Matutando

Vidinha estranha essa de às vezes a gente querer muito e tanto, que na hora, desquer. Quando se quer muito a coisa tal, fica com isso na cabeça de nunca sair. E remói de tudo quanto é jeito possível e despossível, sem chegar em ponto algum, porque é coisa tal que se sai nunca volta, se-quando volta já passou o tempo do dizer-que-chegou e aí, bom, aí é a velha conversa de querer não-querendo. E como a gente quer coisa, moça. A gente quer tudo quanto pode pegar e, naquela hora em que tudo já é nosso, fica querendo e sofrendo agonia burra de querer o que não pode pegar. Burrice manca, é o que eu digo.

Homem burro feito eu se apaixona por olhar, se encanta com um sorriso que se for ver bem visto, nem era pra ser meu. Mas a senhora sabe bem como são essas coisas, os olhos, coitados, os olhos só vêem, quem segura de não largar nunca mais é o sentimento, é o que eu sei. Sentimento que vai transbordando pela beiradas e pelos buracos da cabeça. Inclusive sai pelo olho. Diz que tem gente que sabe ver amor vazando olho-a-fora. Eu mesmo não sei não. Quer dizer, penso que não sei. Melhor seria: penso que sei. Mas na verdade verdadeira desse mundo de meu Deus, a única coisa sabida é aquilo que a gente sente, sabe? E eu sinto muito, tanto. Muitanto.

Se eu pudesse, mas não posso, preferia ter nascido menos sentidor. “Senti-dor”, vai vendo… Que aí eu acho que a vida ia parecer leve feito pena de pássaro, que passa a vida (e pena tem vida?!) brincando zueira com o bafo quente que vem de dentro da terra. Não dentro lá de dentro; dentro lá de onde o céu encontra o chão… Entende? Esse bafo. Mas não adianta. Gente que nega aquilo que é, só consegue se confundir e no fim ficar sem saber quem foi. Um dia gente assim olha pra trás e percebe que jogou de lado parte da vida inteira que não volta, que quebra e não cola, que desmancha no tempo. É dó doida ver essa hora. Eu mesmo não vi não. Mas sei de gente que viu e na mesma hora voltou assustado pra dentro de casa, abraçando tudo quanto foi parente, amigo, irmão e desafeto que viu pela frente. Medo de não-ser. Sabe Deus o que deve ser ruim isso…

Quero vida mansa, devagarinha, devagarinha. Digo pra senhora, dona moça, com a sabedoria que a vida severina me deu: vida mansa se faz aos poucos, engolindo o mundo com farinha. E é.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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