Lição de vida.

Gente morrendo em paz, gente morrendo sem paz, alguns ignorando a morte dos outros, muitas crianças, muitos velhos, poeira, calor, banana – Pedro de Toledo. Num buraco do mundo, entre dois braços de serra, um vale de um rio qualquer; no vale (componente de um outro maior – dito “do Ribeira”), um povo esquecido. O que mais me doeu foi o descaso, o desrespeito, a miséria humana, o apego a soluções milagrosas – porque soluções práticas, ninguém oferece. Uma quantidade absurda de gente a mingua.
Se a família é uma instituição falida, discute-se depois; em Pedro de Toledo (retrato fiel de todo o país), ela já não existe mais da maneira como nos acostumamos a pensar. Meninas de 18 anos grávidas de meninos de 14 anos. Menina-mulher-mãe de 20 anos sobrevivendo à fome, “subvivendo” com três filhos e marido inválido. Moça-linda, esposa de alcoólatra e mãe de três filhos, contando 21 anos. Evangélicos, todos. Sim, há mal nisso. Senhor índio, guarani, 73 anos, com uma arritmia grave e sopro no coração, irredutível na idéia de que seu Deus o salvará, mais certamente do que um marca-passo da Medicina.
Poder público municipal corrupto, ineficiente, hipócrita, falso, inexistente. Não se viu ali qualquer secretário ou funcionário da prefeitura andando a pé (ou mesmo em carros modestos) as enormes distâncias que separam o núcleo urbano dos bairros e sítios mais afastados – como fazem os incontáveis subviventes de Pedro de Toledo. Sorrisos e maneios, amabilidades e cordiais recepções, pelo menos enquanto não se começou a encontrar os desmandos e os absurdos daquele buraco de mundo. Pedro de Toledo não é passagem para lugar algum. A BR-116 passa ao largo da cidade, a estrada que a liga com o mundo sai de Peruíbe e termina em Miracatu. Ninguém vê Pedro de Toledo pelo vidro do carro.
Disseram-nos que a intenção principal do Projeto Rondon (que me levou a essa cidade) era a de tirar os estudantes e professores universitários de dentro dos muros e prédios e confrontá-los com a realidade para além das teorias. Conseguiram. O choque foi imenso. A distância entre o que fazemos na universidade e o que acontece fora dela é quase intransponível. E no mais das vezes, as pessoas são esquecidas – dentro e fora.
Talvez a cidade de hoje responda ao mundo que criamos: reproduzindo na construção dos seus espaços a lógica da segregação. Dizia-se que as cidades eram o espaço por excelência do convívio entre os diferentes. Não acredito mais nisso. A cidade retrata sobremaneira a sociedade perversa que vem sendo criada e abastecida continuamente por novas formas de separação entre os que podem e os que não podem (nem poderão). As favelas não se relacionam com o bairro nobre. A não ser em casos específicos, como quando a senhora nobre necessita rapidamente de uma empregada que lhe ajude com os afazeres domésticos; nesse momento, São Miguel Paulista encontra o Morumbi. Fora disso, há os espaços dos ricos, há os espaços dos pobres – institucionalizados, inclusive. Hospitais para uns, hospitais para outros; escolas de uns, escolas de outros; lazer de uns, lazer de outros. Pobres e ricos se hostilizando constantemente, reproduzindo irracionalmente o discurso da diferença.
Pedro de Toledo não é única, infelizmente. O Vale do Ribeira me ensinou muito mais do que eu a ele. Produzimos ferramentas que ajudarão políticos verdadeiramente comprometidos com aquela cidade, mas nada será produzido pra amanhã – e nesse meio tempo, muita gente continuará morrendo por lá. Pessoas esquecidas, transformadas em estatísticas, números, índices. Sem história. Desrespeitadas na sua condição de ser humano.
Foi triste ver tudo isso. O convívio com pessoas diferentes (os outros “rondonistas”, como nos chamavam), foi absolutamente rico e alegre, mas a realidade se impunha na maior parte do tempo e não poderia ser diferente, eu imagino.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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