rotina

Desde terça-feira tenho acordado às seis da manhã, ido para o banho – que não leva mais do que dez minutos –, saído do banheiro, colocado uma roupa, os tênis, caminhado até a cozinha e, ali, bebido uma caneca de leite frio com Toddy. Por volta das seis e meia, vou até a garagem, tiro o carro, tranco o portão (que tem a fechadura invertida, a chave entra de ponta-cabeça), entro no carro e dirijo até a cidade vizinha, Amparo, ouvindo na rádio um programa intitulado “Nostalgia”, onde são apresentadas diversas peças musicais antigas – como seria esperado –, especialmente sambas antigos (com os estalidos das bolachas LP). É uma rotina idêntica. Durante o percurso, ao mesmo tempo em que presto atenção ao rádio, me surpreendendo com alguns daqueles sambas, tento (sem sucesso) repassar o conteúdo que deverei transmitir aos alunos dali a alguns minutos; nas duas vezes em que isso aconteceu, não consegui me lembrar de tudo e senti um frio na barriga bastante incômodo (“E se eu esquecer de tudo na hora?” – minha imaginação). Estaciono o carro ao lado do colégio exatamente às 6h57. Medo de chegar atrasado. Mas, de qualquer forma, isso não importa. Assim que entro no prédio, me encaminho diretamente para a sala dos professores e deixo a pequena pilha de apostilas em cima da mesa; bebo (quase compulsivamente) dois ou três copos d’água, esperando que isso ajude com o frio na barriga. Os outros docentes seguem as suas rotinas (mais acostumados a elas do que eu à minha): se divertem falando mal de alguns alunos, de outros professores ou praguejando sobre a “quinta série infernal”. Não falo nada, apenas pego minhas apostilas e ando, calmamente, até a porta da sala. Os alunos estão pra fora, conversando, correndo, brincando, se beijando, brigando… Entro. Em mim, um silêncio quase palpável – experimento cumprimentar aqueles que cruzam olhares comigo, mas na maior parte desse curto tempo (entre o entrar e o chegar à mesa), me mantenho calado. Prefiro um sorriso no rosto – não por algo especial, algo como “demonstrar ser alguém amigável”, mas apenas porque prefiro. As pessoas vão entrando, se sentando, terminando de trocar as últimas palavras – de repente, estão olhando para mim. Não todos, mas a maioria. Eu já terminei de apagar a lousa; como não há ainda nada escrito (estamos na primeira aula), compreendo perfeitamente porque meus professores sempre fizeram aquilo – mas não conto… As profissões têm seus pequenos segredos. “Bom dia” – eu digo. Alguns respondem. Continuam me olhando. Alguns segundos depois eu começo a falar. Geralmente começo com um “então…” ou com um “se vocês estão lembrados…” – e não sei bem porque faço isso. Vícios de linguagem, provavelmente. O silêncio não permanece durante todo o tempo, mas eu evito chamar-lhes a atenção. Prefiro que percebam que é melhor irem se aquietando. Se não perceberem, peço apenas que conversem num volume mais baixo. Nunca gostei de professores que proibiam as conversas. Enquanto falo, noto os olhares. Amigos meus, professores da nova hora, assim como eu, já haviam me contado sobre o modo como aquelas crianças olham para os seus professores. Eu achava que entendia, mas não entendia. Agora entendo. Tanto meninos quanto meninas, se se interessam pela aula, fixam os olhos em mim e é como se sugassem cada uma das palavras que vou dizendo à minha maneira: meio no atropelo, sem conseguir articular todas as sílabas. Não é a maioria que age assim, mas há os que agem. Depois da quarta aula, às dez e quarenta, vou embora, me despedindo daqueles a quem encontro pelos corredores, mas sem parar – apenas vou saindo. Daqui a pouco será o terceiro dia – o último – da minha primeira experiência como professor de uma quantidade considerável de crianças, com idades que variam entre os dez e os dezoito anos e que não são parecidas com o público que freqüenta cursinhos (onde já dou aulas há quase um ano). Penso que não me enganei na escolha da minha profissão. Penso que será sempre um prazer acordar às seis da manhã, depois de passar o dia anterior atarefado na preparação de uma aula. Ainda que essa aula, tão meticulosamente preparada, seja ouvida por apenas alguns nas salas, penso que esse processo é (e será), de fato, a grande motivação da minha vida.
Anúncios

Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em la comedie des jours. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para rotina

  1. Pingback: Quando a gente corre, não consegue escrever* « acaba mas até continua

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s