a quem interessar possa:

(Um aviso: esse é um texto longo e chato, que fala sobre Geografia e questões do método científico que eu escolhi pra mim. No qual explico minha opção pelo 3, na votação que se aproxima. Se você não se interessa por isso, por favor, não perca seu tempo.)

Há coisas que a gente aprende na faculdade que leva pra vida toda. A arte dos truques “infalíveis” na tentativa de ludibriar professores deveria ser instituída como uma disciplina obrigatória em todos os currículos. Mas, claro, a gente acabar aprendendo um pouco mais do que isso, e numa faculdade de Ciências Humanas tudo fica ainda mais grave, porque as aulas, as conversas, os textos, os corredores, o modo como tudo foi montado, te obrigam a optar por esta ou aquela maneira de ver o mundo. E, bom, num momento como esse, de um debate tão ferrenho sobre o Referendo de domingo, talvez tenha me faltado essa lembrança.

Estou me formando em Geografia e isso significa algumas coisas. Dentre elas, a mais relevante, é a de que estou me tornando alguém que tem embasamento teórico para entender como se dão as relações da sociedade com o espaço (dito geográfico) onde ela vive. Minhas análises devem, ou melhor, deveriam sempre me levar à espacialização de acontecimentos sociais que são enxergados de outras formas por outras disciplinas acadêmicas.

É preciso dizer, então, que há esse espaço geográfico (um híbrido, que congrega os objetos técnicos e as ações sociais) e, também, que para auxiliar o entendimento desse objeto de estudo, temos algumas categorias de análise, quais sejam: o território, a região e o lugar. Então, veja, as elucubrações que eu porventura venha a fazer, por uma questão de método, devem estar atreladas a isso – a essas tais categorias analíticas do espaço.

Foi pensando nisso e conversando com amigos geógrafos que eu resolvi mudar minha posição com relação ao Referendo.

Se opto pelo Sim, como vinha fazendo, vou de encontro a tudo o que aprendi de bom nesses anos todos de faculdade, de orientação científica, de tudo. O Sim cria ressalvas na Lei e permite certas exceções que continuarão com a possibilidade de comprar suas armas; entre essas exceções, as empresas de segurança privadas. Não vou aqui produzir um falatório de Esquerda sobre isso, contanto como tudo isso é enganador; mas vou, pelo contrário, me fixar num único ponto – geográfico, por suposto.

As brechas criadas na Lei, que acabam permitindo a compra de armas pelas empresas de segurança privadas (que em muitos casos tornam-se milícias particulares de proprietários de terras, grande empresários, políticos, etc.), são uma alteração dessa Lei (que, em tese, deveria servir a todos) em benefício de interesses que são individuais e que, em muitos casos, transformam-se em catalisadores para ainda mais segregação dentro de uma sociedade que já é abismalmente dividida. A isso, em Geografia, dá-se o nome de “regulação corporativa do território”, ou seja, são leis, normas, ordens produzidas pelo Estado que dão conta de facilitar a vida de alguns (quase sempre de empresas) e dificultar a vida de outros – na maior parte do tempo: eu e você. (É um fato que no Brasil, as leis existem para proteger a propriedade e não o povo.)

A opção pelo Não, esteve fora de cogitação o tempo todo por um motivo que já expus no outro post, que diz respeito ao lobby da indústria armamentista, que está por trás do gigantesco engodo que é essa história do “direito à posse de uma arma”. Isso é uma baboseira que as pessoas repetem sem saber e produzem um coro que é vazio – quase fantasmagórico – mas que tem um apelo muito forte: uma vez que a palavra liberdade – e, além disso, o temor de sua subtração – incita os mais profundos ânimos das gentes.

Se o Estado (dizem) não pode nos conferir a segurança que tanto se almeja, que ele, o Estado, seja cobrado. Armar a população e acreditar que isso vá resolver algum problema – que antes de ser de direitos, de deveres, destro ou canhoto, é social e nada mais – é uma ilusão. Uma ilusão criada, com um fim, uma certa intenção. E ponto final.

É por essas razões que eu, no dia 23, vou votar 3. Pretendo anular meu voto, uma vez que não acho meios de concordar nem com uma nem com outra opção que se me oferecem. E acredito que fazendo isso – ainda que eu seja uma formiga num imenso planeta – vou estar, de certa forma, registrando meu protesto.

Sou frontalmente contra uma população armada até os dentes e adoraria morar num país liberto das armas e de sua nefasta utilidade, por isso reafirmo: se não fosse minha possibilidade de análise desse mundo através de um viés pouco pensado (o espacial), eu provavelmente votaria no Sim. Porque, afinal de contas, preferiria aquele “primeiro passo” (que é uma iniciativa válida, apesar do que foi dito aí em cima), do que apenas o denuncismo vazio e inconseqüente do Não.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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