Calor e ódio caminham juntos.

E caminhava junto com eles um homem já desfeito de maiores vaidades e verdades. Usava uma roupa que saira de moda há muito tempo, se é que um dia estivera. Carregava na mão a navalha com que cortara o pescoço de seu primo, minutos antes. Encontrou-o num bar, e não teve dúvida: rasgou-lhe a garganta enquanto o conhaque ainda descia ardendo por ela – dizem que o cheiro de sangue com álcool foi insuportável. E dizem também que esse homem da navalha permaneceu estático ao lado do corpo ensangüentado durante muitos minutos, esperando que a polícia chegase e o levasse dali (isso fica por conta das muitas vezes em que essa história foi contada). Como aquele era um bairro muito distante do centro, nunca houve registro do assassinato e o homem seguiu seu caminho. Quando parou poucos metros depois, numa bica d’água que saía de uma casa vizinha pra lavar as mãos e o rosto (que não suportava ver sujo – a última vaidade), viu sua filha correndo desvairada no fim da rua. Apenas deu de ombros – ela nunca gostou dele mesmo; que ficasse com a mãe.

Enquanto caminhava xingava o sol, o calor, o peso do corpo… se uma flor lhe cruzasse o caminho, certamente a arrancaria – não que não soubesse apreciar flores, não é isso; era tão-somente a dificuldade que tinha de aceitar essas coisas belas que existem pelo mundo. Odiava-se por compará-las àquilo que encontrava todo dia, e sofria por odiar-se.

Era um pobre coitado.

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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