Archive for Janeiro 2008
Considerações a Roberto de La Griva
“Senhor”, respondeu Saint-Savin, “a primeira qualidade de um homem de valor é o desprezo pela religião, que nos quer temerosos da coisa mais natural do mundo, que é a morte, fazer-nos odiar a única coisa bela que o destino nos concedeu, que é a vida, e aspirantes a um céu, de cuja eterna beatitude vivem apenas os planetas, que não gozam de prêmios ou castigos, mas do seu eterno movimento, nos braços do vazio.”
(Umberto Eco, “A ilha do dia anterior”.)
E música
The Dø
(Link daquela porcaria de MySpace.)
Eu fujo do hype. Desconfio da unanimidade, do sucesso indiscutível, das multidões. E por isso, olhei com muita desconfiança pra essa dupla. Já na primeira resenha que li, eles eram apresentados como “a nova aposta” do mundo da música alternativa pra esse ano.
Mas não resisti. Baixei A Mouthful e descobri que não mentiam. Eu realmente não sei se esses dois (uma finlandesa, dona dos vocais, e um francês) são a esperança do mundo da música alternativa, no entanto, a música que fazem, cheia de experimentações, misturas (eu ouvi hip-hop, funk, soul, folk rock, uma pitada de música eletrônica, música em finlandês e percussão árabe e, pra fechar, lá no meio, um ukelele[?]), é muito, muito boa. Os vocais da moça, Olivia, variam demais e são tão surpreendentes quanto as experimentações.
É sem dúvida, uma ótima surpresa. Se 2008 continuar como começou, teremos um grande ano pela frente.
Um torrent do disco.
The Moldy Peaches
(Site oficial da banda.)
Essa banda está em recesso, num hiato desde 2004. É uma das bandas que encabeçam a cena “anti-folk“. Ninguém sabe exatamente o que isso quer dizer, especialmente porque uma banda após a outra inventa seus próprios argumentos. No entanto, se querem uma opinião: todas elas estão juntas no estilo “lo-fi“, ou seja, gravações quase caseiras de tão cruas. Mais ou menos como nas primeiras gravações do Iron & Wine (de quem já falei aqui), com a diferença de que o Sam Beam é, talvez, essencialmente folk rock.
Se no folk rock os temas são geralmente pesados e tratados com profundidade, as letras do tal “anti-folk” falam de qualquer coisa, irreverentemente. Coisas do cotidiano. Numa das músicas, um casal de namorados conversa num sofá, com um violão esporádico… Nada muito grave.
Uma música do Moldy Peaches, “Anyone else but you”, está na trilha do filme Juno, que estréia dia 1º de fevereiro no Brasil. É um ótimo exemplo do que será encontrádo na bolachinha. (Mas cuidado. Não é um disco que deixo na repetição infinita.)
Aqui, um torrent pro disco.
Radar Bros.
Descobri essa banda tarde, acho. Baixei o último disco — Auditorium, de 2008 — por indicação de algum dos blogs sobre música ali ao lado. Não me arrependi, de jeito nenhum. Há muito mais material, desde 1993, quando a banda se formou, em Los Angeles. As músicas são calmas, não ofendem os ouvidos — o vocal suave, arranjos redondinhos, o barulho dos dedos escorrendo pelas cordas dos violões… Música pra um dia ensolarado, com sorvete e fim de tarde bem acompanhado.
Comparado ao Moldy Peaches aí de cima, esse disco fica repetindo infinitamente. É um lindo disco.
Um torrent e um link pro último disco. (O link foi retirado deste post do blog Una Piel de Astracán.)
Fernanda Takai
Conheço apenas uma pessoa que não gosta do Pato Fu. Essa pessoa justifica o não gostar justamente pelo que o Pato Fu tem de mais bonito: a voz da Fernanda Takai. Não sei explicar o ponto de vista dessa pessoa, mas gosto é gosto — não se discute, apenas se lamenta.
Adoro o Pato Fu. É, nessa era pós-Los Hermanos, uma das minhas bandas brasileiras prediletas, entrando facilmente num hipotético Top 5. O último disco da banda, Daqui pro futuro, do ano passado, passa no teste da repetição (meu principal teste pra determinar a qualidade de um disco).
Também em 2007, a Fernanda gravou um disco com músicas interpretadas anteriormente pela Nara Leão. Composições de grandes nomes da música brasileira, que ganharam “nova roupagem”. Por mais que dizer isso pareça resenha paga, é a verdade. Os arranjos estão todos diferentes, nada é realmente como esperamos. Em “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, um xilofone; em “Com açúcar, com afeto”, uma guitarrinha de fundo e tudo muito mais leve, apesar da letra; o chorinho “Odeon” tornado um quase jazz; em “Estrada do sol”, os pingos da chuva brilham mais, cantados pela voz macia da moça.
Delicioso o disco. Simplesmente delicioso.
Um link do disco (retirado deste post do blog Música Social).
em cadeia mundial

O Le Monde ficou sabendo. A Folha leu e repercutiu. O El País, dormindo no ponto, foi avisado pelo feed do Le Monde.
Minha vez de dizer, então: Suharto, ex-presidente ditador da Indonésia, morreu, aos 86 anos.
~.~.~
Claro que é um caso atípico, a morte de uma figura política conhecida mundialmente. Mas não é incomum perceber que são sempre as mesmas notícias, sempre repercutidas da mesma forma, partindo sempre das mesmas agências internacionais — com as mesmas fotos, apenas editadas de maneiras diferentes.
Dá o que pensar.
considerações e dúvidas
(Contém spoillers.)
Li O Estrangeiro, de Albert Camus, “numa sentada”, como se diz. Não poderia haver cenário mais agradável: um quiosque na Praia Grande de Ubatuba (que apesar de ser a mais lotada da centena de praias do município, tem a mesma água verde-azulada da mais escondida e de difícil acesso), sentado confortavelmente, descalço, observando vez por outra o mar e suas pancadas, bebericando e petiscando (com muito comedimento, porque aqui não somos dados a exageros).
Um livro inquietante, pra dizer o mínimo. Uma narração descritiva, detalhada por certo, mas não cansativa — como podem ser cansativos livros excessivamente detalhistas em suas descrições, especialmente aqueles escritos por pessoas pouco talentosas. A impressão de que a história começa de repente, de que os acontecimentos vão se sucedendo com grande velocidade (ainda que o livro tenha um ritmo lento), de que algumas poucas páginas depois (o leitor desavisado já sem fôlego) e Mersault está preso e condenado.
“Preso por não ter chorado no velório da mãe”. Um exagero de Camus — um absurdo. Mas um absurdo real, fatídico. O júri que o condena ouve atentamente a apresentação do promotor público que, durante todo o tempo “fala mais da alma” do jovem, de seu comportamento pouco usual em relação a passagens obviamente consternadoras, do que propriamente do crime que cometera Mersault.
Nesse ponto, com relação a esse julgamento, tão eficiente a ponto de condená-lo à morte, ficou um apontamento, uma dúvida. Que, claro, pode ser só uma idiotice, uma tolice, mas que preciso expor, afim de não deixar que se perca.
O estrangeiro é essa pessoa que, estando neste mundo de aparências, queda-se alijado do habitual, do comportamento recomendado. Ignora por preguiça certas regras, certas condutas que, num momento oportuno, potencializam e certificam sua atitude criminosa e culminam com a caracterização de um monstro social, um pária, um verme — que, como tal, será exterminado.
Até que ponto a liberdade individual é limitada por esses ritos socialmente reproduzidos? Há sempre uma voz que se levanta contra a supressão dessas liberdades em partes muito específicas do mundo, pretendendo estender este ideal aos oprimidos – mesmo que à custa de mais opressão; nesse caso, não importam os meios. O ideal de liberdade almejado corresponde ao que experimentamos nós outros, habitantes de democracias do tipo ocidental? O que dizer da influência constante e, por vezes, imperceptível desses hábitos, desses códigos morais, do agir aguardado — vale dizer, da atitude de minha imagem na existência do outro? Há, de fato, essa liberdade que defendem como um ideal?
(São grilhões; firmemente presos a uma placa de concreto. Correntes com imensas bolas de ferro na ponta — que arrastamos; que carregamos por toda parte, derrubando outras possibilidades como a pinos de boliche.)
only skin
Deitado na cama, inerte, pensando.
… nenhuma clareza em meus pensamentos, nem mesmo imagino onde quero chegar partindo dessa ligeira organização mental. Apenas tenho a impressão de que as coisas vão acontecendo rápido demais — não consigo perceber esse sem-número de fronts. Além do quê, há essa preguiça moralmente condenável (e digo isso com leveza de espírito), que me impede uma maior atenção aos acontecimentos todos (especialmente os mais “mundanos”, por assim dizer — como pagar contas).
… são apenas reflexos e sustos. Me assusto seguidamente com essas lembranças repentinas de situações ou compromissos que surgem e desaparecem instantaneamente. E tudo isso acontece concomitantemente: o recordar, o esquecer, a consciência de ambas as coisas, a consciência da consciência…
; fazer certas escolhas, quando efetivamente me proponho a isso, cria conseqüências que no mais das vezes, não enxergo. (Se enxergasse, não teria paciência para elas. E não faria estas escolhas.) Não prevejo o que me espera quando escolho tirar uma pessoa do meu convívio. E, por incrível que pareça, nesses casos, emprego toda a disposição de minha alma condenada para não precisar estar na companhia de tal pessoa; que, miseravelmente, vive cercada de muitas outras pessoas — nem se dando conta, portanto, de minha opção reprovável. No entanto, se ela chega aos ouvidos alheios (ou se alguém percebe o que estou fazendo), sou obrigado a testemunhar uma miríade de reações negativas de todo tipo: tentativas de amenização, olhares fulminantes, indiferenças pretensamente desdenhosas e a certeza de que levo uma vida amargurada e ressentida. No meio disso tudo, algumas concordâncias tácitas (tão hipócritas). De forma que a preguiça — que me acompanha imperiosamente — se apodera das minhas vontades e, inclusive, sorrio docemente, diligentemente para quem me desespera.
Digo sem medo: sou uma farsa. Nada do que vêem em mim é correspondente ao que sou de fato. Jamais aceite meus sorrisos ou meu perdão mais sincero como prova de amizade ou carinho. Desconfie dos meus amores. Me vigie. Me afaste. Em suma, me odeie. Sem saber o motivo, me odeie. Crie em si uma imagem repugnante de mim — e assim você estará seguro; sabendo o que sou, a partir da imagem que você mesmo criou, me dê aquilo que, justamente, não faço por merecer.
=)
=)
“yo no veo otra salida”
já que são cinco horas da manhã e estou acordado, não me custa querer escrever. fico preocupado. não sei como será a volta à rotina. terei que acordar na hora em que tenho ido dormir… não é uma boa perspectiva. em 2007, nessa mesma época, estava me consumindo por dentro por não saber como seria. tudo. acordar muito cedo, encontrar pessoas diferentes — os alunos, os outros professores –, lidar com as obrigações burocráticas. e de tudo, acho que, no fim, bem no fim, não consegui me dar bem apenas com as malditas burocracias. hoje, a ansiedade é diferente. sei, melhor, suponho o que encontrarei baseado em alguma experiência (um ano, bem sei, mas não deixa de ser). fico aqui imaginando em mudanças que precisam acontecer nas minhas aulas. pensando em conselhos que escutei de outros, mais experientes — e, nesse processo, saudavelmente, ganho outras dúvidas. até que ponto quem me aconselha a “não ser amigo dos alunos”, por não ser essa “minha função” na escola, está correto? há um limite nessa relação? ela é meramente profissional, no sentido de que devo simplesmente transmitir os conteúdos da melhor maneira possível, sem me ater a assuntos pessoais? ser um professor é como ser um engenheiro — preciso, regrado, firme… tapado (mil perdões)? não devo conhecer meus alunos? “conhecer alunos” é “bobagem” desse povo que lê “aquele” Gilberto Freyre? sei cada vez menos. esse ano, terei uma aluna cega. completamente cega e na quinta série. informações sobre como lidar com isso, idéias de como apaixoná-la por uma Geografia que ela não vê, figurinhas pra trocar — tudo muito bem-vindo, sempre. a Cris Simon disse bem, 2007 ainda não acabou. ou é 2008 que não começa. quando começar, espero estar disposto.
lembranças
uma nova “seção” do blog: que trata dos livros lidos durante o ano. fica ali ao lado, mais pra meu controle — como auxílio à minha memória já falha após tantos anos de uso ininterruptos.
… a fina arte da ironia.
fico pensando que os meses podiam ser mais Janeiro às vezes. quatro livros em um mês… um deles, O Estrangeiro, lido ao lado da “pancada do mar” de Ubatuba — comprado no sebo da cidade, junto com Cem anos de solidão e O Velho e o Mar, que estarão na lista daqui algum tempo.
e vamos…
linkagem
Algumas coisas (possívelmente “notícia velha”):
- a Verbeat com mais uma das suas: o blog ecológico Faça a sua parte!, mais um morador do condomínio, sob o comando de Lucia Malla, Flávio Prada e demais contribuidores, discutindo temas ambientais;
- o Pedro Dória, dando uma aula sobre democracia, respeito e tolerância em seu blog, depois de alguns comentaristas terem excedido um pouco o limite da boa discussão; e diz, com muita propriedade: “Numa democracia, as pessoas mais interessantes são aquelas com quem discordamos“;
- o Idelber Avelar, por estas bandas conhecido como o Professor Idelber, apresenta o livro A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antônio Risério, e muda suas convicções sobre o sistema de cotas raciais (o que muito me alegra — a mudança em si, a coragem);
- o Hermenauta, em sua empresa incansável no escrutínio das estultices ditas pela direita anaeróbica (e quanta diligência), deu uma aula de lisura na apuração de fatos em sua resposta a um post da blogueira catarinense, à direita, Nariz Gelado. Um petardo, senhores…
Pronto.
Soledad,
Aqui están mis credenciales,
Vengo llamando a tu puerta
Desde hace un tiempo,
Creo que pasaremos juntos temporales,
Propongo que tú y yo nos vayamos conociendo.
Aquí estoy,
Te traigo mis cicatrices,
Palabras sobre papel pentagramado,
No te fijes mucho en lo que dicen,
Me encontrarás
En cada cosa que he callado.
(Soledad, Jorge Drexler)
Soledad,
Aqui están mis credenciales,
Vengo llamando a tu puerta
Desde hace un tiempo,
Creo que pasaremos juntos temporales,
Propongo que tú y yo nos vayamos conociendo.
Aquí estoy,
Te traigo mis cicatrices,
Palabras sobre papel pentagramado,
No te fijes mucho en lo que dicen,
Me encontrarás
En cada cosa que he callado.
(Soledad, Jorge Drexler)
só
fora de casa. exilado. fumegante sob esse calor que insiste em invadir a noite, as roupas, a cama…
uma agonia estranha – e a vontade de voltar ao canto, sem saber sair.
as madrugadas insones são sempre muito difíceis no exílio. há certos hábitos que não são transferíveis. ficam lá. e lá é longe e inacessível.
queria saber dormir como os outros. apenas deitar e dormir… apenas…
“ôi Cábu Vêrdi!”
Cabo Verde é uma república africana, um arquipélago formado por dez ilhas vulcânicas, próxima da costa do Senegal. Foi colônia portuguesa desde o século XV até 1975. Os lusitanos deixaram sua língua como herança — além de alguns pelourinhos espalhados pelas maiores cidades –, que os cabo-verdianos souberam mesclar com seus próprios elementos para criar um autóctone crioulo cabo-verdiano — que, apesar de estar fundamentado no léxico português, me parece absolutamente ininteligível. E é. É outra língua, que divide com o português o dia-a-dia dos habitantes.
É a língua crioula mais antiga do mundo e guarda resquícios do português que era falado nos séculos XV e XVI — portanto, tem enorme relevância lingüística.
O ritmo tradicional de Cabo Verde é a morna. Cujo nome pode derivar de inúmeras fontes, mas crer que seja a variação feminina de “morno” — e que se relaciona com a suavidade e dolência da vida nas ilhas e, por conseqüência, dos versos cantados — é o que mais me agrada. É um ritmo alegre, com uma percussão semelhante aos ritmos caribenhos, com letras repletas de histórias sentimentais, tristes, mas, por vezes, contando sobre festas e situações corriqueiras mais leves. Talvez seja a melhor tradução do povo daquelas ilhas, a exemplo de outros ritmos tradicionais como o tango argentino, o lundu angolano, a mazurca polonesa, o samba brasileiro, etc.
O maior expoente das artes cabo-verdianas é, indiscutivelmente, Cesária Évora, a “rainha da morna” ou “a diva dos pés descalços”. A esta senhora, nascida no Mindelo, em 1941, os louvores nunca farão justiça a toda sua força e à sua música poderosa. Sua voz forte e a presença desconcertante hipnotizam. Recomendo sua obra completa, mas em especial os discos “Café Atlântico”, de 1996 (torrent), e “Rogamar”, de 2006 (torrent).
Ontem, buscando por outro artista, acabei topando com este tópico da comunidade “Discografias” do orkut e tomei conhecimento de mais uma cantora de morna, a Lura. Uma jovem lisboeta, fluente no crioulo cabo-verdiano que compõe e canta nesta língua. Sua voz é lindíssima e suas músicas, alegres, dão outra dimensão a este ritmo tão brilhantemente conduzido pela Cesária Évora há tantos anos. Recomendo fortemente.
sobre um sonho
ela sorri enquanto escreve. seus lábios cheios e muito vermelhos acompanham o nascimento do texto — que surgiu num espasmo de tempo, num minuto em que a conversa excitou seus pensamentos.
não sei bem como as idéias se organizaram em sua cabeça antes de o papel estar repleto de todas elas; escritas lindamente. não a vejo, tampouco. imagino seu sorriso e as mãos inquietas traduzindo sentimentos. a respiração mais lenta, talvez os pés balançando nervosamente. a crueldade com seu texto: refazendo partes, apagando, retirando… julgando imprestáveis passagens impressionantes. burilando a si mesma, escrevendo esse resultado. obrigando a suspiros.
seu perfume doce me inunda. (das improbabilidades.) a suavidade de suas palavras é o que busco — sem saber. porque não sei. porque não soube, talvez.
atravesso paredes e a vejo sentada, arrumando os cabelos. desejo, por admirar. admiro por há muito ter desistido de procurar.
das coisas desnecessárias
Deve ser mais uma prova da minha inconseqüência, o atestado do meu comportamento certamente lunático, a “última gota” — se alguém realmente cansado das minhas excentricidades acabasse vendo –, ou é só mais uma coisa pra eu contar pra pessoas erradas e ouvir um “Thiago, como você é esquisito!”.
Há quase uma semana deixei um copo com o fundo sujo de refrigerante na mesa que fica ao lado da minha cama. Quem limpa a própria casa sabe o que deve ter acontecido. Isso, uma colônia de formigas se mudou pro copo. Milhares, milhões de formiguinhas cor de caramelo subindo pela borda do copo, descendo até o nível do líquido, lambendo, sugando, mergulhando (ou seja lá o que formigas fazem), subindo e descendo de novo, em fila, organizadamente, ininterruptamente, durante uma semana. Numa noite, enquanto lia, aproximei a luminária do copo e fiquei alguns minutos observando, respirando leve, pra não causar pânico desnecessário. O nível desceu ao longo dos dias, algumas morreram em função da tarefa arriscada (imagino que o vidro não seja algo muito aderente, mesmo pra elas), uma fina camada brilhante apareceu na superfície do refrigerante (que imagino ser saliva de formiga, e me deixa!) e…
Entretanto, apesar de tudo isso, dessa confusão, o atestado da minha insanidade é outro. Deixei o copo ali porque quis deixar as formigas felizes. Loucura, eu sei… Um copo sujo de Coca-Cola, deixado ao lado da cama por uma semana, cheio de formigas — porque queria deixá-las felizes. Nem eu mesmo acredito. Mas garanto que, no fundo, era nisso que pensava quando me decidia a tirar o copo de lá.
~. ~.~
E para ilustrar: isto.







