Archive for Fevereiro 2008
Em uma lista de e-mails que assino, formada basicamente por estudantes de Geografia, uma celeuma instalou-se depois que uma pessoa disse estar procurando interessados em adotar um cachorro abandonado. Não sei bem por quais caminhos tortuosos a conversa acabou por desaguar num embate ferrenho entre os “defensores dos animais” e os “defensores dos homens”.
O primeiro grupo reunia aqueles que suportavam a pessoa que buscava novos donos para o cachorro abandonado. Usando argumentos nesse sentido, que variavam muito pouco – o mais comum: o fato de, aparentemente, “terem (mais) coração” a ponto de se disporem a buscar uma nova casa para o pobre animal.
As pessoas do segundo grupo, de certo modo, mais incisivas na forma como escolheram construir e transmitir suas mensagens, diziam, entre outras coisas: “vamos, então, encontrar casas novas para todos os animais de rua tomando cuidado para não tropeçarmos em mendigos”.
Obviamente, são duas posições radicais. Opondo, numa dicotomia que permeia a própria Geografia, a Natureza e a Sociedade. A primeira, um suporte para a existência do Homem – que encontra em seus elementos, os (infinitos) recursos naturais de que precisa para se manter; ignorando sumariamente os processos naturais todos que concorreram para a criação dos tais recursos. Em outra oportunidade, falei disso quando tentei demonstrar a inerente incoerência do termo “meio ambiente”, que se esforça em criar e “naturalizar” essa distinção.
Depois de inúmeras mensagens, resolvi dar minha contribuição, que reproduzo aqui.
Sem querer me intrometer, mas acredito que este seja o caso pra o uso da conjunção “e” e não da conjunção “ou”.
As duas coisas são possíveis. Senhores, senhoras, as duas coisas são absolutamente possíveis se agirmos coerentemente.
Preocupação única e exclusiva com um ou outro ponto é expressão da dicotomia que, inclusive, nos divide. Não há uma separação clara entre o que é Social e o que é Natural — a não ser aquela que criamos, logicamente. Estamos incluídos no mesmo sistema (não é essa a fundamentação para a crítica ao termo “meio ambiente”, meus caros?). A Natureza está ofendida em seus processos em função de nossa interferência pouco sutil, a Humanidade se encontra (desde sempre) à mercê dos efeitos dos “humores” da Natureza — tal e qual todas as outras formas viventes (ou não) desse planeta.
Não vejo qualquer mal em encontrar novos donos para cachorros abandonados. Me incomoda profundamente ver pessoas dormindo ao relento. Me irrita saber de toda a destruição da Amazônia — a perda “natural”, sim, mas também (e em maior medida, talvez) as atrocidades sociais cometidas em função disso. Atuando na preservação da floresta, creio, estaremos unindo forças para a solução do problemas graves que as populações locais enfrentam, no embate direto com os interesses do agronegócio. E isso é um exemplo, claro, que busca mostrar a associação direta entre as coisas — que, no mais das vezes esquecemos, em função de sectarismos que não ajudam, apenas e tão-somente dividem. E que pode ser dito noutro sentido: ao atuar na defesa das populações locais, necessariamente estaremos atuando na preservação da floresta.
O professor Ricardo Castillo, numa de suas aulas, nos disse algo que pretendo levar como norte da minha carreira acadêmica: ciência, quando vira dogma, deixa de ser ciência. Então, talvez, seja o caso de tomarmos cuidado com certos extremismos absolutamente evitáveis.
Em situações como essa, muito comuns dentro da academia, reforço meu pavor de radicais – sejam de qualquer cepa. A ciência transformada em dogma, como ressaltou meu professor, não serve à investigação científica honesta. Se não estamos dispostos a cogitar mudanças mesmo em nossas convicções mais profundas, talvez seja o caso então de trocarmos de ramo de atividades.
A busca do cientista é pela verdade livre de paixões; que vai existir até o momento em que for posta de lado em benefício da dúvida, que criará uma nova verdade, num ciclo lento e livre.
A Ciência como religião não me serve. Mas faz muitas cabeças por aí.
Em uma lista de e-mails que assino, formada basicamente por estudantes de Geografia, uma celeuma instalou-se depois que uma pessoa disse estar procurando interessados em adotar um cachorro abandonado. Não sei bem por quais caminhos tortuosos a conversa acabou por desaguar num embate ferrenho entre os “defensores dos animais” e os “defensores dos homens”.
O primeiro grupo reunia aqueles que suportavam a pessoa que buscava novos donos para o cachorro abandonado. Usando argumentos nesse sentido, que variavam muito pouco – o mais comum: o fato de, aparentemente, “terem (mais) coração” a ponto de se disporem a buscar uma nova casa para o pobre animal.
As pessoas do segundo grupo, de certo modo, mais incisivas na forma como escolheram construir e transmitir suas mensagens, diziam, entre outras coisas: “vamos, então, encontrar casas novas para todos os animais de rua tomando cuidado para não tropeçarmos em mendigos”.
Obviamente, são duas posições radicais. Opondo, numa dicotomia que permeia a própria Geografia, a Natureza e a Sociedade. A primeira, um suporte para a existência do Homem – que encontra em seus elementos, os (infinitos) recursos naturais de que precisa para se manter; ignorando sumariamente os processos naturais todos que concorreram para a criação dos tais recursos. Em outra oportunidade, falei disso quando tentei demonstrar a inerente incoerência do termo “meio ambiente”, que se esforça em criar e “naturalizar” essa distinção.
Depois de inúmeras mensagens, resolvi dar minha contribuição, que reproduzo aqui.
Sem querer me intrometer, mas acredito que este seja o caso pra o uso da conjunção “e” e não da conjunção “ou”.
As duas coisas são possíveis. Senhores, senhoras, as duas coisas são absolutamente possíveis se agirmos coerentemente.
Preocupação única e exclusiva com um ou outro ponto é expressão da dicotomia que, inclusive, nos divide. Não há uma separação clara entre o que é Social e o que é Natural — a não ser aquela que criamos, logicamente. Estamos incluídos no mesmo sistema (não é essa a fundamentação para a crítica ao termo “meio ambiente”, meus caros?). A Natureza está ofendida em seus processos em função de nossa interferência pouco sutil, a Humanidade se encontra (desde sempre) à mercê dos efeitos dos “humores” da Natureza — tal e qual todas as outras formas viventes (ou não) desse planeta.
Não vejo qualquer mal em encontrar novos donos para cachorros abandonados. Me incomoda profundamente ver pessoas dormindo ao relento. Me irrita saber de toda a destruição da Amazônia — a perda “natural”, sim, mas também (e em maior medida, talvez) as atrocidades sociais cometidas em função disso. Atuando na preservação da floresta, creio, estaremos unindo forças para a solução do problemas graves que as populações locais enfrentam, no embate direto com os interesses do agronegócio. E isso é um exemplo, claro, que busca mostrar a associação direta entre as coisas — que, no mais das vezes esquecemos, em função de sectarismos que não ajudam, apenas e tão-somente dividem. E que pode ser dito noutro sentido: ao atuar na defesa das populações locais, necessariamente estaremos atuando na preservação da floresta.
O professor Ricardo Castillo, numa de suas aulas, nos disse algo que pretendo levar como norte da minha carreira acadêmica: ciência, quando vira dogma, deixa de ser ciência. Então, talvez, seja o caso de tomarmos cuidado com certos extremismos absolutamente evitáveis.
Em situações como essa, muito comuns dentro da academia, reforço meu pavor de radicais – sejam de qualquer cepa. A ciência transformada em dogma, como ressaltou meu professor, não serve à investigação científica honesta. Se não estamos dispostos a cogitar mudanças mesmo em nossas convicções mais profundas, talvez seja o caso então de trocarmos de ramo de atividades.
A busca do cientista é pela verdade livre de paixões; que vai existir até o momento em que for posta de lado em benefício da dúvida, que criará uma nova verdade, num ciclo lento e livre.
A Ciência como religião não me serve. Mas faz muitas cabeças por aí.
Sobre blogueiros profissionais ou Anotações sobre uma foto
A contradição é inerente ao ser humano, está presente nas escolhas que fazemos durante a vida — e pode, também, ser uma escolha consciente. Comportamento desta cepa de certo blogueiro da revista Veja nos é revelado constantemente por seus algozes — e não deixa dúvida sobre quão desonesto podemos ser quando a intenção é o emburrecimento alheio (o que, dito assim, parece apenas opinião desqualificada por fanatismo ideológico, mas, claro, não se trata disso — basta alguma decência na análise).
Não quero falar da Veja (há quem faça com muita e maior distinção) nem de seu blogueiro especificamente, mas de todos os blogueiros; talvez até de Blogueiros, assim, com uma maiúscula e generalizante inicial.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que este post foi escrito previamente à mão, num caderno pautado, antes de ser publicado. É — me parece ser — antiquado e extemporâneo falar em caneta e letra cursiva quando o assunto são blogues (sim, esse também é o assunto), mas me vejo na obrigação de registrar publicamente que escrevi este post à caneta; apesar do embate óbvio entre o moderno e o antigo, peço licença pra continuar fazendo como faço há pouco mais de sete anos com raras exceções.
Depois, gostaria de frisar que este blogueiro de tão poucas e mal-traçadas linhas é devoto de São Inagaki e, em função disso, se vê no direito (quase divino) de repetir aqui certa frase do santo japaraguaio. O salmo de hoje: “Blog é liberdade“. A rede colaborativa, pulverizada, descentralizada, fluida, não-hierárquica da qual os blogueiros somos uma das muitas faces nos dá a chance incrível de escolhermos livremente aquilo sobre o que falamos, aquilo que lemos, aqueles que lemos, aqueles que preferimos ignorar, aqueles com quem nos damos ou não, enfim — a rede, os blogues, a internet (até certo ponto) são realidades anárquicas e eu creio, como crê mestre Ina, na capacidade de auto-regulação dessas “entidades”, uma vez que são vivificadas por nós todos que buscamos bom-senso e criatividade em nossas empreitadas. Imbuído dessa idéia, nada de cagar regras de comportamento por aqui — como costumeiramente não faço.
Feitas essas considerações cabe dizer que não fui ao Campus Party Brasil. No entanto, falarei da festa como se lá tivesse estado. As informações relativas obtive em fontes as mais fidedignas.
A dimensão de um evento como esse, que reuniu mais de 3mil pessoas envolvidas diretamente com o que é a internet brasileira, talvez nunca alcancemos. Ainda que eu prefira acreditar que análises pipocarão por aí, ajudando, ao poucos, na compreensão de alguns aspectos desse fato. Quando digo “dimensão” quero me referir a tudo o que direta ou indiretamente esteve, está ou estará envolvido com este evento. Aspectos que transbordam os limites (físicos) do Pavilhão da Bienal, repercutindo, sem dúvida, em ações muito pouco virtuais por parte de governos e iniciativas que-tais.
Há, entretanto, um aspecto sobre o qual gostaria de falar. Este: “A foto ‘oficial’ dos blogueiros do Campus Party“. Uma reunião de figurões da blogosfera brasileira, sorrisos e abraços, gente corada e saudável, sob o honroso título de “os blogueiros”. São quantos? Uns poucos… Ora, e eu achando (com alguma certeza) que os blogueiros (note, sem aspas) éramos milhares. E de repente, o fato: 20, somos apenas 20. Aparentemente, todos os “blogueiros do Campus Party” estão aí, quando, a bem da verdade, não estão todos aí — porque nem todo o espaço da Bienal abrigaria todas as barracas de todos os blogueiros do Campus Party.
“Blogs são liberdade”. E em seu espaço, em seu quinhão, cada um é dono de si. Mas os blogues não são estes quantos pro-bloggers. “Os blogueiros do Campus Party Brasil”, quero crer, são todos aqueles que em algum momento durante a semana de duração do evento deram uma passada pela Bienal ou falaram em seus blogues sobre o acontecimento (mesmo sem ter estado lá) ou repercutiram um assunto de uma (des)conferência que julgaram interessante, indicaram links, leituras, construiram análises, enfim, colaboraram, contribuiram, construiram a idéia de uma rede descentralizada, pulverizada, anárquica, não-hierarquizada, fluida, livre — que, obviamente, não precisa, nem depende, de rostos.
Mas o ser humano é incoerente. Um bom estudo de caso, esmiuçando essa verdade postulada, o Gravata (apesar de são-paulino) produziu brilhantemente (aqui e aqui) — no qual fala sobre o “socialismo de resultados” de MadDog e seus colegas, que foram a um evento patrocinado por uma empresa monopolista, levantando a bandeira do software livre. Esta foto “‘oficial’ dos blogueiros do Campus Party” é, como se dizia, um tiro no próprio pé. É a reprodução da sectarização dentro do espaço que nasceu em função de intenções unificadoras, agregadoras, colaborativas. Somos uma rede de blogueiros do Campus Party — e não há justiça ou coerência nessa foto. Nem um pouco, de nenhuma das duas coisas.
Ainda escrevo meus posts à caneta, não ganho dinheiro com meus blogues, não recebo visitas aos cântaros, não recebo patrocínio para posts — nem isto tudo é a verbalização de uma dor-de-cotovelo qualquer. Respeito iniciativas em contrário: porque respeito iniciativas originais e criativas de toda sorte. Apenas lamento que este primeiro Campus Party Brasil, um momento ideal para cada vez mais trazer as pessoas para dentro de um mesmo rumo, tenha terminado com uma chave torta, uma faca de dois gumes mais afiada de um lado, a boa e velha batalha de egos — tão-somente tapinhas e sorrisos para a foto.
O em mim.
Do quanto em mim recrio e faço renascer obrigado por tão doce função, caril do tempo, fecunda, sombra enlevada por espírito tão graciosamente zombeteiro. Fustigado “pela dor e pelo eterno vento”, cabisbaixo ante o peso de uma realidade trucidante — contumaz sensação de impotência e perplexidade.
Oriundo de tanta riqueza, fruto de beleza ímpar, massacrado por desvios de um orgulho inútil, enquanto se viam ao largo recomendações e revoadas de muitos nomes.
Fixo e inerte, petrificado súdito da tristeza, espera docilmente a solução que ponha termo a um amor tantas vezes recriado. O fim de tudo, a luta, a falta, o sorriso largo, encimado por sentimentos fruidos, tristemente solitário, claro e amante, como pedras que transbordam sua alegria fria entre verdes e o ar.
Cânone, flácido — irradiando. A própria voz, o sopro. Menção ao antigo, respeito consentido — amigo amoroso. Farsa.
pelo fim da palhaçada
O jornalista Luis Nassif, além de nos presentear com ótimos comentários sobre música brasileira (especialmente sobre o chorinho), está produzindo uma série de reportagens na qual busca elucidar o declínio daquela que já foi a revista semanal mais importante deste país, a revista Veja.
Transformada em um panfleto, ocupada em distorcer a realidade, usando meios escusos, praticando um arremedo de jornalismo, tendo em seus quadros pelo menos dois jornalistas de meia-pataca, os senhores Diogo “Minha Anta” Mainard e Reinaldo “Reinaldinho” Azevedo, deixou de ser, infelizmente, referência dentro do debate democrático e respeitável.
A série vai buscar explicações históricas para compreender o que levou a publicação aos níveis ridículos em que se encontra hoje. Não é, contudo, um trabalho definitivo — mesmo porque, seria injusto pedirmos isso ao Nassif.
De toda forma, é uma leitura imprescindível a todos aqueles que prezam o bom jornalismo. Os capítulos, já são seis, podem ser lidos a partir dos links contidos neste site.
comentários
Durante esta semana, dois posts me chamaram a atenção e me levaram a comentar — o que normalmente faço, mas nesses dois casos, com maior cuidado. Pretendo reproduzi-los aqui, neste post. Não sem antes, breve contextualização.
O primeiro, no blog Catatau!, conversando com o sempre gentil Catatau sobre o uso que se faz dos dados estatísticos no Brasil, de como esse uso tornou-se corriqueiro, inclusive acostumando-nos a certas imprecisões em nome deste ou daquele discurso. Isso a tal ponto que, na gravíssima questão sobre o desmatamento ilegal da floresta amazônica – especialmente no estado do Mato Grosso, o campeão deste triste ranking –, chegou mesmo a acontecer um bate-boca federal, entre o Presidente Lula e sua Ministra do Meio-Ambiente, Marina Silva, sobre os dados produzidos e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Lula dizendo que houve alarme exagerado, Marina confirmando a pesquisa do instituto, ressaltando o perigoso momento que vivemos.
Disse ao Catatau algumas coisas que costumamos, os geógrafos, saber mas não contar. Inclusive, tentei mostrar que o desmatamento da Amazônia não está, absolutamente, desassociado do projeto torto e mal ajambrado de nação que temos, todos nós, construído; que essa situação é, como tantas outras, resultado direto de séculos de desajustes no trato com nosso território – contribuindo, inclusive para o que costumamos chamar extrovertimento do território: o tempo todo voltado pra fora, respondendo a desejos externos.
A conversa prosseguiu e acabei falando um pouco sobre minhas aulas. Coloco aqui o comentário inicial e convido a quem tiver interesse, de seguir o link até o blog do Catatau.
Catatau,
Só interpretando os fatos com explícita má-vontade deixamos de concluir que o aumento descontrolado do desmatamento da Amazônia está diretamente ligado à atividade do agronegócio no norte/nordeste do Mato Grosso e no sul do Pará.
Não é esse o expediente nessas áreas desmatar a cobertura vegetal original, transformar antigas florestas em pastagens e, depois de pouco tempo, implementar as lavouras de soja (ou algodão ou, mais recentemente, de cana-de-açúcar)?
Estou com a ministra Marina Silva. E não me surpreende, no frigir dos ovos, a posição que o presidente tem assumido nesse caso. O governador Blairo Maggi é (ou era, precisaria verificar os dados) o maior produtor individual de soja do planeta, interessado, por certo, em aumentar ainda mais sua produção. O chamado “novíssimo ‘front’” da soja, no nordeste do Mato Grosso, na fronteira com o Tocantins, na “área de influência” da ferrovia Norte-Sul, em implantação, foi aberto por ele, com essa fazenda, citada no seu texto. Dali, a soja já se espalha por todo o Tocantins, oeste da Bahia, sul do Maranhão e do Piauí. Além das áreas já tradicionais, no Mato Grosso, em Goiás e no sul do Pará.
É muita soja.
Hoje, discutindo esse tema com meus alunos, acabamos chegando ao ponto que considero crucial: as imensas plantações de soja são apenas um novo ciclo dentro do modelo de construção nacional que adotamos mesmo antes de nossa independência política. Nossa preocupação sempre esteve e permanece voltada às demandas externas – e esse fato vai se realizando na maneira como o território é efetivamente usado. Sempre “extrovertidamente”.
Os efeitos danosos dessa prática sabemos bem: o desmatamento predatório e inconseqüente da Amazônia e do cerrado, os intensos e graves conflitos fundiários naquela região (a mais violenta do país,em número de homicídios, como mostra o recém-lançado Mapa da Violência); em outra esfera, tão importante quanto, a inexistência de um pacto nacional, de um “norte”, substituído por esses ciclos econômicos (nossos e de toda América Latina) que não nos ajudam, apenas aprofundam ainda mais as desigualdades históricas.
Abraço.
O outro comentário, cometi no blog da simpática Lucia Malla. Ainda há pouco ela publicou um post no qual nos mostra parte de um e-mail que recebeu de um seu amigo, voluntário numa ONG, que está, neste momento, no Chade.
“Dead hearth of Africa” – é com este carinhoso apelido que a Wikipédia nos apresenta o país. Dividido entre o deserto do Saara e o Sahel — que caminha inclemente cada vez mais para o sul, sufocando os poucos planaltos férteis; tão ressecado quando o outrora extenso lago Chade, de onde deriva o nome do país; sacudido por revoltas internas, desde sua independência perante a França, em 1960, onde se opõem muçulmanos do norte e etnias tribais do sul, que culminaram, na última semana, com a instauração do caos: refletido em tiros de metralhadora na sede do governo; no sítio à capital, N’Djamena; na fuga em massa dos representantes de nações estrangeiras e de funcionários “sobressalentes” das Nações Unidas.
O amigo inglês da Lucia, em seu e-mail, diz estar em Goz Beïda, um vilarejo a pouco mais de 150 quilômetros da fronteira com o Sudão – mais especialmente, fronteiriço com a região de Darfur, cenário de mais um dos inúmeros exemplos de desintegração da dignidade humana; daqueles humanos. Há quem diga, inclusive o amigo inglês, sobre suspeitas de que os rebeldes de Darfur estariam metidos na quizumba criada no Chade.
Em meu comentário, não fiz mais do que expor uma indignação que, apesar de verdadeira, é, de fato, pouco prática. Seria o cúmulo de um egoísmo acomodado e confortável imaginar que comentando raivosamente em blogs, ajudarei aquelas pessoas. No entanto, é o que faço.
Como tudo no mundo, como todos os países pelos quais se mata e se morre, o que vemos hoje na África é um retalho de linhas retas, desenhadas pelas potências coloniais (e neo-coloniais) européias. Muito já se disse sobre a incongruência mortal entre as linhas que existem e aquelas que deveriam(?) existir no continente – como em outros –, e não quero aqui criar eu mesmo linhas desnecessárias.
Segue o comentário.
Lucia,
É sempre um silêncio tão incômodo sobre a África. É sempre uma esquiva. São tantos e tão complexos os elementos que transformam aquele continente (e sua gente) em pouco mais que “curiosidade exótica”, assunto pra cinco minutos de conversa, que terminam geralmente com um suspiro.
A “bola da vez” é o Chad, como já foi o vizinho Sudão (e a carnificina de Darfur), a vizinha República Centro-Africana, o vizinho Zaire, a vizinha Nigéria, Costa do Marfim, Serra Leoa, Libéria, o Quênia… A lista é infinita.
Em cada um desses polígonos irreais (como somos todos), invenções de europeus muitíssimo mal-intencionados, a mesma história se repetindo (como farsa e como tragédia). Grupos que se beneficiam e abusam de outros; que destroem o país até chegar ao poder e revidar na mesma dose — ou maior — as injúrias recebidas.
Aqueles que poderiam fazer alguma coisa, se calam — levados por interesses os mais escusos, geralmente riquezas (minerais, naturais, humanas) abundantes em toda a África.
As análises sobre o continente nunca têm o tom grave e horrível da realidade. São sempre amenizados, já que ninguém quer “ofender” os interessados.É uma pena. Uma lástima. Uma tristeza. Especialmente porque, como em todos os outros casos, de Ruanda e Burundi a Somália, o mundo se fará de surdo e cego — pra que, no fim, tudo volte ao estado inicial, inseguro e deteriorado.
Boa sorte ao seu amigo. E àqueles que ele cruzar por lá — que não têm a esperança de um avião das Nações Unidas como solução de seus problemas.
Um beijo.







