pomar de ubás

Nesses dias em que ando meio afastado de tudo quanto é mundo, de assuntos mais espinhentos, fico me perguntando por que ele não faz sempre assim. Eu me diverti, achei engraçado; interessante a reflexão sobre a função dos tradutores, aliás. O problema é que quase sempre descamba e o bom humor desse texto é substituído por palavras menos divertidas – na minha opinião, claro. Outras pessoas só fazem elogiar e tudo.

***

Encontrei muitas pessoas nessa viagem pro litoral. Ubatuba é uma cidade praiana diferente. Nem de longe (mesmo que de muito longe) se assemelha a Santos ou ao Guarujá ou a Maresias. Não que essas três tenham muito em comum, mas têm. Santos e Guarujá, boa parte delas, são o refúgio mais comum dos turistas menos endinheirados do estado – da capital, principalmente. Por conta disso – a proximidade com São Paulo, as boas estradas, os preços baixos – estão sempre lotadas nos feriados, apesar de suas praias de areias e águas de qualidade duvidosa. Maresias, lá em São Sebastião, é o lugar dos ricos e bem nascidos. Se você quer fazer presença, até onde eu sei, invente que tem uma casa em Maresias e pronto. Aparecer com um carro caro ajuda na encenação. (Eu não achei nada de mais ali.)

Em primeiro lugar, Ubatuba é longe. De qualquer lugar fora do próprio litoral ou do Vale do Paraíba, são horas e mais horas de viagem até lá. Isso já restringe o tipo de público na cidade, ou seja, geralmente vai quem tem seu carro e bala na agulha pra bancar o combustível e os pedágios. (E, claro, os coiós feito eu que dividem os custos do passeio com outras pessoas por saberem o quanto vale a pena.) Talvez por isso, aquele ainda seja um pedaço de paraíso na faixa de litoral mais populosa do país. É tudo sempre muito lindo – mesmo a cidade em si, que há algum tempo não me agradava, mas que agora ajuda na manutenção do estilo caiçara de levar a vida, que impregna a tudo e a todos – até aos cachorros.

As praias, boa parte delas, são indescritivelmente belas. Não conheço muitas, mas por amostragem posso garantir. Praia Grande, a mais freqüentada, é um inferno nos feriados e eu prometi a mim mesmo que nunca mais volto lá – em tudo lembra Santos: a cor da areia, o mar cheio de embalagens de sorvetes, palitos de sorvetes, crianças e suas famílias histéricas, barracas, barracas, guarda-sóis, barracas, cadeiras, vendedores de queijo-coalho, isopores repletos de latas de cerveja, barracas, gente, gente, gente, barulho, barulho, funk carioca, pagodinhos paulistas… Mas fora da cidade, ah!, quanta diferença. Dessa vez fui a duas lindas pérolas: a praia da Fazenda e a praia do Prumirim.

A primeira é numa reserva ambiental, ou seja, verde por todos os lados (inclusive na água), pouca gente, mar limpo, areia limpa, nada de ambulantes. Um paraíso (vou repetir isso muitas vezes). Se ficar de saco cheio de tudo isso – o que eu acho quase impossível – ainda há a opção de fazer algumas trilhas pela mata… Há banheiros, chuveiros com água doce e fria, estacionamento para os carros, tudo de graça. Fica absurdamente longe da cidade – o que, na minha opinião, é uma maravilha.

A segunda, Prumirim, fica próxima a uma cachoeira de mesmo nome. É uma praia pequena, de tombo, com mar bravo – ótima pra quem sabe nadar. Como eu sei, me esbaldei. As ondas são altas, e quebram muito perto da faixa de areia. Mesmo com mais movimento que a da Fazenda, com algumas barracas de comida, a praia é quase exclusiva. O paredão de rochas, coberto de floresta, termina abruptamente em cima da areia, cinco metros depois, o mar. É linda. Ah! E tem pedras que avançam no oceano e fazem spray por todo lado.

Ubatuba é diferente porque exclusiva. Céus, me perdoem, mas é um fato: gente demais emporcalha tudo, estraga tudo, suja muito. Não é uma questão de índole ou (apenas) de má educação. O fato é que muita gente é mais difícil de controlar do que um pequeno grupo. Na imensa massa, alguns fazem certo, mas a maioria imita quem faz errado – daí o errado parece maior. Então, vou sempre preferir os lugares mais vazios; mesmo que eles sejam mais difíceis de chegar. Onde não seja nada fácil encontrar um lanche.

Voltando pela Rio-Santos, levei um susto ao passar perto de Cubatão e já na serra, chegando a São Paulo, a chuva reapareceu. A vida de verdade estava recomeçando. Afinal de contas, aqui no Brasil, 1º de janeiro é sempre depois do Carnaval.

Feliz Ano Novo.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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