Archive for Março 27th, 2007
sessão pipoca
então vamos falar sobre cinema. nos últimos dias assisti há alguns filmes. dois deles merecem nota.
ontem à noite, aqui em casa, revi Match Point, do genial Woody Allen. mas não é sobre esse filme que quero falar, é sobre o Scoop, também do Woody e também com a magnífica Scarlett Johanson no elenco. muita gente disse que esse último é uma das produções mais fracas do diretor. eu, particularmente, levei muito tempo pra
assisti-lo (vi hoje, no cinema), e acabei esquecendo as críticas todas. sentei na cadeira, ajeitei os pés e vi uma Scarlett que eu não esperava ver – diferente, porque não interpretando o papel que normalmente lhe dedicam, o de mulher linda e sexy (apenas). não que ela não cumpra esse papel em Scoop, mas me parece que ela vai além. é uma Scarlett cômica, que se veste mal, andando com sapatinhos parecidos com as antigas Congas… aqueles óculos… claro, permanece intensamente a aura de diva, de mulher arrasadora, sexy, inatingível, mas com tintas de menina comum, possível. além dessa Scarlett, encontrei o Woddy Allen engraçadíssimo, comediante, com o ar de “piadas sem querer”, como se ele quisesse dizer coisas sérias, mas sem conseguir – sem ser levado a sério. primeiro a seqüência em que ele ouve dela o relato do fantasma surgindo na caixa chinesa – se engasgando, gaguejando, vacilante – e, depois, quando ela o apresenta como seu pai, à beira da piscina, foram de chorar de tanto rir. não sei onde as pessoas encontraram tantos motivos para críticas a esse filme. não é o Woody Allen de sempre, em Nova York, denso, dramático? não. e que bom. uma ótima surpresa.
o segundo filme é Maria Antonieta, de Sophia Copolla. Encontros e Desencontros, é, sem dúvida de errar, o filme da minha vida. já
devo ter assistido mais de 20 vezes e é sempre a mesma emoção transbordante. li, dias atrás, depois de ver o filme, a crítica dessa moça, na qual cheguei através de um link no site do LLL. lá, ela diz que não gostou nem do primeiro e que o segundo, por ser uma continuação diacrônica do primeiro, merecia o limbo. sinceramente, não sei onde ela encontrou tantos defeitos nos filmes. o Encontros e Desencontros se propõe a mostrar a apatia em relação à vida e a tudo que se relacione a ela nas reações dos dois personagens centrais – o incrível Bill Murray e a Scarlett. o Japão é um cenário mais do que perfeito, já que se trata de um lugar absolutamente hiperbólico. a maneira como os japoneses adaptaram a sua cultura tradicional às novidades infinitas do mundo moderno transformaram o arquipélago num laboratório a céu aberto sobre a força absurda dessas “normalidades” que a gente encara tão bem deste lado do mundo. os dois personagens perdidos naquele “conto de fadas” – com dinossauros passeando nos arranha-céus, o menino tocando guitarra com o cigarro na boca e pose de rock-star, o clube de strip tease onde os homens não tocam as mulheres (impuras, ainda que as vejam e as cobicem), enfim, não terminaria nunca a lista; tudo isso potencializa a mensagem do filme, que, a meu ver, é a de que, apesar de vivermos num mundo tão repleto de possibilidades – de contato com o diferente, de locomoção, de trocas, de experiências -, se não nos fixamos em alguém, tudo perde valor, sabor, cor…
o Maria Antonieta, tão esperado (não por acaso, quero crer), se é uma continuação diacrônica do Encontros e Desencontros, faz isso muito bem, eu acho. a rainha francesa, menina austríaca, jogada aos leões e às leoas de uma corte famosa por suas intrigas e mesquinharias, adaptou-se como pôde à sua nova realidade. chegando ao ponto de sugerir brioches ao povo que padecia sem o pão. isso visto de dentro, com os olhos de alguém que circulasse pelos palácios, pelas festas, por cada um daqueles corredores, se mostra como aquilo que vemos na tela: uma sucessão de futilidades aristocráticas, de atitudes equivocadas de uma menina-rainha que mal teve a chance de se achar naquela sociedade tão cruel com o diferente.
no fundo, só a Sophia Copolla pode dizer exatamente o que ela quis transmitir com os dois filmes; o máximo que fazemos é supor. no que me diz respeito, tanto Lost in Translation quanto Marie Antoinette merecem aplausos fervorosos. aliás, a trilha sonora em ambos é fabulosa; os acontecimentos diários da rainha francesa embalados por New Order, The Cure, The Strokes, Bow Wow Wow, The Radio Dept. ficam ainda mais saborosos.







