Raízes.

Bacchin. Descobri hoje. É bonito? (Responde antes de eu dizer do que se trata.) Respondeu? Eu achei o máximo, principalmente porque é a resposta pra uma dúvida que me enchia a cabeça desde quando eu comecei a me entender como gente. Xêu tentar explicar.

Os pais do meu pai, Maria e Laureano, foram filhos de imigrantes europeus. Meu avô, filho de espanhóis, vindos de uma cidade que me contaram qual era mas que minha memória de bosta não guardou, me deixou de presente o sobrenome Gonçalves. Era Gonzales, virou o que virou pra que ficasse mais fácil, você pode imaginar. Meu avô morreu antes de eu nascer, mas pelas fotos acho que ele foi muito parecido com o ator Raul Cortez – se não sabe qual é, clica aqui. Ainda há um irmão dele vivo, lá em Santos, que não vemos há muitos anos, mas de quem tivemos notícias recentes e soubemos que anda tudo bem…

A minha avó, que morreu há, hm, dois anos, teve uma família idêntica à de qualquer filho de imigrantes italianos que vieram pro Brasil depois da libertação dos escravos, ou seja, imensa. Os pais tinham muitos filhos por conta do trabalho da lavoura e tudo aquilo. Eram 13 irmãos – 7 mulheres, 6 homens – minha avó, a segunda mais velha dentre as mulheres, era de 1921.

Era costume entre os italianos que chegavam aqui, deixar pra trás as agruras da Europa não apenas mudando de lugar, mas cortando qualquer raiz com a antiga vida. O nono de minha nona foi quem chegou aqui, com mais oito irmãos, vindos do Vêneto (e eu sempre supus a Lombardia por conta de conversas que pesquei quando pequeno). Quando chegaram, optaram por trocar seus nomes. Todos os integrantes da família, suas esposas, seus filhos e filhas, todos, esqueceram o sobrenome italiano e colocaram no lugar “Brasil”. Nenhum problema. Até o dia em que meu pai e um dos irmãos de minha avó, o Otávio, tio de meu pai, portanto, (que foi quem me contou tudo hoje) precisaram enterrar uma das irmãs que vieram da Itália.

O que todo mundo supunha e tinha como certo era que o nome dela era, de fato, Maria Brasil. E foi esse o nome que eles procuraram entre os documentos da mulher, necessários pra que se lavrasse óbito. Burocracias. Só que não se achava em lugar nenhum um documento em nome de Maria Brasil. Fala daqui, liga pra lá, conversa vai e vem, alguém lembrou que essa tia não trocara de nome como todos os demais. Seu nome de batismo era o que precisava ser procurado no documento. E ela não se chama Maria, muito menos Brasil.

Itália Bacchin. Era esse o nome. (Compreenssível porque a moça não quis mudar, não? Já pensou: Itália Brasil?) Gostos da época para nomes à parte, o que interessa é o sobrenome que estava estampado naquele documento e que foi, com o tempo, esquecido pela maioria… Até que esse que vos fala encasquetou de descobrir esse diabo desse sobrenome. E entender a história do sumiço.

E foi hoje que eu descobri. Bacchin, é esse o meu sobrenome italiano que há tanto tempo eu tenho curiosidade de saber. Giacommo Bacchin, e não Brasil. Angela Bacchin. Humberto Bacchin, e não Brasil. Julio Bacchin, e não Brasil.

Eles chegaram aqui em 1888, no ano da abolição. Foram dos primeiros. Vieram em primeiro lugar pra Campinas e depois, com o tempo e os revezes, se espalharam. E a julgar pela montanha de nomes que ouvi hoje, essa família deve ser gigantesca.

Eu vou poder refazer a história da minha família.

Ainda tem o lado da minha mãe. Minha avó, também Maria, é filha de uma índia e um português, e meu avô, Francisco Bonifácio, é baiano. Saiu fugido de casa, lá em Vitória da Conquista, e veio bater em São Paulo. Chegando aqui, como precisava de documentos para conseguir trabalhar, foi tirar sua carteira de identidade e inventou um sobrenome. O Rodrigues do meu nome não tem relação nenhuma com qualquer ramo português ou espanhol – foi inventado. Então ainda me resta essa história pra correr atrás.

Mas me descobrir Bacchin, ainda que pareça qualquer merda, me fez muito mais cioso das minhas raízes. Tenho uma intenção muito forte de escrever a história da minha família e saber desse sobrenome ajuda muito, porque posso buscar informações junto ao Consulado Italiano, à Hospedaria do Imigrante, aos milhares de sites da Internet dedicados a isso… Quer dizer, pretendo que o máximo possível da história dessa centena [?] de pessoas não se perca tão logo.

E eu fiquei tão contente.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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