Cultura do Medo

Não lê. Aviso antes porque sou teu amigo – não leia.

Me conforta o fato de existirem lugares onde não se vêem cercas elétricas, câmeras, guaritas, muros imensos, placas estúpidas me pedindo para sorrir… Gosto de pensar que um bando de gente nunca vai experimentar a alegria de viver sem medo. Escondem-se por trás de blindagens, cercas, armas, cursos de conduta defensiva – tudo por uma “sensação de segurança”, que opõe-se à sensação irmã de insegurança.

Não estou negando os assaltos, os seqüestros, os roubos, as mortes, não. Ora, por favor, é tudo óbvio, fato irrefutável. Roubam-se tapes de carros, né? Roubam-se.

Penso que, no entanto, há diferentes formas de se encarar essa problemática toda. A gente pode pensar em economizar para a blindagem do carro, pode votar no candidato que promete mais polícia na rua, pode construir um bunker dentro de casa, pode, claro que pode, pode até andar armado e atirar se for preciso. A gente pode, também, ignorar; mexer no CD do carro no exato instante em que alguém se aproxima do vidro tentando conversar.

Ou a gente pode preferir a porta aberta, a conversa no portão, o cinema à noite – o lado de fora do claustro.

Poucos lugares freqüentados por quem tem dinheiro são realmente confortáveis, acolhedores, agradáveis. A maioria dos outros, correspondentes à outra ponta da corda, muito pelo contrário, é praticamente feita de tudo isso. Não se vê muitas portas fechadas numa favela.

Defendendo bandidos? Haha. Ora, por favor. Defendendo minha idéia de um domingo feliz, pra mim, daqui uns trinta anos. Se eu tiver que acionar unidades blindadas do Exército pra poder sair da minha fortaleza e ir à banca da esquina comprar figurinhas pro álbum da Copa pro meu moleque, achando tudo muito normal e corriqueiro, a minha idéia (que não ofereço a ninguém) terá morrido em algum lugar no meio do caminho.

Olhar para o problema com o enfoque na ponta das conseqüências, na ponta das “reações necessárias” e esquecer a outra ponta, a das causas, não ajuda na sobrevida da minha idéia.

Assista, se puder, ao documentário “Violência S.A.”.

Leu? Não me encha, eu avisei.

Anúncios

Sobre thiago gonçalves

se tanto.
Esse post foi publicado em la comedie des jours. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s