The Day After

Estive em Ribeirão Preto ontem. Deixei em casa uma mãe repleta de medo. Levei comigo apenas uma meia-muda de roupa – e me arrependi. Levei também uma garrafa d’água e o Grande Sertão: veredas, que ando lendo (finalmente, e me apaixonando).

Ando sempre com uma garrafa vazia e encho-a sempre que posso. A idéia de comprar água, não me desce muito bem. Prefiro consegui-la em bebedouros gratuitos. A que esteve comigo ontem se perdeu de maneira irremediável. Ficou tão suja que serei obrigado a substituí-la por outra – dois anos depois e um pouco contra minha vontade. Aquela garrafa já fazia parte da família praticamente.

Ribeirão Preto é conhecida por um monte de coisas. Tem gente que a chama de “a Califórnia brasileira”, por conta daquele costume que a gente tem de ficar sempre e o tempo todo comparando nosso país com outros pra dizer que um pedaço dele é melhor ou que outro nem tanto… Coisa de brasileiro – viva-se com isso. Tem outras gentes que associam Ribeirão àquela chopperia famosa (e cara), o Pingüim. Eu, particularmente, sempre vou me lembrar de Ribeirão Preto como a terra do latossolo vermelho. Ah, eu sou geógrafo! Dá um desconto… Latossolo vermelho é a famosa terra-roxa, que, quando o tempo está seco (situação constante na nossa Califórnia), se transforma num talco vermelho, que entra nos lugares mais improváveis. Minha meia, pelo que sei, perdeu-se definitivamente. A quantidade de pó que saiu de meu cabelo quando cheguei em casa, encheria facilmente um daqueles silos de armazenamento agrícolas.

A mãe preocupou-se quando soube que eu iria até Ribeirão pra visitar uma feira de implementos agrícolas (chamada Agrishow, e não por acaso). Com certeza pensou em bombas explodindo nosso ônibus, projéteis atravessando a lataria e acertando em cheio o peito de seu filho, um bando de estudantes seqüestrados pelos meliantes – que nos trocariam por mais algumas TVs, uniformes mais in, diretores menos fascistas – e, provavelmente, não curtiu a idéia de me ver aparecendo no Jornal Nacional contando meus desesperados momentos nas mãos dos bandidos, antes da chegada dos policiais. Ela tinha suas razões. Razões de mãe, mas ainda assim, razões.

Tentei acalmá-la da melhor forma possível na segunda, quando saí de casa de carro, com meu pai, e me dirigi célere a uma Unicamp evacuada, deserta, vazia como eu nunca tinha visto. As pessoas saíram correndo tão rápido que luzes dos prédios foram deixadas todas ligadas, pertences ficaram pra trás, algum bom-senso sujava o chão, escorrido de algumas cabeças, até uma quentinha foi deixada em cima da mesa de uma lanchonete, esquecida, intocada: retrato de um pânico que se generalizou não apenas na Unicamp, mas por toda a cidade (e não apenas Campinas). Pessoas correndo, com medo, fugindo de bombas que não explodiram, de tiros que não foram disparados, de boatos que se tornaram imensos monstros gosmentos… Assustadas num tanto que extrapolou os limites da razão.

Na Agrishow, vi shows de máquinas agrícolas que me acostumei a ver apenas na TV e citadas em textos que leio para as aulas da faculdade. Engenhos impressionantes, com funções tão específicas e detalhadas que por vezes é difícil até de explicar todas as suas possibilidades numa única tarde de evento. Trabalho fantástico de engenheiros muito aplicados, dedicados e, ahm, bem, engenhosos. Era um imenso comercial ao estilo 1406 a céu aberto. Milhares de fazendeiros andando pra cá e pra lá com seus chapéus de cowboys e de peões australianos (manja o Crocodilo Dundee? Virou moda.), fazendo suas piadas infames – característica que os identifica e os une enquanto fazendeiros milionários -, sendo atraídos para dentro dos estandes por um exército de modelos lindíssimas, contentes em sua função de “cabides de folders“, rebolando na entrada dos espaços – só faltou o gancho de açougueiro segurando-as pelos colarinhos muito bonitinhos. Não posso deixar de registrar que no começo gostei de ver tantas moças bonitas juntas, mas depois de algumas horas, comecei a me sentir um pouco mal com tudo aquilo. Uma opulência sem fim. Caminhonetes de 150mil reais disponíveis para test-drives, tratores de 300mil reais com cabines pressurizadas, ar-condicionado, piloto automático guiado por GPS, aviões de pulverização vendidos (efetivamente) por 650mil reais, sem muito melindre. Os organizadores demonstravam as infinitas possibilidades daquelas naves espaciais numa fazenda próxima, cultivada especialmente para a feira anual. Enfim, um desbunde.

Volto, acalmo minha mãe, vejo que o governo “sentou pra conversar” com o PCC e que nisso encontraram meios de terminar com o levante, me despeço tristemente de minha garrafinha, transformo o chão do banheiro num rio de lama vermelha… E descubro, com um certo pesar, que o mundo gira numa marcha diferente para aquelas pessoas. Absolutamente diferente.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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