acaba mas até continua

desimportâncias…

Archive for Fevereiro 19th, 2008

Sobre blogueiros profissionais ou Anotações sobre uma foto

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A contradição é inerente ao ser humano, está presente nas escolhas que fazemos durante a vida — e pode, também, ser uma escolha consciente. Comportamento desta cepa de certo blogueiro da revista Veja nos é revelado constantemente por seus algozes — e não deixa dúvida sobre quão desonesto podemos ser quando a intenção é o emburrecimento alheio (o que, dito assim, parece apenas opinião desqualificada por fanatismo ideológico, mas, claro, não se trata disso — basta alguma decência na análise).

Não quero falar da Veja (há quem faça com muita e maior distinção) nem de seu blogueiro especificamente, mas de todos os blogueiros; talvez até de Blogueiros, assim, com uma maiúscula e generalizante inicial.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que este post foi escrito previamente à mão, num caderno pautado, antes de ser publicado. É — me parece ser — antiquado e extemporâneo falar em caneta e letra cursiva quando o assunto são blogues (sim, esse também é o assunto), mas me vejo na obrigação de registrar publicamente que escrevi este post à caneta; apesar do embate óbvio entre o moderno e o antigo, peço licença pra continuar fazendo como faço há pouco mais de sete anos com raras exceções.

Depois, gostaria de frisar que este blogueiro de tão poucas e mal-traçadas linhas é devoto de São Inagaki e, em função disso, se vê no direito (quase divino) de repetir aqui certa frase do santo japaraguaio. O salmo de hoje: “Blog é liberdade“. A rede colaborativa, pulverizada, descentralizada, fluida, não-hierárquica da qual os blogueiros somos uma das muitas faces nos dá a chance incrível de escolhermos livremente aquilo sobre o que falamos, aquilo que lemos, aqueles que lemos, aqueles que preferimos ignorar, aqueles com quem nos damos ou não, enfim — a rede, os blogues, a internet (até certo ponto) são realidades anárquicas e eu creio, como crê mestre Ina, na capacidade de auto-regulação dessas “entidades”, uma vez que são vivificadas por nós todos que buscamos bom-senso e criatividade em nossas empreitadas. Imbuído dessa idéia, nada de cagar regras de comportamento por aqui — como costumeiramente não faço.

Feitas essas considerações cabe dizer que não fui ao Campus Party Brasil. No entanto, falarei da festa como se lá tivesse estado. As informações relativas obtive em fontes as mais fidedignas.

A dimensão de um evento como esse, que reuniu mais de 3mil pessoas envolvidas diretamente com o que é a internet brasileira, talvez nunca alcancemos. Ainda que eu prefira acreditar que análises pipocarão por aí, ajudando, ao poucos, na compreensão de alguns aspectos desse fato. Quando digo “dimensão” quero me referir a tudo o que direta ou indiretamente esteve, está ou estará envolvido com este evento. Aspectos que transbordam os limites (físicos) do Pavilhão da Bienal, repercutindo, sem dúvida, em ações muito pouco virtuais por parte de governos e iniciativas que-tais.

Há, entretanto, um aspecto sobre o qual gostaria de falar. Este: “A foto ‘oficial’ dos blogueiros do Campus Party“. Uma reunião de figurões da blogosfera brasileira, sorrisos e abraços, gente corada e saudável, sob o honroso título de “os blogueiros”. São quantos? Uns poucos… Ora, e eu achando (com alguma certeza) que os blogueiros (note, sem aspas) éramos milhares. E de repente, o fato: 20, somos apenas 20. Aparentemente, todos os “blogueiros do Campus Party” estão aí, quando, a bem da verdade, não estão todos aí — porque nem todo o espaço da Bienal abrigaria todas as barracas de todos os blogueiros do Campus Party.

“Blogs são liberdade”. E em seu espaço, em seu quinhão, cada um é dono de si. Mas os blogues não são estes quantos pro-bloggers. “Os blogueiros do Campus Party Brasil”, quero crer, são todos aqueles que em algum momento durante a semana de duração do evento deram uma passada pela Bienal ou falaram em seus blogues sobre o acontecimento (mesmo sem ter estado lá) ou repercutiram um assunto de uma (des)conferência que julgaram interessante, indicaram links, leituras, construiram análises, enfim, colaboraram, contribuiram, construiram a idéia de uma rede descentralizada, pulverizada, anárquica, não-hierarquizada, fluida, livre — que, obviamente, não precisa, nem depende, de rostos.

Mas o ser humano é incoerente. Um bom estudo de caso, esmiuçando essa verdade postulada, o Gravata (apesar de são-paulino) produziu brilhantemente (aqui e aqui) — no qual fala sobre o “socialismo de resultados” de MadDog e seus colegas, que foram a um evento patrocinado por uma empresa monopolista, levantando a bandeira do software livre. Esta foto “‘oficial’ dos blogueiros do Campus Party” é, como se dizia, um tiro no próprio pé. É a reprodução da sectarização dentro do espaço que nasceu em função de intenções unificadoras, agregadoras, colaborativas. Somos uma rede de blogueiros do Campus Party — e não há justiça ou coerência nessa foto. Nem um pouco, de nenhuma das duas coisas.

Ainda escrevo meus posts à caneta, não ganho dinheiro com meus blogues, não recebo visitas aos cântaros, não recebo patrocínio para posts — nem isto tudo é a verbalização de uma dor-de-cotovelo qualquer. Respeito iniciativas em contrário: porque respeito iniciativas originais e criativas de toda sorte. Apenas lamento que este primeiro Campus Party Brasil, um momento ideal para cada vez mais trazer as pessoas para dentro de um mesmo rumo, tenha terminado com uma chave torta, uma faca de dois gumes mais afiada de um lado, a boa e velha batalha de egos — tão-somente tapinhas e sorrisos para a foto.

Escrito por Thiago Gonçalves

Fevereiro 19, 2008 em 12:18 am