Das ironias (pobres).

Quando chegou em casa, quis ligar. Pensou num texto convincente pra dizer, algo inteligente mas não presunçoso, algo que a fizesse rir, mas não dele necessariamente e sim, com ele… Acabou desistindo. E pensou em não mais pensar naquilo – o que obviamente já se tornara impossível: ele estava pensando naquilo. Teria sido mais fácil ter pego o telefone e discado. Se depois do quinto ou sexto toque nada acontecesse, ainda poderia bater o fone xingando a constante falta de sorte – sua companheira fiel. Mas não ligou. E agora, além da sensação de fraqueza, experimentava o peso das infinitas possibilidades do telefonema não dado.

Porque, é claro, pensando nas possibilidades (já que não queria pensar), percebeu que seria muito provável que a moça gostasse de ouví-lo. Talvez até estivesse esperando por esse telefonema há dias! E ele nunca ligava. A imagem era muito clara em seu devaneio: a moça, loira, alta, vestindo “roupa pra se ficar em casa”, sentada no sofá, vendo televisão, mas com os olhos perdidos na direção do aparelho que insistia em não tocar. Era lindo – trágicamente lindo. E possível.

(O pior de tudo é que era mesmo possível.)

Mas ela também poderia não querer saber dele. Poderia estar cansada de manter o ar sempre bem-educado com o qual se dirigia a ele, sempre rindo de suas piadinhas mequetrefes, suportando as conversas repletas de lugares-comuns e infidáveis, céus!, o falatório não parava nunca! Mas ela resistia. Resistia porque sabia que aquele cara era mais um dos inúmeros apaixonados da última hora. Sabia reconhecer um quando via – e não-raro, topava com dois ou três por dia. Do mesmo modo, sabia também que uma hora eles sempre desistem; se cansam, vão atrás de outro par de olhos, outra “beleza” qualquer.

(Essa seria a opção mais plausível naquela hora. O cara estava com medo de ligar pra moça e acabar pagando de inconveniente. Dá pra entender esse “medinho”, essa “paurinha”…)

No fim, quase uma hora de comiseração depois, ele decide ir tomar banho. Esfriar a cabeça. Está frio, e a água quente vai ajudar. No caminho, ri da incongruência que acaba de pensar. Apanha a toalha no varal e vai pelo corredor até a primeira à esquerda, entra e esquece do mundo. Liga o chuveiro junto com o rádio – põe numa dessas estações que mais fazem suas propagandas do que tocam música só porque não quer pensar em nada. Vai que de repente ouve a música dela… E assobiando a tal melodia entra no box.

Ao mesmo tempo que na sala, seu cachorro levanta as sobrancelhas (de um jeito que só ele sabe fazer) ao ouvir o irritante sétimo toque do telefone.

(Era ela. Na segunda-feira, quando se virem de novo, ninguém vai comentar nada sobre isso. Vâo apenas, “sem querer”, encontrar os olhos e desviá-los quase simultaneamente como sempre fazem.)

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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