A gente deve riscar livros novos? Livros que ainda…

A gente deve riscar livros novos? Livros que ainda cheiram a tinta fresca, que a gente acabou de ganhar. Risca? Eu não sei. Ainda não consegui. Vou escrever aqui, passar pra um caderno novo depois, não sei.

O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar. Primeira página, primeiro capítulo, primeiro parágrafo – todo ele, mas especialmente o fim.

Encontraria a Maga? Tanta vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-se entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia.

Enquanto reproduzia o trecho, ia me perguntando o motivo de estar fazendo tal coisa. “Pra quê?” – era a pergunta incômoda. Não sei responder com grande exatidão. Acho que talvez seja o reencontro com alguma poesia nessa vida. É a minha luta pra conseguir aceitar (ainda que não seja uma obrigação ou um fardo pesadíssimo) a idéia de que o que vale a pena talvez seja o caminho, a trilha, e não necessariamente o destino final. É a idéia da travessia , do Grande sertão: veredas, do Rosa. Que me leva direto e reto a uma menina que insiste em repetir isso pros meu olhos teimosos, que por sua vez não passam de reflexos iluminados de uma cabeça dura que dificulta bastante a entrada de coisas novas e tão simples quando essa idéia de travessia.

A vida sem sentido. A vida sem objetivos finais. Cada dia pelo que ele é. A imagem de um rapaz andando, caminho de terra batida, não se vê o começo, já muito lá pra trás, e não se vê o fim, tampouco. Ele vai andando, olhando ao redor, saindo do caminho, voltando…

Lutar pela poesia no dia-a-dia. Ótima resolução de ano novo…

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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