pessoas, coisas

A Ana disse uma vez que é muito difícil ouvir Marisa Monte seguidas vezes e eu, na minha ignorância, achei que ela exagerava. Exageros são muito próprios da Ana. Dificuldade de admitir erros é uma das minhas propriedades mais desagradáveis – não consigo, ou pelo menos, demoro a fazer. Mas, enfim, um dia tentei ouvir muitas músicas da Marisa Monte, uma atrás da outra e realmente não consegui. O que não faz da Marisa Monte uma cantora ruim. A bem da verdade, gosto bastante do que ela fez até o tal do – qual era o nome? – “Tribalistas”. Aquilo era um chute no saco. Maldito Carlinhos Brown, que tem lá seu valor na Candial, mas devia ficar ali e não ir casar com filha nenhuma do Chico. Divago. Foda-se, quero divagar. A minha música favorita dessa semana da Marisa é “Magamalabares”, do “Barulhinho Bom”.

Pensei em citar vários nomes. Já falei da Ana. Falando em Ana, já ouviu falar em Julio Cortázar? Já ouviu, Ana? É um escritor argentino, que não era argentino. Nasceu na Europa e migrou com a família pra lá ainda criança. Criava cronópios embaixo da cama. A Carla citou uma passagem, um capítulo de “O jogo da amarelinha” no seu blog. A leda, há muito tempo, noutra era, quando ela ainda tinha cabelos compridos (e eu também), quando ela ainda não fazia teatro, quando ela era ainda menor do que é hoje, me emprestou “Histórias de Cronópios e Famas” e eu simplesmente me apaixonei pelo livrinho – pequeno e grande. Igual à leda (que não gosta de letras maiúsculas e eu penso que nunca mais vou conseguir escrever o nome dela com letra grande no início). Escrevo “Le…” e paro; daí escrevo direito: “leda“. Mas, Cortázar. A Giu conseguiu um exemplar novinho d’O Jogo…, saído do forno, direto da editora para mim! E acho que ela sabe como isso me deixa feliz. (Não deixem o chefe saber…)

A quem interessar possa: ainda não estou empregado, mas há grandes chances. E, não, não é dessa vez em que enriquecerei às custas dos meus anos de estudos geográficos. Há de chegar o dia. Não há? Não importa. Só quero poder ir viajar nos finais de ano. Quero poder comemorar as bodas de prata com minha esposa refazendo nossa viagem inesquecível de lua-de-mel. Igual a meus pais, que comemoraram ontem (que já é anteontem) vinte e cinco anos juntos – e se amando. Eles se amam. Os olhos ainda brilham. É isso, não quero só poder viajar, quero que ela queira ir comigo, renovar o amor, a escolha – reviver. Eles viajaram, na década de oitenta, de São Paulo a Torres, no Rio Grande do Sul, num fusca azul – cuja chapa (EN – 0341) dava nome ao carro: chamavam-no Eno. Seis mil quilômetros num fusca. Então, de novo, quero ter a condição, quero que ela queira, quero ter muitos discos pra ouvir no percurso, pra cantar junto.

Tanto tempo junto ensina muito sobre o outro, eu imagino. E imagino porque em menos de um ano de convivência, aprendi a entender bastante coisa sobre a moça por quem me apaixonei numa tarde quente do início do ano. Juro que foi assim: eu estava sentado, olhando pra alça da minha mochila, cultivando meu tique nervoso favorito (brincar com a alça), quando o carro parou em frente a um prédio no centro da cidade, ao lado da igreja matriz (sim, aqui há a praça da igreja matriz e sua respectiva igreja), a porta se abriu e eu levantei os olhos, esperando ver um rapaz que esperava a condução ali; quando fixei os olhos na janela, não vi apenas o rapaz, ele vinha acompanhado de duas moças: uma morena alta e uma mais baixa, com os cabelos castanho-claros volumosos, jogados às costas. Ela trazia uma pequena bolsa, dessas em que a alça atravessa o corpo transversalmente, e usava tênis, calça jeans e uma blusinha preta, dessas que colam no corpo. Não sei se colava, porque não consegui desgrudar os olhos dos olhos dela. Que não me olhavam. Não nos conhecíamos. Eu não tinha qualquer informação sobre ela. Ela nunca falara comigo. Mas no momento em que ela disse um “olá” geral, eu me desfiz. Tinha acontecido e não tinha mais volta. Aliás, não teve até agora. Hoje, meses depois, ela sabe de tudo. Penso em pintar com letras garrafais na parede do quarto a palavra: paciência. É só o que eu preciso. Acho. Espero. Tomara.

Deve ser a vigésima vez que toca “Magamalabares”. Não agüento mais. Vou pra cama ler “Geografia Urbana”, de Pierre George, e pensar nela. Por enquanto, é o que tenho. E não é ruim.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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