Jutando pedaços.

A profusão de blogueiros (e afins) que nesses tempos de instaurada turbulência política levantam cartazes rabiscados a mão, com os dizeres: “Eu já sabia!”, transformam todo esse lamaçal em algo ainda mais pútredo e fétido. Alguns já tinham aprontado suas faixas há tempos (e com esses tudo bem: sempre rondaram em busca de carniça), mas outros, ah!, esses moleques, abriram seus potinhos de gouache ainda agora! Ouviram os risinhos daqueles e deixaram-se levar pela moda.

Alguém deveria tomar providências, disso estou certo.

(:::)

A desfaçatez é tanta que foram contratados faxineiros noturnos para dar um jeito na zona que virou Brasília. Pelas ruas e avenidas – com seus nomes secos (“W3 Norte” – quer coisa mais árida que isso?) – o que vê são poças borbulhantes de algum líquido viscoso que é, sem dúvida, resultado de combinações químicas que misturam a dita desfaçatez com certas cores. Sim, cores: azul, vermelho, amarelo; que flutuam pela capital federal e se misturam, tornam-se indistinguíveis.

(:::)

Esquerda e Direita há muito deixaram de ser duas formas distintas de se fazer política no Bananão*. Restam ainda alguns focos: pessoas cegas de cá e de lá, que não conseguem (ou não querem ainda) enxergar o câncer que devora cada qual. Na mais das vezes, esses focos não se encontram no lugar próprio da prática política; estão nas universidades, nos sindicatos, em blógues, nas ruas, em sua casa – não são os políticos, estes advogam em causa própria. Não todos; salvo raras exceções, o que temos é um país onde o governo não governa para nós, para o povo.

Povo“. Essa palavrinha dói nos ouvidos de muita gente. Dói nos meus, de um jeito diferente, acadêmico, hermético; pode ser que doa no ouvido do senhor Roberto Jefferson ou, quem sabe, no do senhor ACM Neto (que tem aparecido como o mais novo bastião da ética na política brasileira em sua liderança no Parlamento; logo quem!) na forma de uma fisgada distante, longe, quase inexistente; talvez machuque ouvidos “aristocráticos” de um jeito que não imagino como seja – algo que provoca reações de nojo ou algo assim; vergonha talvez não seja o termo mais correto, mas alguma coisa parecida com isso deve passar pela cabeça de alguém como José Dirceu, como José Genoíno, alguém como Lula, que têm histórias tão parecidas com as desse povo que os elegeu e que agora assiste a tudo meio que sem saber onde pôr as mãos, sem saber onde enfia os votos (de confiança)… Sem saber (o que é pior) em quê ou em quem acreditar.

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Nesses dias, já quis crer em tantas coisas; você nem imagina. Agora, só o que eu quero é um mínimo de compromisso com a verdade. (Letra minúscula, veja bem.) Não preciso de culpados; afinal, seria um constante “procurar/achar” que poderia acabar vindo bater na porta de qualquer um de nós… Eu preciso de ação, de alguma mudança. Algo que daqui há uns vinte anos eu possa apontar pros meus filhos e dizer: “Vê? Ali foi o começo do fim”.

* A expressão é dele (até onde eu sei) e a música que embalou a redação (Ludwig van Beethoven – Quarteto opus 132) foi sugestão retirada do último post de seu blógue.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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