“Eppur si muove…”

Eu fico pensando cá com meus botões sobre o projeto que ando escrevendo, na intenção de enviá-lo a uma das agências de fomento à pesquisa científica, e me pego surpreendido como há sempre uma nova maneira de enxergar o mundo. Enquanto me esmero na tentativa de compreendê-lo de certo ponto de vista, vejo outras pessoas comentando assuntos semelhantes mas sob focos completamente diferentes, dando tons ao tema que nunca imaginei. É divertido ser cientista. Principalmente porque sempre se tem a sensação de ver um pouco além da maioria. Às vezes, vê-se mais longe até do que a minoria. E essa é a parte mais divertida.
O Alex Castro se perguntava outro dia se a Universidade seria o lugar adequado de trabalho dos intelectuais, uma vez que ali essas pessoas são pagas pra pensar e suas respostas[?] devem satisfazer aos que bancam a brincadeira. Quer dizer, de certa forma, limita-se a autonomia do pensamento, vincula-se a prática científica a essa ou àquela ideologia preponderante na instituição, prejudicando o resultado final. Ainda não tenho uma resposta – comecei nisso há muito pouco tempo –, mas não vejo como separar uma coisa da outra: produção científica, ideologia. Posso estar redondamente enganado, obviamente, mas penso assim. Mesmo se voltarmos às épocas onde não existiam as instituições propriamente dedicadas ao livre-pensar, as pessoas precisavam defender posições – às vezes com a própria vida, noutras vezes nem tanto, como nos ensinou Galileu Galilei. Então, me parece difícil nadar contra essa corrente.
A coisa toda do método e da epistemologia científicos meio que impedem o intelectual de sair do modelinho; porque você precisa se decidir por esse ou aquele, por isso e por aquilo, ou não. Mas, claro, é um modelo. Se você pretende publicar artigos em revistas internacionais sobre Ciência, é bom se enquadrar nele; se não, ótimo. Agora, é preciso ter colhões. Há um, bem, um modelo adotado nas universidades que obriga os professores-pesquisadores a publicar o máximo possível – mesmo que isso comprometa a qualidade daquilo que publicam – como condição a serem classificados em uma escala de valores que diz qual é o pesquisador mais produtivo, qual não é, quem merece a concessão das bolsas financiadoras, quem não… E assim por diante. Essa coisa da meritocracia e seus índices, números, valores, listas, rankings, me irrita um pouco.
Mesmo entre os graduandos essa competição é estimulada, uma vez que se o seu índice de rendimento (utilizado nas universidades estaduais de São Paulo, e acredito que em um sem-número de outras instituições superiores) precisa ser maior do que o seu colega de classe, se você pretende pegar a bolsa oferecida ao invés dele. Certo, dizem há que haver um parâmetro de desempate ou qualquer coisa assim. Eu, de meu canto, acredito que o aumento de alguns poucos pontos percentuais no repasse de verbas pras agências ou mesmo pras próprias universidades resolveria grande parte do problema. Sem precisar criar essa busca desenfreada por um CR de ouro (Coeficiente de Rendimento – como é chamado aqui em Campinas).
Estou entre a cruz e a caldeirinha: sei que meu projeto é bom e tem chances bem grandes de trazer algumas contribuições relevantes pra uma série de discussões geográficas, mas também sei que minha chance de conseguir o financiamento é bem pequena. Apesar disso, escrevo o negócio e enviarei à “apreciação” da agência assim que possível. É o que devo fazer, imagino.
No entanto, não posso deixar de pensar que isso não se parece exatamente com aquilo que se costuma chamar “espaço do livre-pensar”, o lócus dos intelectuais comprometidos em dar respostas sobre o universo, a vida e tudo mais. É livre, mas só até a página cinco.
E ainda tem a questão da ideologia que comanda a coisa toda. É difícil pensar diferente num lugar desses. (O que remete à questão proposta pelo Alex Castro: não era pra ser “livre-pensamento”?) Tanto assim que geralmente quem o faz, precisa se municiar, inclusive, de certa “arrogância” (note as aspas) perante os outros acadêmicos. Como se aquela coisa de o cientista enxergar além da maioria fosse aplicada às relações entre os próprios cientistas. Então, se você é de direita, acredita ser mais inteligente e mais perspicaz do que os de esquerda, e vice-versa. Fica um pouco chato tudo isso. E acontece o tempo todo, até fora de lá. Todo mundo tentando provar ao outro que vê melhor, mais longe e mais claramente a realidade (seja lá o que isso for). Mas, no fundo, eu me divirto bastante.
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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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