Free Tibet

Teríamos um mundo melhor se o Tibet fosse livre. A afirmação contém grandes doses de paixão, certamente. Não é pra menos, já que aqui escreve uma pessoa que nutre profundo respeito por aquele país – e por seu povo.

O nosso olhar ocidental em relação à sucessão dos fatos históricos nos impede de compreender o mundo de uma maneira minimamente semelhante a como os orientais o fazem. Temos correndo nas veias o imediatismo das soluções intempestivas e rápidas – nem sempre limpas –; cuja explicação certamente passa por nossa “juventude”. Enquanto deste lado do planeta nos acostumamos à preocupação e à precaução extremas, antecipando os passos alheios e, literalmente, exterminando qualquer possibilidade de ação do, assim dito, inimigo, os povos do Oriente aprenderam a respeitar o tempo e suas caprichosas reviravoltas.

Enxergamos o tempo histórico como uma linha – e isso nos dá subsídios para acreditar piamente que o que existe neste momento será meramente superado por algo que ainda está por vir. Ou seja, que, indelevelmente, haverá o progresso e que esse progresso é sinônimo de mudança, evolução, revolução… Nada mais falso. A historiografia ocidental está cheia de exemplos e de corroborações absolutamente em contrário.

A língua tibetana separou-se do chinês quatro mil anos antes de começar a chamada Era Comum. Por cinco séculos, do sétimo ao décimo primeiro, o Tibet foi um império consolidado, que ia do golfo de Bengala, na Índia, até muito perto da Mongólia. Durante um curto período, em 763 EC, quando a China enfrentava séria convulsão social, tibetanos estiveram no trono de Chang’an (atual Xi’an). O budismo tibetano é praticado desde o quinto século, inclusive em lugares para além do Tibet, como a Mongólia, partes da China, da Rússia e da Índia. A organização social do país é totalmente baseada em tais ensinamentos religiosos; a “dinastia” dos dalai lamas (literalmente, “oceanos de sabedoria”) está aí desde o século 14 – ao mesmo tempo guias espirituais (umas vez que reencarnações do Avalokiteśvara, a encarnação da bodhisattva da “suprema compaixão de todos os budas”) e chefes de governo de toda a região histórica do Tibet.

Trata-se, portanto, de uma riquíssima e antiqüíssima história. Essa dimensão histórica imensa confere aos tibetanos (e aos orientais de uma forma geral) uma visão ampla, sem antolhos, de tudo o que acontece. Inclusive, é conhecido o episódio em que um imperador chinês, em resposta a um ministro desesperado com a iminente invasão mongol, lhe sugere paciência pois os agressores acabarão indo embora – como tantos outros antes deles, como tantos outros depois deles. Uma invejável capacidade de compreensão que milênios de história conferem a certas civilizações. Realidade completamente distinta da que nós outros, ocidentais, experimentamos.

PotalaA idéia da compaixão para com todos os seres vivos, tão cara ao Budismo em todas as suas variações, é o baluarte da conduta daquele povo. Há séculos cultivando a não-violência, os tibetanos encontraram meios de sobreviver em sintonia com o ambiente inóspito do platô himalaico (uma região com altitudes sempre superiores a 3,000 metros, que permanece congelada durante metade do ano, com níveis de precipitação variando entre 100 e 300mm e temperaturas que atingem -40°C no inverno), especialmente mantendo hábitos herdados do nomadismo; refinando suas tradições culturais – como a própria religião –; construindo maravilhas, como o Palácio Potala (antiga residência do Dalai Lama, na antiga capital, Lhasa) ou as mandalas feitas com areias coloridas (trabalhos incríveis, demorados, cuidadosos – que são sistematicamente destruídas, assim que terminadas).

A atual Região Autônoma do Tibet (TAR, a sigla inglesa), expressão territorial do domínio chinês sobre o país, não corresponde totalmente às regiões tradicionalmente entendidas como Tibet (e consideradas uma nação independente e soberana pelo Governo Tibetano no Exílio). Duas delas, Ü-Tsang e Kham estão incluídas, uma terceira, Amdo, no nordeste, foi repartida por outras províncias chinesas. É o resultado final das políticas presentes no infame “Plano dos 17 pontos para a libertação pacífica do Tibet“, de 1951. Este plano propunha a soberania conjunta de tibetanos e chineses sobre o território tradicional – o que, na prática, não aconteceu. Em 1959, em função da desobediência dos termos por parte dos tibetanos (que se revoltavam nas regiões de Kham e Amdo), os chineses invadem Lhasa. Nesse contexto, o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, foge em exílio para a Índia, e passa a representar o Tibet livre a partir de Dharamsala, onde comanda o Governo do Tibet no Exílio. A invasão, apesar de encontrar pouca ou nenhuma resistência armada dos tibetanos (cujo exército contava algo em torno de cinco mil homens, concentrados em Kham), gerou uma onda de terror e morte por todo o país. Episódios terríveis de filhos obrigados a matar os próprios pais, monges e monjas obrigados a terem relações sexuais nas ruas, assassinatos, torturas, enfim, são amplamente conhecidos e documentados.

Em agosto os Jogos Olímpicos chegam à China. Pequim está se aprontando para mostrar ao mundo o que de melhor o sucesso econômico chinês pode oferecer – aos atletas, inclusive. Todos os olhares estarão voltados a uma nação que, à semelhança do Tibet, tem uma história vastíssima – bordejando o próprio surgimento da humanidade. Qual melhor momento do que este os tibetanos teriam para gritar por socorro e serem vistos? Nenhum. Eles sabem disso. O governo chinês também. E não tem deixado passar incólumes os protestos que têm ocorrido em Lhasa nos últimos dias. Reportagem na BBC nos diz que já são 10 os mortos nos protestos que tiveram seu ápice nesta sexta-feira. Protestos rechaçados com “força excessiva” pelo governo chinês (indiano, nepalês). Nas contas do Governo tibetano, o número chega próximo a 100.

Se houvesse um Tibet livre, este seria um mundo melhor. No entanto, o mundo espera pacientemente a boa-vontade da China para que trate os protestos por liberdade de um povo oprimido “sem fazer qualquer uso excessivo da força na manutenção da ordem”, nas palavras do alto-comissariado da ONU para os Direitos Humanos. E são apenas palavras.

Num ultimato, alguns atletas se recusam a participar dos Jogos – atitude louvável, uma vez que estar na Olimpíada é o sonho máximo de qualquer pessoa que dedica a vida ao esporte. O boicote aos jogos é sugerido por um grupo formado por estudantes americanos, sediados em Nova York (aqui o blog), associado ao Movimento Internacional Tibet Independente (ITIM) e ao Free Tibet.

O tom moderado das críticas da comunidade internacional parecem deixar claro que aos tibetanos resta apenas esperar pelo “menos pior”. As autoridades chinesas novamente utilizam força militar contra a população – uma vez que suas tentativas de apaziguar os ânimos tibetanos não surtiram muitos efeitos. Uma moderna ferrovia foi construída em 2006, ligando Lhasa às províncias chinesas do leste; a capital ainda recebeu inúmeras modificações, especialmente nos arredores dos dois patrimônios mundiais escolhidos pela UNESCO: os palácios Potala e Norbulingka, antiga residência de verão do Dalai Lama. Nada disso, no entanto, resolveu o problema da dominação chinesa; muito pelo contrário, uma vez que apenas a aprofunda, criando condições melhores para a permanência em território tibetano de pessoas da etnia han, o maior grupo étnico da China.

Aparentemente, estamos novamente perdendo a chance de pressionar o governo chinês a reconhecer a independência do Tibet. Um misto de inércia e má-vontade políticas – já que nenhum país é realmente auto-suficiente para enfrentar a poderosa China numa questão que, ademais, se refere a uns quantos monges, no alto de umas montanhas…

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Sites de interesse

Gostaria de dizer, também, que coloquei a maior parte dos links deste post na direção da Wikipédia porque, apesar de alguns comentários em contrário (brincadeira, Idelber!), a ferramenta é um poço infinito de informações. Os verbetes selecionados contêm pequenos erros, mas o essencial (e um pouco mais) está lá; pequenos descompassos entre fontes de informação sempre houve, em qualquer meio. Acredito na Wikipédia, e mais, acredito na auto-regulação da Rede. Amém?

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Um adendo. Às 2h19 do domingo.

Pedro Dória ainda agora escreveu um post sobre a situação no Tibet. Lúcido e objetivo, como sempre, mostra a sinuca de bico em que Pequim se meteu: precisa intervir, posto que há uma dezena de outras minorias que se aproveitariam de um tropeço estratégico; porém, não pode repetir, hoje, o massacre da Praça da Paz Celestial, de 1989.

Eu, de minha parte, torço pra que os chineses errem, que fraquejem, que temam a repercussão de uma ação extrema e violenta contra Lhasa. Quero que o Tibet se liberte, como quero que Xinjiang se liberte.

Também de minha parte, temo os comentários ao post do Pedro Dória. O blog é indispensável, os comentaristas, um bando de gralhas. Um deles, que assina Dino, já me saiu com esta:

Será que vão aparecer os ateus e se posicionarão contra uma teocracia, ou no Irã não e no Tibet pode? Que eles se misturem com a etnia Han e virem tudo chineses e gozem da prosperidade… Vão viver de que mesmos sem os chineses? Vender fotos do Dalai Lama?

É tanta falta de saber o que diz, que eu mal saberia por onde começar. E é isso que me preocupa. Outros já abandonaram os comentários do Pedro Dória… começo a entender o porquê.

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Sobre thiago gonçalves

39° à sua esquerda.
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4 respostas para Free Tibet

  1. gabriel disse:

    seriamos mais, seriamos bem mais com o Tibet livre, mas o Tibet é apenas uma das pontas do gtrande iceberg, muitos outros paises, pessoas, sociedades, tribos e aldeias, precisam da mesma liberdade que ainda não existe no Tibet…e que por isso ainda não existe em nenhuma sociedade…quem sabe um dia…quem sabe…

  2. Pingback: Miriam Salles » Blog Archive » O Tibete e os Jogos Olímpicos

  3. Eol disse:

    Valeu bom trabalho !
    tá no meu bookmarks !!

  4. Pingback: Pequenas anotações de viagens virtuais 29 - Uma Malla Pelo Mundo

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