11/12/04

Às vezes o peso das vidas que me cercam acaba me oprimindo. Hoje foi um dia desses – mas ainda bem que foi só no fim.

Desde sempre eu olhei pra pessoa ao lado imaginando que ela vivia uma vida diferente da minha, com outros amigos, outros problemas, outra mãe, outro pai, dores e amores que não os meus – e nem sempre foi fácil assimilar isso (ainda mais quando me encontrava num lugar com muita gente em volta – o metrô, por exemplo). Eu ficava olhando, olhando, e tentando entender que cada uma daquelas cabeças, donas de cabelos mais ou menos bonitos (sempre reparei muito em cabelos – hoje em dia gosto bastante dos tons avermelhados e daqueles quase azuis de tão pretos), cada uma delas, era dona de sua própria vida e que eu poderia nunca mais tornar a vê-la. E essa parte sempre foi a mais fascinante. Tanta gente, num lugar tão pequeno, se entreolhando, se encarando, se admirando quando era o caso, e nunca mais iam se ver.

Eu sempre fui uma pessoa triste, nota-se.

Nada disso era simplesmente óbvio pra mim. Acho que é desse tempo minha ojeriza com relação a essa expressão. Dizer que algo é “simplesmente” óbvio, é atentar contra uma visão das coisas que sempre fez sentido pra mim, e isso não me parece absolutamente justo – ainda que você possa achar que está tudo muito errado de acordo com seu ponto de vista.

Hoje aconteceu de novo: a vida em volta pesou como pesava antes, como a muito tempo não pesava. E eu arqueei mais um pouco sob toda essa pressão. Fiquei quieto porque é assim que reajo a momentos diferentes ou difíceis, levo um tempo pra assimilar as coisas. E foi um motivo tão besta… não vale a pena contar.

A segunda vez de hoje aconteceu agora há pouco. Voltando pra casa, na estrada, comecei a prestar atenção no carro de trás. Tinha um homem sozinho, batucando no volante, com um cigarro aceso e os vidros fechados. “Só um homem voltando pra casa depois de um dia de trabalho”, sim, muito provavelmente, mas não é só isso. E é esse “além” que sempre me prendeu. Ele tem uma vida que tão absurdamente repleta de acontecimentos como a minha, um nome, filhos, esposa, amantes, problemas com dinheiro… e o mundo está inteiro para ele também – assim como eu acreditava que pra mim também – e as coisas continuam acontecendo; da mesma forma, continuariam se ele, por acaso, batesse o carro e morresse, o mundo não ia parar. Ou melhor, o mundo dele ia; o meu, o seu, o a maioria, não. Cada um de nós é um pequeno mundo particular e fantástico – é esse o ponto, eis o que me fascina.

Eu adoraria, você não faz idéia do quanto, então, desvendar os segredos do mundo que é a moça-do-pé-machucado. Ela nunca falou comigo, apenas “ois”, e provavelmente nem sabe que eu existo. Mas seria tão bom…

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Sobre thiago gonçalves

se tanto.
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