Arranhando paredes

Às vezes me pergunto por que não acreditar em Deus. Pergunta difícil, bem sei; cheia de respostas e de uma profundidade imensa. Nâo tenho nenhuma certeza. Bom, só uma: preferia acreditar. Não é bom não acreditar, não conseguir acreditar – não é birra boba (“Não acredito!” *mostra a língua*), é incapacidade de ir além de um ceticismo lógico-burro proibitivo.

Sei também que se precisasse justificar o ceticismo, usaria um exemplo que vive aqui em casa. Uma senhora, 82 anos, vítima de um atropelamento, minha tia-avó, católica apostólica romana, praticante e temente (enquanto pôde). Não fosse o atropelamento ter acelerado o processo, mais dia menos dia teríamo-la na mesma situação que se encontra hoje, por conta de um mal de Alzheimer que caminhava pelas sombras do seu cérebro.

Não me parece uma troca justa. Pode parecer exagero, mas eu sei o quanto me dói ter que repetir pra ela, todas as noites, que a mãe dela está morta, que seus irmãos estão mortos, que essa casa é agora a casa dela e que ela precisa dormir, porque ela nunca se acalma, vive em uma eterna agonia de não saber notícias dos familiares, de não saber onde está, de se esquecer de tudo e todos e relembrar tudo e todos a cada segundo.

Uma vida renegada em favor de outras pessoas, dedicada a ajudar outras pessoas, vivida dentro de igrejas (e não é uma crítica dirigida à Igreja, obviamente), uma mulher sem máculas – morrendo aos poucos, definhando, regredindo, murchando… Cadê Deus? Nisso? Sofrer para merecer algo melhor depois, me dizem. Mas se vivemos agora, qual o sentido de sofrer para um depois melhor?

Talvez não haja um sentido transcedental. Talvez tenha sido alguém, numa noite triste de inverno feito essa minha, o inventor de Deus e do Depois. Talvez algo menos poético. Não sei… Não consigo pensar em coisas menos poéticas que possam ter inventado a esperança.

Eu juro que preferia acreditar e não precisar sofrer e arranhar a parede e chorar e lembrar dela quando cuidava de mim durante as tardes, depois da escola, porque meus pais estavam trabalhando e da comida deliciosa que sabia fazer, das histórias da fazenda de café, das risadas e xingamentos em italiano que eu nunca entendi…

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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