horizonte, BR-040, acho, em julho de 2005, quando sem eu esperar, sem qualquer aviso, ela se deitou no meu colo e eu pensei que sonhava enquanto Minas Gerais, o carro, as duas amigas nos bancos da frente, o tempo, as montanhas, a dor, tudo ia desaparecendo e só restava o toque suave da minha mão na pele dela; quando eu não pensei e tirei do rosto dela um fio de cabelo que lhe incomodava os olhos e ela sorriu, lindamente, os grandes olhos fechados, a boca discretamente se movendo e eu chorei, mas ninguém viu; quando então ela se levantou, tudo ainda muito confuso, segurou minha mão, apertou suavemente e, me olhando nos olhos, sorriu largamente. Ali eu morri e ressuscitei.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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