Refletindo

Bom, são duas coisas que têm me incomodado sobremaneira esses dias. 1) A questão da retomada das atividades do programa nuclear iraniano, discutida em peso pelos países-membros do Conselho de Segurança da ONU e, 2) As mal-fadadas caricaturas de Maomé, publicadas por um jornal dinamarquês.

Invertendo a ordem, falo primeiro da segunda.

Há um componente qualquer nas religiões, ou melhor, em quem as professa que torna as reações das pessoas muito semelhantes às de qualquer apaixonado. Experimente falar mal da mulher que me inunda o coração e a vida de alegria – a vontade de lhe agarrar pelo pescoço será quase incontrolável. Isso porque a paixão é um sentimento avassalador, que domina a mente e turva a vista; mesmo daqueles menos susceptíveis. É, portanto, uma questão de cautela e (deveria ser) fruto de meticulosa análise qualquer comentário mais crítico com relação às diferentes religiões, quando nos dirigimos a essas pessoas, principalmente – mas não apenas nesse caso.

Toda crença numa religião, quando verdadeira, está baseada em argumentos muito pouco racionais. Dá pra dizer até, nada racionais. Ter fé em algo, crer em qualquer Além, esperar por isso, tentar se melhorar almejando esse “lado de lá”, não precisa de explicações, certezas, provas… As dúvidas existem e tudo bem – convive-se com elas. Ter com pessoas religiosas exige certa relação íntima com essa aparente ilusão da qual elas se alimentam e convida a um exercício constante de respeito por essas crenças (o que pode ser muito difícil para alguns, em especial aos mais céticos).

Então, nesse caso dos desenhos feitos com a imagem de um representante maior de uma religião que se esquiva – ela mesma e os seus – de basear sua fé em imagens, me parece antes de tudo um deslize no que se refere à questão do respeito às crenças alheias. Os islâmicos não se utilizam de ícones, estátuas, pinturas por acreditarem que a perfeição é Alá – qualquer representação humana, portanto falha, dessa perfeição seria um insulto. Isso está no Alcorão, há centenas de anos. Quem planta vento, colhe tempestade. Quem teve a brilhante idéia de, além de desenhar, caricaturar o maior profeta dos muçulmanos não imaginou que a repercussão disso entre fiéis que não ousam sequer imaginar um rosto para ele seria instantânea e intensa?

Bom, talvez tenha imaginado. Mas as teorias conspiratórias eu guardo para o próximo ponto. Nesse aqui me interessa dizer o seguinte: colocar um desenho de Maomé num jornal europeu, chamar isso de “liberdade de expressão” (como diz a carta com o pedido de desculpas escrita pelo editor-chefe da publicação), simular apreensão diante das reações inflamadas de pessoas pelo mundo, é, no mínimo, segundo minhas próprias convicções, uma enorme falta de respeito para com a crença daquelas pessoas.

E, veja, não estou pensando apenas nos barbudos do Hamas ou nos integrantes da Al Qaeda ou em qualquer outro estereótipo do “árabe assassino”, tão alardeada pela mídia no Ocidente. Fico pensando naquela senhora muçulmana que mora num pequeno apartamento em Paris ou em Beirute ou no Cairo ou, até mesmo, em Copenhagem; pra realizar melhor, procuro pensar numa senhora como minha mãe, que apesar de todas as barbaridades, mantém-se firme em sua fé – vivendo feliz por conta disso – vendo num jornal um desenho que ofenda sua religião. Fico pensando em como minha mãe reagiria a uma caricatura de Jesus, publicada num jornal árabe. Pior! Imagino a reação ocidental a um acontecimento desses… Pobres senhoras islâmicas – e seus filhos e maridos e filhas e netos.

Colocar essas questões – de respeito entre as pessoas, de respeito às convicções alheias – em segundo plano a favor de uma pretensa “liberdade de expressão”, me dá nojo e reforça minha idéia de que a estupidez é incrivelmente forte e sempre presente.

À segunda questão, sobre o programa nuclear iraniano.

Ponto um: alguém aqui fala persa? Conhece alguém que fala persa? Eu não. Ponto dois: como as notícias das “maluquices” do Ahmadinejad chegam até aqui? Via agências internacionais de notícias, certo? Cinco ou seis – de pouquíssimos lugares, porque pouquíssimos países têm condições de manter informantes espalhados pelo mundo. Hm. De quais países? Principalmente dos Estados Unidos e da Europa, se não me engano.

Eu avisei que as teorias conspiratórias estariam nessa parte. Mas, veja, desde as mentiras contadas pelos americanos sobre as armas de destruição em massa que supostamente existiam no Iraque, acostumei meu pé na posição de alerta, atrás, pronto pra girar no calcanhar e andar na direção contrária. Na verdade, bem antes disso; mas nesses quesitos “EUA + Oriente Médio + discursozinhos”, depois do Afeganistão, tudo só fez piorar.

Eu tenho, sim, uma pulga atrás da orelha que me faz enxergar sempre a mesma imagem do presidente iraniano no mesmo palanque, pra uma mesma multidão, em gestos muito semelhantes, falando uma língua completamente obscura pra mim, fazendo background à narração do Bonner dizendo sobre a periculosidade do programa nuclear iraniano, da iminente ameaça que a tecnologia do enriquecimento de urânio nas mãos de alguém tão inconseqüente como o Ahmadinejad representa para todo o mundo, etc., etc., etc.…

As informações dão conta de que o programa iraniano pretende a geração de energia a partir de plantas nucleares. Ainda que não se concorde com essa intenção, não há problema algum nisso – é uma decisão soberana de uma nação soberana. O Irã é signatário do Acordo de Não-Proliferação de Armas Nucleares, e isso lhe garante ou deveria garantir certo crédito.

No entanto, o poder da mídia é imenso – principalmente quando aliado a interesses outros. E esse poder todo fez muita gente acreditar na redenção democrática que os americanos levaria ao Iraque. E só não vê o que se passa por lá quem prefere a cegueira ideológica. Há uma avalanche de informações (informações, veja bem: que só vêm) sobre a ameaça persa. O Irã tem a terceira maior reserva de petróleo do mundo. Esse é um dado importante. O Iraque, a quarta. Bom, hoje, as empresas que estão no Iraque detêm a quarta maior reserva. Empresas de onde? Hm.

Prefiro a cautela. Sempre preferi. Mas não me espantaria ver o exército americano marchando sobre o Irã em pouco tempo. As mentes já estão sendo conformadas. O Bonner dá notinhas toda noite. A Folha não pára. O Estadão está lá. A CNN. O Le Monde. A Veja? Calma, também não me rebaixo a tanto. Aquilo suja a mão. Não deixem crianças chegar perto daquilo. Digam que o Bicho Papão come quem lê a Veja. (E ele prefere o cérebro.)

Um pequeno adendo. Gostaria de pedir a alguém, mas alguém que seja próximo dos grandes figurões do jornalismo brasileiro, que repasse minha desesperada solicitação a esses nobres profissionais para que, ao menos, eles chequem suas fontes de informações e parem de repetir despautérios. Senhores, senhoras, o Irã não é, nunca foi e não pretende ser um país árabe. Na verdade, eles, os iranianos, sentem um orgulho danado de seu passado persa. Tanto que mantiveram a língua depois de tantas invasões – apenas adotando a escrita árabe. Sabe quem é o maior ídolo iraniano (escusados os aiatolás)? Um antiqüíssimo poeta! Não saberia encontrar a fonte dessa minha informação, mas creiam-na. Aos milhares os pequenos iranianos são levados ao túmulo desse camarada, num lugar semelhante ao Panteão parisiense (ainda que bem mais antigo). E persa. Persa.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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