Duro? Não, mole.

Há dias eu venho torcendo pra que aconteça de surgir de repente uma pessoa com olhos mágicos – que poderiam muito bem ser dourados, ou castanhos, mas isso não importa tanto assim – sim, olhos mágicos, que enxergariam além dos meus olhos, veriam tudo o que está por trás dessas vidraças tristes, e entenderiam. Sendo que o fato de entender seria, sem dúvida, o que de melhor poderia acontecer. Porque, ultimamente, a mera tentativa de me explicar tem sido uma tarefa quase impossível e absurdamente desumana. Eu meio que perdi o chão nos últimos tempos (e ainda que “meio que” seja uma expressão quase chula, tente ir além dela e entender – seria um imenso favor, se é que me entende). Muita coisa deu errado, algumas coisas deram certo: num desequilíbrio que é, me parece, condição sine qua non da tal “condição humana”; e isso não faz de mim alguém diferente dos demais. Mas aconteceu uma coisa em especial que funcionou como um marco divisor – como uma grande montanha que aparece do nada, no meio do caminho; uma enorme pedra – e a partir dessa coisa, as coisas mudaram. Mas principalmente eu mudei. Era pra ser só um cartaz e o cumprimento de uma promessa, mas me libertou, e agora, mesmo que eu não quisesse (mas quero), sou obrigado a mudar de rumo. De qualquer forma, no entanto, fica um grande vazio, uma certeza ainda mais pungente da solidão em que me encontro. Parece conversa de adolescente, não é? Sei que parece. Mas eu nunca estive tão certo disso que estou dizendo. Quando falei sobre isso antes – e não foram poucas vezes – é muito provável que fosse só manha ou necessidade de atenção (que são coisas muito semelhantes). Agora, porém, falo com total segurança, conhecimento de causa e muito pouca tristeza – apenas, talvez, um cansaço imenso e cruel. (Talvez você não possa imaginar como é não ter com quem falar por dias a fio sobre aquilo que realmente te interessa conversar e, por isso mesmo, critique inadvertidamente as pessoas que sabem o que é, como é e que sentem uma necessidade tremenda de falar sobre – não se sinta melhor do que eu ou do que todas essas outras pessoas que se sentem como eu; seria uma idiotice.) Não é que eu goste dessa solidão, claro que não, ela sufoca, aprisiona, devora, enlouquece mas também ajuda a amadurecer e entender que, afinal, *suspiro*, a gente só pode contar com a gente mesmo. Essa é uma lição quase tão dura quanto aquela que querem me fazer engolir sobre os sonhos que nunca se realizam, que isso é coisa de comercial de margarina; não quero saber disso, não acredito. Mas, no fim das contas, é sempre você por você – e isso é real. Talvez eu devesse, por causa disso, tornar-me mais duro com a vida, com as pessoas que fazem essa vida, comigo, mas não acho que eu vá conseguir. Não sei ser “duro”; só sei ser “mole”. Tanta gente me acha um idiota, tanta gente me considera um parvo, um apático… “’to me guardando pra quando o carnaval chegar”. Quem sabe então eu me levante e saia distribuindo patadas, socos e pontapés. Quem sabe? Por enquanto, vou levando baldes e baldes com água fria na cabeça; esfriando e tiritando os dentes, mas, enfim, levantando e tentando de novo. Ainda é cedo pra parar – e essa é uma das minhas poucas certezas.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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