Sobre uma Infinita Saudade

Uma bolinha de gude no horizonte, amarela e vermelha até um certo ponto, depois alaranjada – uma nuvem passando na sua frente -, mais alguns minutos e ficou cor-de-rosa, um fúcsia muito intenso. Me lembro de ter brincado muito quando descobri essa cor, fúcsia. Tudo era fúcsia, rosa soava muito simples e incompleto – fúcsia não, enchia a boca pra dizer. Corri bastante pra chegar no lugar exato de onde se pode enxergar o pôr-do-sol daquela maneira clássica, com o círculo de fogo desaparecendo por detrás da montanha, avermelhando todo o vale, fazendo os conteúdos das formas sumirem, ficando somente suas silhuetas em preto. É uma hora bonita, tem um tom bonito – tom de alegria triste.

Eu corria com o carro e enquanto dirigia ia justificando aquela decisão para mim mesmo, falando sozinho e dizendo que, afinal de contas, provavelmente esse seria o último Sol de doismilequatro que eu veria porque quis, respondendo a um impulso e uma vontade que me soam legítimas: a necessidade de fazer desse momento um momento especial; no fundo ninguém se importou com a minha ausência, mas eu me justificava mesmo assim. E foi lindo. Não foi o mais lindo desses eventos que eu já presenciei morando aqui, mas foi o primeiro que eu escolhi ver sabendo que não é o Sol que se move – é a Terra – e isso mudou muita coisa.

Eu cheguei na curva – numa estrada de terra que leva a algumas chácaras e uma bela represa – ouvindo Chico Buarque, “Mulheres de Atenas”, mas preferi desligar o rádio pra poder ouvir o vento. Eu cheguei na curva com muita pressa e com medo de que o Sol fosse embora antes de eu poder dar-lhe meu adeus (um aceno que ganhou muito simbolismo, devo dizer), mas preferi parar o carro e andar até o alto de um pequeno barranco, com calma. Eu cheguei triste na curva, e voltei triste de lá, mas lá, naqueles minutos, assistindo aquele maravilhoso e poderoso espetáculo, me senti confortado com a minha pequenez, quase feliz. Quando cheguei levava todos os meus problemas juntos comigo; voltei mais leve.

Olhei para um eucalipto que cresceu imponente próximo a uma cerca e invejei-lhe o privilégio de poder estar ali sempre, todos os dias, naquele cenário luxuriante. Escrevi meu nome (T-H-I-A-G-O) e os números 2-0-0-4 num poste que está ao lado da estrada. Não quis pensar que ano que vem eu posso voltar lá pra escrever 2-0-0-5, por estar condicionado por um truque de uso: sempre que penso em algo, esse algo não acontece. Mas imagino que eu volte…

Eu gosto dessa liberdade que me concedo certas vezes pra fazer aquilo que é fruto de uma vontade inexplicável. Na verdade, explicável, mas dá tanto trabalho a mera tentativa e as pessoas (mesmo as mais próximas) não têm ouvidos para as justificativas que eu vim entoando como um mantra pelo caminho. Essa sensação de estar isolado no meio de tanta gente é sufocante, porque não se tem com quem conversar (a não ser grandes e gratificantes exceções; mas o que fazer quando elas se ausentam?). Eu torço pelo dia em que essa pessoa vai aparecer e eu poderei então, conversar sobre essas minhas bobagens e maluquices – que me são tão caras. Já tentei com algumas, e a frustração que senti me faz ter medo hoje em dia de expor essas coisas. O que se torna um problema, um ciclo cruel: com medo, eu não falo; se não falo, como vou encontrá-la? Não sei responder.

Talvez eu esteja errado, mas me parece uma preocupação tardia essa a minha…

Enfim.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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