texto pra eu dormir em paz.

Há algum problema grave no fato de homens possuírem diários pessoais? “Claro que não” é a resposta que me vem à mente sem muito esforço. Só que essa mesma mente me obriga a justificativas. E como pretendo dormir hoje, ao invés de rolar na cama pra lá e pra cá falando sozinho, resolvi escrever.

Em fevereiro completaram-se dez anos desde que eu e minha família chegamos a Pedreira. Saímos de São Paulo e viemos pra uma cidadezinha no interior do estado. Os motivos, nesse momento, pouco importam. Me lembrei dessa data tentando achar uma explicação plausível pro meu diário – alguma coisa que vá além de obviedades (“Tenho porque sim”, e pronto). Fazendo as contas, em 1996 eu tinha 12 anos, ou seja, era o início da famigerada adolescência.

Nesses dez anos, não conquistei nenhum amigo em quem eu confiasse desavergonhadamente nessa cidade. Bons colegas, sim, claro. Algumas pessoas, inclusive, que de uma forma bastante bonita, permanecerão marcadas na minha memória, mas nunca achei alguém com quem eu pudesse ter uma relação de cumplicidade. Nunca fui pleno com nenhum pedreirense. A culpa disso, se é que ela existe, provavelmente advém da minha indisposição com relação às diferenças que existem entre a vida paulistana e a que se leva aqui. As relações inter-pessoais numa cidade tão pequena quando esta (com menos de 40mil habitantes), baseiam-se em matizes que minha cabeça de moleque de cidade grande me impedia de entender – de sequer tentar entender, na verdade.

Entre as gentes daqui, não se vê problema algum naquilo que quem é de fora costuma chamar de “conversas de Matilde”. Quer dizer, é fato corriqueiro e amplamente aceito que cada um, além de cuidar de sua própria vida, com seus tormentos e problemas, arranje tempo pra dar uma conferida no que acontece com os vizinhos. Todo mundo faz, e ninguém se incomoda. É coisa arraigada, típica de cidade pequena, onde a maioria se conhece. Aqui, falar mal de alguém exige um cuidado extra: todos têm algum grau de parentesco. E não importa quão longínquo seja: é meu primo em terceiro grau, então não me venha falar mal dele! E a vida segue assim, e devagar. Quem vem de fora, quem não faz parte desse círculo (mesmo morando aqui), sofre pra se adaptar; e garanto que levou muito tempo até eu, enfim, parar de me surpreender com os cumprimentos da moça do supermercado, com o aceno da atendente da padaria, com o gerente do banco me chamando pelo nome, na minha primeira vez na agência, como se todos me conhecessem.

Mas ter me acostumado com esse modo de viver não significa, de maneira alguma, que eu participe ativamente dele. Tenho uma péssima memória, então sempre esqueço o sobrenome desse ou daquele e quem é primo de quem ou se já conheço aquela moça porque ela estudou comigo na sexta série… Sou um ET em Pedreira. Há dez anos aqui e é como se eu ainda fosse um recém-chegado.

Por não ter me adaptado melhor a essa característica tão complicada da cidade, não consegui, nesses anos todos, confiar em ninguém. Se eu tinha um assunto importante pra conversar, precisando desesperadamente de um conselho, não conseguia recorrer aos companheiros de escola, aos professores, aos colegas de trabalho por um único e grave motivo: cazzo, eles vão contar tudo o que eu lhes disser em segredo ao primeiro que aparecer. E contariam, sem dúvida. E a história se multiplicaria (cada um aumentando seu ponto, como diz o ditado), chegando a ouvidos de pessoas que eu nem ousaria imaginar. Isso, pra mim, tornou-se quase obsessivo: que não fuçassem a minha vida. Por essa razão, desde os meus quinze anos, mantenho diários regulares.

Se não há uma pessoa em quem eu confie, pra quem eu possa contar meus segredos, meus medos, minhas bobagens, sem ter medo de que isso se torne divertimentos para as Matildes da cidade, conto tudo pro papel. Dali, eu sei que não sairão críticas, julgamentos, piadas, risadas…

Óbvio que isso é um problema – e eu não acho nenhuma graça. Não ter amigos íntimos é das maiores crueldades que cometi comigo mesmo numa época em que não sabia controlar meus pensamentos mais tortos. Hoje saberia lidar melhor com isso, porque sei lidar melhor comigo, com minhas reações e minhas paranóias. Mas o que está feitos, está feito. Eu me tornei um adolescente sem amigos, sou um homem sem amigos. (Aqui, em Pedreira.)

Por duas vezes pegaram um dos meus diários para ler sem a minha permissão. Alguns amigos queridos já os leram. Poucos compreenderam muito, muitos me taxaram de maluco. Mas, por duas vezes, duas pessoas leram sem meu consentimento. Hoje aconteceu a segunda. Foi um momento de raiva pura. E quem leu, o fez em voz alta. Não foi uma leitura extensa, mas o suficiente pra fazer meu sangue subir fervendo até a cabeça – chegando ao cúmulo de eu querer chegar às vias de fato com a pessoa. Criancice, infantilidade, falta de espírito esportivo. Estávamos no meio de uma brincadeira e a maneira que o rapaz encontrou de se defender foi me atacando.

Não se lê um diário – ao menos que o dono faça um convite (e mesmo assim, deve-se tomar cuidado). Se está escrito ali, num caderno pouco chamativo, que fica quase o tempo todo no fundo da minha mochila, significa que eu não quero expor aquilo. Se fosse o contrário, não haveria sentido pra um diário.

A minha dúvida inicial surgiu em função de uma exclamação de uma senhora que estava por perto e disse, em tom de voz jocoso: “Um homem com diarinho?!”. E eu respondi um seco: “Sim, qual o problema?”. E depois fiquei pensando.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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