O Pedra.

Houve um professor de Geografia, formado na Unesp, companheiro de turma de muitos dos meus mestres, que lecionava nas escolas mais badaladas e caras das regiões de Campinas, Rio Claro, Ribeirão Preto, Jundiaí… Era um ótimo professor, fazia sucesso onde quer que fosse, preparava as aulas mais disputadas, era o delírio das meninas dos cursinhos… Chamavam-no Pedra – e eu imagino que esse tenha sido seu sobrenome. Era paraibano, se bem me lembro. Colégios de Belo Horizonte vinham buscá-lo de helicóptero em Campinas pra que ele ministrasse aulas por lá. Tinha dinheiro, carros, uma bela casa… Numa tarde, voltando – ou “voando” – de São José do Rio Preto para Rio Claro (se não me engano), numa saída para outra rodovia, enfiou o carro na barreira de concreto que separava as duas pistas e morreu decapitado, dentro do seu carro.

Uma comoção incrível se abateu sobre boa parte dessas cidades, mas eu acompanhei mais de perto o que aconteceu com as pessoas da Unicamp e da Unesp, que conviviam bastante com o Pedra. Foram dias muito tristes, nos quais todos lamentavam a perda de alguém tão novo e talentoso. Alunos perplexos, amigos inconsoláveis, colegas de faculdade tontos… Uma lástima.

A imagem que restou do Pedra pra maioria das pessoas é justamente essa: um jovem geógrafo, muitíssimo bem sucedido, rico, inteligente, um profissional respeitado, admirado, um exemplo a ser seguido, enfim. E de fato, era. No entanto, um pequeno fato que essa mesma maioria não sabia faz toda a diferença do mundo na história desse jovem homem.

O Pedra, um professor requisitado, um paraibano que fez a vida no Sul, um geógrafo de renome, amava e não era amado. Havia uma mulher na história do Pedra que era a sua amada, a mulher por quem ele sonhava, pra quem fazia tanto sucesso, em quem pensava todas as noites em que deitava a cabeça no travesseiro e chorava a solidão. Ele tinha todas as meninas que quisesse ao seu alcance, era só estalar os dedos, piscar um olho – e pronto, qualquer uma. Mas a única que lhe interessava, ele não tinha. Não teve. Morreu e não teve.

O mundo não é justo. Mas é absolutamente cruel. E não é uma crueldade simples, direta… ela tem requintes, tem meandros, tem surpresas. Nunca pára. É incansável. Corta feito lâmina nova, retalha, destroça, corrói – quando não endurece, transformando tudo em pedra.

Pedra. Eu não sou o Pedra. Tenho lá minhas pretensões, mas não sou nem vou ser como ele. Agora, em um ponto, com a liberdade que me concedo, da maneira mais respeitosa à sua memória que consigo, me entendo semelhante a ele. Sempre que chego a algum lugar onde eu vá dar aula, lembro da história dele e traço um paralelo inevitável com a minha – que é solitária tanto quanto a dele. E pior: solitária sabendo que existe alguém que me tornaria completo. Tudo o que faço, não faço completamente porque eu mesmo não estou completo. Falta uma parte – minha e do mundo onde vivo.

Destino maldito. Noite aziaga. Ao inferno… Ao inferno.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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